quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Textos para 1a. série / Ensino Médio - 4o. bimestre

13. A vinculação entre clima e vegetação no meio ambiente
Profa. Celina – Geografia – 1ª. Série - EM

Uma das principais manifestações da vida na superfície terrestre é a imensa mas­sa de vegetação que se distribui pelo pla­neta. Sua existência pretérita (passada), sua presença atual e a condição de permanência no fu­turo sempre estiveram e estarão ligadas às condições dos domínios naturais, designa­ção conceitual que se refere à combinação das três esferas inorgânicas (abióticas): li­tosfera, hidrosfera e atmosfera. Cada um desses elementos interfere na distribuição da cobertura vegetal, com destaque para o clima.
Vamos trabalhar as relações entre os domínios na­turais, que são inorgânicos, e as manifestações da vida. Será dado destaque à relação entre clima e distribuição das formações vegetais, relação que não se esgota no presente, na me­dida em que os climas do passado deixaram marcas na geografia das coberturas vegetais.
Anteriormente, trabalhamos a dimensão inorgânica da natureza, especialmente a litosfera, uma das esferas da superfície terrestre. Como as formas de vida se inserem na dimen­são inorgânica (no meio abiótico) da superfície terrestre?
É na litosfera que se formam os solos, que são rochas decompostas e é neles que surge a vida vegetal, onde as plantas mergulham suas raízes para se alimentar. Nas regiões mais elevadas da litosfera, nem todo tipo de vida é possível, e, na verdade, a vida chega a rarear (diminuir). Já nas partes mais baixas das áreas continen­tais, a vida vegetal se multiplica.
            As águas (hidrosfera) são fundamentais para a vida ve­getal. As maiores florestas do mundo são as florestas úmidas. Quando as águas escas­seiam, a vida se ressente.
As formações vegetais são diretamente influenciadas pelas condições climáticas (atmosfera), visto que a água e as temperaturas são elementos-chave na existência da vida.
A vida não é um fenômeno isolado, ela é possível apenas na relação com os elementos não vivos  (abióticos) dos ambientes. A formação dos solos resulta do processo de de­composição das rochas, que tem no clima uma energia fundamental: chuvas, infiltração de águas, contraste entre calor e frio, por exemplo, são forças naturais que desagregam as rochas. O mesmo ocorre com a água: a diversidade do cli­ma é em boa medida responsável pela distribui­ção desigual de águas na superfície terrestre. Um segmento da superfície terrestre que se caracteriza por relevo plano e baixo, com hidrografia rica e com muita umidade e calor, será bastante con­fortável para a manifestação da vida vegetal.

Dos domínios naturais para a biosfera: as conexões e as escalas geográficas
Como os elementos naturais se relacionam? Como viabilizam a vida vegetal e como se combinam e interferem na distribuição das formações vegetais nas terras emersas do planeta? Tratam-se de fenômenos complexos, considerados produtos de várias relações ou vários fatores, estabele­cidas entre muitas realidades, que interagem entre si. É diferente de um fenômeno simples, produto de um único fator.
Por exemplo, as relações de interdependência são necessárias à manu­tenção da vida vegetal, logo é um fenômeno complexo. Para sintetizar, observe o esquema da composição da biosfera:


Litosfera (estrutura geológica, relevo) + hidrosfera (rios, lagos, águas subterrâneas) + atmosfera (fenômenos climáticos) = domínios naturais
Domínios naturais + solos + vida (formações vegetais e fauna) = biosfera


Há vida em todos os recantos do planeta?
Os domínios naturais correspondem às mais diversas combinações da atmosfera (cli­ma), da litosfera (relevo) e da hidrosfera (oceanos, rios e lagos). Vejamos algumas:
- Existem combinações que são ideais para a vida: Clima quente e chuvoso + relevo de baixas altitudes + grande disponibilidade de água doce = condições excelentes para a proliferação da vegetação;
- Existem combinações que dificultam a vida (parte I): Clima muito frio + relevo irregu­lar e montanhoso = situação de deserto frio, sem presença generalizada de solos e com escassa vegetação;
- Existem combinações que dificultam a vida (parte II): Clima muito quente e árido (muito seco) + relevo plano + hidrografia pobre = situação de deserto quente, solos pobres e arenosos, com escassa presença de vegetação.

A lógica que relaciona o clima e as formações vegetais
Observe a “Variação vegetacional segundo altitudes (segundo andares)”, na página 6 do caderno do aluno. As formações vegetais estão relacionadas ao relevo, ou seja, a altitude:
- Lado esquerdo do triângulo: região de clima temperado (estações bem marcadas, com algumas variações);
- Lado direito do triângulo: região de clima tropical (calor e umidade, com algumas va­riações internas);
- Quer nos climas temperados, quer nos tropicais, a vegetação vai diminuindo de porte à medida que as altitudes aumen­tam e a umidade diminui, escasseando proporcionalmente com o aumento das altitudes;
- Nos   climas   temperados  (mais frios), a 3 000 metros de altitude, a vegetação   praticamente desaparece, enquanto  nos  climas  tropicais  ainda aparecem estepes. Aqui fica exposto um fator que interfere nessa distribuição: o clima, mais especificamente as tem­peraturas e, em parte, também a umidade. Conforme as altitudes se elevam, a temperatura diminui (cerca de 0,6° C a cada 100 metros). Assim, se no nível do mar a temperatura numa área tro­pical está a 30° C, a 3 000 metros essa temperatura será de ± 12° C (3 000 di­vidido por 100 = 30 multiplicado por 0,6 = 18° C → 30° C - 18° C = 12° C). Como no clima temperado a temperatu­ra já é menor, a 3 000 metros quase não aparece mais vegetação;
- À medida que as altitudes diminuem e a umidade aumenta, a vegetação adquire por­te, chegando até as formações florestais.
As for­mações vegetais vão ficando diferentes com o aumento das altitudes: essa diferenciação está associada à mudança vertical dos ambientes: quanto mais alto, mais frio e menos umidade.
O que ocorre se a mudança for horizontal, ou seja, com o espalhamento na superfície das terras emersas? A lógica é a mesma: o que varia verticalmente (em altitude) ou horizontalmente (em extensão e latitude) são os mesmos elementos climáticos. Veja o quadro a seguir:


           As massas vegetacionais (ou formações vegetais) são classificadas em estratos (elemento-chave para compreender a classificação das formações vegetais) denominados arbóreo, arbustivo e herbáceo.  
Veja as características no quadro “Tipos de formação vegetal” na página 7 do caderno do aluno. Ao nos referir­mos a um estrato arbóreo, estamos falando dos tipos de planta, porte (altura), estru­tura (se formação fechada ou aberta), distribuição. A menção ao domínio de um estrato já dá informações sobre a formação vegetal que se quer descrever. As quatro formações vegetais são as principais mani­festações da vida nos meios bióticos e, por isso, são chamadas de biomas.
Na caatinga nordestina, os es­tratos que a compõem são arbustivo, arbóreo e herbáceo, sem que nenhum seja dominante. O tipo de vegetação é uma savana seca, igual no cerrado. A caatinga e o cerrado são tipos de savana. O quadro abaixo detalha mais essa classificação:



Glossário:
Atmosfera: conjunto de gases combinados que envolvem a superfície terrestre a que chamamos de ar.
Biosfera: conjunto da vida vegetal e animal no interior dos domínios naturais.
Clima: sucessão de tipos de tempo gerada pela circulação de massas de ar quente e frio, mais ou menos carregadas de umidade, e pelas chuvas. Tudo isso é sentido na superfície terrestre e interfere no funcionamento da litosfera, da hidrosfera e da vida.
Complexidade: característica dos fenômenos cuja existência e forma de funcionamento dependem de múltiplas relações.
Domínios naturais: 1. A interação da atmosfera com a litosfera e a hidros­fera forma um domínio natural; 2. Mundo inorgânico; 3. As combinações no mundo inorgânico são variadas, o que gera diversidade de domínios naturais.
Hidrosfera: 1. Conjunto das águas na superfície terrestre; 2. Com­posta de oceanos e mares, águas subterrâneas, rios e lagos.
Inorgânico: matéria sem vida (abiótica) presente na superfície terrestre.
Litosfera: 1. Conjunto dos elementos sólidos que formam a crosta terrestre; 2. Estruturas rochosas que são um dos componentes dos domínios naturais.
Orgânico: 1. Mundo da vida; mundo biótico; 2. Os seres vivos vegetais e animais; 3. Combinação dos domínios naturais mais a vida.
Simplicidade: Condição dos fenômenos que resultam apenas de um fator.
Solo: 1. Camada que se forma sobre as rochas, não muito duras, e que é pro­duto da desagregação das rochas e da decomposição de matéria orgânica; 2. Dimensão do meio ambiente onde prolifera a vida vegetal.
Vegetação: 1. Forma de vida que se desenvolve nos solos, consumindo nutrientes e água e usando a energia solar; 2. Forma de vida que se desenvolve nas terras emersas, fixada ao solo.

14. A distribuição das formações vegetais: a questão da biodiversidade

Há pelo menos 30 anos têm se intensifica­do as preocupações com a continuidade da vida no planeta. Nessa discussão, destaca-se um novo valor, reconhecido por demonstra­ções científicas e argumentações filosóficas: a biodiversidade. A manutenção da diversi­dade biológica transformou-se na principal bandeira dos que entendem a urgência da crise ambiental imposta ao planeta pelo ser humano.
Qual a lógica geográfica da existência e da distri­buição da diversidade biológica na Terra? Quais são as ameaças decorrentes da contí­nua remoção das formações vegetais do planeta?
Algumas idéias relaciona­das ao fenômeno da biodiversidade:
- Há relações fundamentais entre os domínios naturais (litosfera, hidrosfera e atmosfera) e as condições de cada meio ambiente;
- Entre os elementos dos domínios naturais, o fator climático é o que mais influencia a proliferação da vida.
Há uma lógica na distribuição das espécies e em sua multiplicação:
- em ambientes de clima mais frio e de me­nor umidade, a vida sofre restrições, por isso poucas espécies se adaptam;
- em ambientes de clima mais quente e maior umidade, a vida se desenvolve mais facil­mente, por isso mais espécies se adaptam e há maior diversidade biológica;
- os ambientes de maior diversidade bioló­gica encontram-se nos trópicos úmidos.

A biodiversidade e os climas do passado
As condições ideais para a vida encontram-se nas florestas tropicais, que são formações vegetais
com a maior diversidade biológica do mundo. Diversidade que abrange não somente plan­tas, mas também animais, em especial insetos, pássaros e mamíferos.
Vamos ler o texto “O grau de biodiversidade no Brasil”, na página 11 do caderno do aluno.
Como se dá a distribuição das formações vegetais no mundo? Qual o impacto do aquecimento global na biodiversidade? Quais são as consequências para a distribuição das formações vegetais e para a diversidade biológica terrestre?
Hoje em dia, muito se fala sobre as mudan­ças climáticas e o aumento da temperatura do planeta, que constituem o fenômeno do aque­cimento global. Sabemos da importância do clima na distribuição da ve­getação, mas como saber quais serão essas con­sequências e com que intensidade ocorrerão?
 Os climas da Terra já foram muito diferentes dos atuais. Se foram diferentes, a distribuição da vegetação também já foi outra. Por exemplo: “na maior parte do continente africano, entre 12 mil e 7 mil anos atrás, o clima não era tão quente e era bem mais úmido. Ao sul do Deserto do Saara predominava o clima temperado mediterrâneo. Aliás, o deserto tinha uma extensão bem menor. Desenhos rupestres (de comunidades humanas antigas) encontrados em regiões tomadas pelo deser­to atualmente mostram que nelas existiam savanas e que o deserto, tanto em sua porção norte e sul, encontrava-se a 100-250 quilôme­tros para o interior.”
AYOADE, J. O. Introdução à climatologia para os trópicos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991. p. 220.
            A lógica que regula a distribuição vegetal é: a expansão do frio e diminuição da umidade resulta em expansão dos biomas mais adaptadosm e dimi­nuição da tropicalidade.
            Os períodos glaciais (geleira, gelo) e interglaciais afetaram especialmente as latitudes médias e altas; concomitantemente, nas baixas latitudes tropicais, ocorreram períodos pluviais e interpluviais. Leia o texto “Consequências  da glaciação Würm-Wisconsin para a vegetação”, na página 13 do caderno do aluno.
Houve uma sucessão de períodos frios e quentes. Com a glaciação de Würm-Wisconsin, o clima esfriou; no final desse período, o clima da Ter­ra mudou, ficou mais quente: houve um aque­cimento global. Aquecimento resultante das forças da natureza, assim como o esfriamento anterior também tinha sido. Não foi nem a pri­meira vez, nem a última. O clima da Terra sem­pre variou ao longo do tempo da natureza.
De­pois de Würm-Wisconsin, quando o clima ficou mais quente, a biodiversidade anterior não se recom­pôs. Quando o planeta voltou a esquentar, muitas plantas não haviam sobre­vivido ao frio intenso, nem sequer suas sementes. Além disso, o ambiente já havia sido ocupado pelas plantas que conseguiram re­sistir às mudanças climáticas. O avanço do frio ou da seca pode cau­sar perda da diversidade biológica.
Relativos à lógica da dinâmica da biodiversidade no interior das formações vegetais, podemos concluir que:
- Fatores climáticos como o frio e o calor, as chuvas e as secas interferem decisiva­mente na biodiversidade;
- As mudanças climáticas que já ocorreram na Terra (do mais frio para o mais quente, ou do mais quente para o mais frio) in­terferiram na biodiversidade do presente e deixaram marcas. Por exemplo: a biodi­versidade perdida com a última glaciação não foi recomposta;
- A mudança climática que está ocorrendo agora (o aquecimento global) vai interfe­rir na distribuição da vegetação e na or­dem da biodiversidade também. É preciso saber como isso pode ocorrer.

A biodiversidade e as ameaças do presente
Quais as consequências da perda de bio­diversidade?
A continuidade das diversas formas de vida no planeta depende muito da biodiversidade. A extinção de determinadas formas de vida pode, inclusive, levar outras espécies (delas de­pendentes) ao desaparecimento. Atualmente, os especialistas sabem que basta uma pequena perda na biodiversidade de uma floresta para existir risco de grave desequilíbrio para essa formação vegetal.
E quais são os efeitos para as sociedades humanas? A biodiversidade constitui um pa­trimônio valioso, tanto mais valioso quanto se avança no conhecimento científico e tecno­lógico. Por exemplo: na diversidade biológi­ca podem-se encontrar soluções para muitos dos problemas relacionados à alimentação da humanidade, à cura de doenças e à melho­ria da qualidade de vida. Por isso, de riqueza desconhecida e ainda desprezada por muitos, a biodiversidade pode tornar-se objeto de uma disputa cada vez mais acirrada. No Brasil e em todo o mundo, observa-se nos últimos anos uma tomada de consciência (embora lenta) sobre como é importante cuidar da manu­tenção da biodiversidade.
Observe o mapa “Desflorestamento e desertificação, 2006”, nas páginas 16 e 17 do caderno do aluno.
Vale a pena apresentar três comentários sobre a linguagem e o conteú­do deste mapa:
- Trata-se de um mapa qualitativo e orde­nado. Em primeiro lugar, é qualitativo porque distingue dois fenômenos: desflorestamento e desertificação. Em segundo lugar, porque ordena os dois fenômenos: da desertificacão mais intensa (laranja) à moderada (amarelo); do desflorestamento mais intenso (verde-escuro) para o mode­rado (verde-claro). E isso é muito bem rea­lizado e expressivo no mapa;
- O uso das cores como recurso de lingua­gem não é de aplicação fácil. Uma in­formação num mapa não pode suscitar dúvidas nem mais de uma interpretação. Esse é o problema das cores. Temos o cos­tume de atribuir sentidos e significados às cores. Por exemplo: quais são os signi­ficados do vermelho? É comum associar essa cor ao perigo, à atenção, à proibição, às altas temperaturas, ao fogo, aos objetos quentes etc. E o azul, o que representaria? Frio, gelado, água, baixas temperaturas etc. Por isso, as cores num mapa podem envol­ver interpretações culturais diferentes da informação técnica.
- O mapa cartografa desflorestamento e de­sertificacão. Não há dúvida de que o desflo­restamento existe e que ele é provocado pelo ser humano. O mesmo não pode ser dito da desertificacão. Trata-se de um fenômeno mais difícil de acompanhar e que ocorre acima de tudo por motivos naturais; a influência da ação humana (que existe) não pode ser ava­liada tão facilmente. A desertificacão se ex­pressa pela redução progressiva da biomassa e da água em circulação no ambiente natural. Por exemplo: é duvidoso definir o que aconte­ce no Nordeste do Brasil como desertificacão. De todo modo, é assim que funciona o co­nhecimento: as interpretações são construí­das para nos fazer pensar, refletir, criticar.
- Há desflorestamento tanto em áreas tro­picais como em áreas temperadas. Nesse caso, há dois tipos diferentes de floresta. As florestas temperadas (com menor biodiversidade) encontram-se fundamentalmente no Hemisfério Norte, seu grau de remoção é elevado e ocorre há muito tempo. Por sua vez, as florestas tropicais, que estão sendo mais prejudicadas pelo desflorestamento, situam-se, sobretudo, no Hemisfério Sul. E o Brasil, sem dúvida, possui o maior patri­mônio de biodiversidade;
- Boa parte das regiões de desflorestamen­to mais acelerado, como apresentado no mapa, encontra-se em áreas de grande povoamento: leste dos EUA, Europa Oci­dental, leste da China, norte da índia, In­donésia, Filipinas, América Central e, em menor proporção, no Golfo da Guiné (par­te ocidental). O caso do Brasil é um pouco diferente: embora tenha áreas de intenso desflorestamento, ele ocorre em áreas não tão povoadas. A Amazônia não consta no item de desflorestamento acelerado, pois, proporcionalmente à sua área, o desmatamento parece não ser significativo, o que não é verdade em termos absolutos;
- A desertificação representada no mapa pode ser natural ou acelerada pelo homem. Em tor­no do Deserto do Saara (África) nota-se uma vasta faixa em situação crítica que pode signi­ficar uma ampliação desse vasto deserto;
- No Brasil, a área em que há desertificação elevada (segundo o índice estabelecido no mapa) está rodeada por áreas apontadas como locais de desflorestamento relevante. Evidentemente, essa situação ajuda a ace­lerar a desertificação;
- Considerando o que foi representado no mapa, são poucas as áreas da superfície terrestre em que não se observa nem des­florestamento nem desertificação. Desta­cam-se praticamente apenas o Canadá e a Rússia. Porém, isso decorre do fato de esses países ocuparem vastas áreas muito frias e pouco povoadas. Podem ser considerados, portanto, desertos humanos e gelados.
As florestas tropicais restantes, embora mais extensas e vigorosas que as temperadas, estão em geral muito frag­mentadas. O principal continuum florestal tropical está localizado na América do Sul, principalmente na Amazônia brasileira. É ali que está concentrada a possibilidade de conservação da biodiversidade in situ, ou seja, a conservação dos organismos vivos em seu ambiente original. Em outros locais restaram apenas fragmentos, o que exige intervenção humana para que possa haver revitalização.


15. As variações de escala geográfica dos impactos ambientais

A expressão "impacto ambiental" é em ge­ral usada para se referir ao conjunto de ações humanas que agridem o meio ambiente. Sob um olhar mais técnico, o impacto ambiental refere-se às conseqüências, no meio ambiente, do uso que o ser humano necessariamente faz da natureza, especialmente a retirada dos re­cursos não renováveis.
Se o alcance (ou seja, a escala) das ações humanas se ampliaram (e se tornaram mais complexas), isso implicaria uma transformação correspondente nos impactos ambientais? Esta­ria o ser humano alterando os meios ambientes na escala mundial?
Se as ações humanas alteram o quadro am­biental do planeta, os seres humanos também precisam encontrar, a um só tempo, formas de organização institucional e política nessa escala. Interesses nacionais e locais não podem prevale­cer numa questão que afeta a todos.
Pensar na escala geográfica dos fenôme­nos que percorrem a superfície terrestre e os espaços humanos é uma reflexão indispensá­vel para compreender a geografia do mundo contemporâneo.
Infelizmente, essa preocupação nem sem­pre está presente no ensino da Geografia esco­lar, ou, quando ela é abordada, os fenômenos geográficos são tratados de modo estático, como se seus efeitos se limitassem ao ponto do espaço que está sendo observado e descrito. No entanto, espaço é distância, são relações entre pontos, são movimentos, e não a fixação em um único ponto.
Este capítulo tra­ta dos impactos ambientais e também da relação que as sociedades hu­manas estabelecem com a natureza. Pensando nas conseqüências para a natu­reza e para o ser humano, até onde podem chegar os impactos de um furacão, terremoto ou erupção de um vulcão?
Observe o quadro “Escala geográfica de eventos naturais”, na página 21 do caderno do aluno.Como se pode notar, os eventos menciona­dos não têm impactos diretos que ultrapassam a escala regional. No Brasil, à exceção de terremotos fracos, não há ocorrência de tais eventos; para nós, eles po­dem ser vistos como algo externo, que aconte­ce em outros lugares. Não tememos, portanto, que um dia haja uma erupção vulcânica ou um furacão de grande escala que nos atinja.
Os seres humanos (um grupo, uma sociedade, uma corporação transnacional, os agregados) são capazes de realizar ações que atinjam todas as partes do planeta? Ou a ação de uma sociedade pode ir além da escala regional?

O impacto das ações de escalas local e regional na escala global
Nesta etapa, são propos­tas algumas comparações. O que chamamos de globo, de planeta, é uma criação natural. Mas, em termos de funcionamento e produção de es­paço geográfico, não parece claro que as rela­ções humanas alcançam uma escala geográfica mais ampla do que os fenômenos naturais? Elas alcançam uma escala global?
Vamos explorar dois exemplos para mostrar como mu­dou a escala geográfica das ações humanas, na página 22 e 23 do caderno do aluno. O quadro “Comparando a escala geográfica das ações humanas” organiza as idéias sobre as ações huma­nas, destacando a escala e as transformações no espaço. As ações da sociedade e das instituições e empresas que ela cria ultrapas­sam os limites de seu território e chegam até o Brasil. Embora a erupção de um vulcão no Equador não nos afete aqui no Brasil, não podemos dizer o mesmo quanto à política comercial de uma grande empresa norte-americana de roupa esportiva ou alimentação fast-food. As forças mobilizadas nos EUA muitas vezes conseguem atingir a escala glo­bal. Será que elas chegam também à China e ao Japão?
Discutir escalas dos fenômenos geográficos é essencial para construir um raciocínio espacial.
O resultado da relação entre ser humano e na­tureza pode ser expresso da seguinte forma: o uso humano da natureza (ação humana) na natureza significa integração complexa das escalas humanas e naturais.
Exis­te um elemento fundamental para estudar a integração das escalas de fenômenos geográfi­cos diferentes: o clima. O clima pode ser visto como um amplificador das escalas geográficas de eventos naturais e humanos ocorridos na superfície terrestre. Três casos podem mostrar como o clima amplifica as escalas geográficas dos fenômenos geográ­ficos: a erupção do Krakatoa, a erupção do Pinatubo e o acidente na usina nuclear de Chernobyl, todos descritos na página 23 do caderno do aluno.
            Observe o mapa ”Mundo: consumo de energia, 2004”, nas páginas 26 e 27 do caderno do aluno.
            Trata-se de um mapa ordenado e quanti­tativo. A ordem expressa os países que mais consomem energia por habitante, e isso é co­municado por tonalidades de cor laranja, do tom mais escuro para o mais claro.
As quantidades são expressas por círcu­los proporcionais que representam o consumo absoluto de energia. É importante trabalhar a questão da energia com essas duas representa­ções (consumo absoluto e por habitante), porque revela, por exemplo, que alguns países da Euro­pa, bem menores que o Brasil, consomem mais energia por habitante, mas em termos absolutos gastam menos (caso dos países nórdicos).
Esse mapa mostra a distribuição geográfica do consumo de energia no mundo. Sabemos que hoje a principal fonte de energia é originária de material fóssil, especialmente o petróleo e o carvão mineral. A queima dessas fontes de energia tem como efeito colateral a emissão de CO2 (gás carbónico) para a atmosfera.
Será que essa emissão constante de CO2 re­percute apenas nos locais de emissão? Ou aqui se pode aplicar o mesmo raciocínio anterior: algo emitido num local pode ter efeitos amplia­dos pela dinâmica atmosférica?
- As erupções vulcânicas emitiram material em grande quantidade em um breve tempo (o maior volume no momento da explosão e resíduos durante alguns dias);
- O acidente nuclear vazou material radioativo enquanto os técnicos não conseguiram vedar as instalações da usina (foram dias);
- A emissão de CO2 causada pelo ser hu­mano não pára, é constante. No entanto, varia o volume da emissão: no passado era menor e agora é bem maior. Consi­derando a desigualdade dessa emissão entre os povos do mundo, e como isso está associado ao consumo de energia, a princípio, no futuro, a emissão de CO2 tende a crescer. Isso porque certamente ocorre a seguinte relação: consumo de energia significa desenvolvimento.
A emissão constante de gases poluentes para a atmosfera e o crescimento mais ou me­nos inevitável das emissões, em razão da di­nâmica social e econômica da sociedade, são apontadas atualmente como causas de uma importante mudança climática no planeta: o aquecimento global, a elevação das tempera­turas médias na Terra.
Vale registrar uma expressão sintética dessa possível ocorrência: a ação humana para prover a vida material consome energia em escala local e regional, resultando na emissão de CO2 (escala local e regional) e aquecimento da atmosfera (escala global).
O mundo é complexo, e nem todas as re­lações e variáveis envolvidas nesse fenômeno do aquecimento global estão sob controle do conhecimento humano, mas há cientistas que apontam a emissão de CO2 como uma das causas do aquecimento global. Sabemos que há o risco de o impacto de algumas ações hu­manas no meio ambiente e nos domínios na­turais alcançar a escala global. Acompanhar os efeitos e impactos da atuação humana é fundamental para saber se esse alcance global vai se confirmar.
Há cientistas renomados defendendo que a ação humana - com a emissão do CO2 e o desmatamento - acelera o processo de aquecimento global. Vamos ler o texto “A instabilidade da dinâmica climática”, nas páginas 28 e 29 do caderno do aluno.

16. A defesa de pontos sensíveis do meio ambiente: os tratados sobre o clima e a biodiversidade

Se há polêmica sobre as causas do aque­cimento da atmosfera, o mesmo não ocorre quanto à perda da biodiversidade. A remoção das formações vegetais já avançou muito ao longo da história humana, atingindo escala planetária. Praticamente, não há formação vegetal que não tenha sofrido intervenção hu­mana, e é incalculável o número de diferentes espécies animais e vegetais que desapareceram da Terra em decorrência da ação humana. A biodiversidade foi drasticamente reduzida pelo ser humano.
Vamos discutir:
- os esforços para rever e conter a ação humana predatória, como os tratados internacionais em que os signatários (membros que assinaram) se com­prometem a reduzir as emissões de CO2 e conter a destruição da biodiversidade e;
- a conscientização sobre as ações humanas, em especial as que envolvem desperdícios de recursos naturais e agravos contínuos ao meio ambiente.
Vocês já leram ou viram na mídia algo sobre o desmatamento na Amazônia ou na Mata Atlântica? Acreditam que as informações sobre o que ocorre na Amazônia e na Mata Atlântica são também divulgadas em outros países? Por que essas notícias ultrapassam as fronteiras nacionais? Quando os países estrangeiros, os organis­mos internacionais e a imprensa mundial se posicionam a respeito das questões que en­volvem a Amazônia e a Mata Atlântica, eles abordam o tema considerando que se trata de assunto interno do Brasil?
As questões ambientais não são tratadas nem respeitadas como assuntos exclusivamente in­ternos. Podemos confirmar essa recepção, citando, por exemplo, os protestos internacionais sobre o desmatamento na Amazônia, que o governo brasileiro não estaria conseguindo controlar. Isso ocorre porque, embora se trate de realidades brasileiras, as reclamações dos demais países têm origem em outra escala: a escala global.
Vocês acham certo essa atitude dos outros países? Percebem alguma lógica nisso? Notam motivos que justi­fiquem essa atitude? Como o governo brasileiro reage a esses protestos? Costuma responder que o problema é nosso e que ninguém de fora deve se envolver? Ou procura se explicar perante a opinião pública internacional? A reação governamental de se explicar perante a opinião pública internacional é uma evidência de que o assunto não pode mais ficar restrito à escala nacional?
Essa mesma situação ocorre também com outros países.
A questão ambiental vem se transformando em proble­ma de escala mundial, pois os impactos pro­vocados pelas sociedades humanas sobre a biosfera (litosfera + hidrosfera + atmosfera + formas de vida) estão atingindo essa escala e afetando a todos. Por exemplo: se há aque­cimento global provocado pelo ser humano e alguns países emitem mais CO2 que outros, as conseqüências das grandes emissões de gases poluentes atingem todos os países, inclusive aqueles que emitem menos CO2 É por essa razão que se protesta mundialmen­te contra os Estados Unidos, que é um dos maiores emissores de CO2.
Para tentar solu­cionar os grandes problemas ambientais, têm ocorrido iniciativas conjuntas que, em geral, envolvem muitos países. Nos últi­mos 30 anos, essas iniciativas, promovidas, por exemplo, pela Organização das Nações Unidas (ONU), resultaram em um conjunto de tratados internacionais, ou seja, compro­missos que os países estabelecem para pôr em prática uma nova relação com o meio ambiente. Dessa forma, as questões am­bientais viraram problemas de todos. Por isso, o desmatamento da Amazônia, que não consegue ser controlado pelo governo brasileiro, fere não só o meio ambiente, mas também os tratados assinados e assu­midos pelo Brasil, inclusive como lei que deveria ser cumprida internamente.

A defesa da diversidade da vida: a Convenção sobre Biodiversidade
O desmatamento injustificável da Ama­zônia, da Mata Atlântica ou de qualquer bioma no Brasil rompe com o parâmetro do desenvolvimento sustentável. Além disso, contraria o tratado internacional assinado pelo Brasil em 1992 - e que, posteriormente, foi transformado em lei brasileira: a Con­venção da diversidade biológica.
O fragmento de texto “Convenção sobre biodiversidade”, nas páginas 30 e 31 do caderno do aluno, introduz a questão dos tratados internacio­nais que visam proteger e recuperar situações graves de desequilíbrio na biosfera. A dimensão institucional é expressa, no texto, por instituições, países e eventos organiza­dos para enfrentar formalmente os proble­mas ambientais, como a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), também conhecida como Rio-92 ou Eco-92, a Conferência da Cúpula da Terra, a própria Convenção sobre Diversidade Biológica e o Congresso Nacional Brasileiro. Na dimensão informativa e científica, a Con­venção sobre Diversidade Biológica apre­senta, no Artigo 2, o significado de termos técnico-científicos relativos à temática, alguns deles já citados no Artigo 1.
As principais conferências promovidas pela ONU sobre o clima e o meio ambiente foram a Conferên­cia de Estocolmo (1972), a Rio-92 e a Confe­rência de Johanesburgo (2002). Foi na Conferência de Esto­colmo, na Suécia, que se decidiu pela criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Am­biente (PNUMA); na Rio-92, a idéia era discu­tir se seria possível conciliar desenvolvimento e questão ambiental, e daí construir uma visão de desenvolvimento sustentável; em Johanesburgo, o objetivo foi realizar um balanço dos dez anos de implementação das decisões da Rio-92.

Os tratados que visam intervir nas mudanças climáticas
Para refletir sobre os tratados e as políticas em defesa da biodiversidade, vamos ler trechos da Convenção sobre a Mu­dança do Clima, aprovada e assinada na Rio-92, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), nas páginas 32 e 33 do caderno do aluno.
Sobre a questão da possível ocorrência de mudanças climáticas, houve um desdo­bramento importante em relação ao que foi aprovado na Rio-92, em termos de tratado internacional. Para explorar essa informa­ção, vamos ler o texto “Protocolo de Quioto”, na página 33 do caderno do aluno. Na dimensão institucional, o Protocolo de Quioto (1997) decorre de eventos anteriores, como a Conferência de Toronto sobre as Mudanças na Atmosfera, no Canadá em outubro de 1988, seguida depois pelo Primeiro Relatório de Avaliação do IPCC (AR-1), em Sundsvall, Suécia, em agosto de 1990 e pela Convenção-Quadro das Nações Uni­das sobre a Mudança do Clima, na Rio-92. Na dimensão informativa e científica, a formação de um glossário constrói critérios e estabelece precisões e conexões:
- Emissão: liberação, na atmosfera, de gases de efeito estufa e/ou seus precursores, em área e período determinados;
- Gases de efeito estufa: constituintes gasosos da atmosfera, naturais ou hu­manos, que absorvem parte da radiação, reemitindo-a, provocando o efeito estufa. O principal representante é o CO2;
- Matriz energética: conjunto de fontes de energia empregado na economia de um país. Pode-se tam­bém pensar em termos globais, nesse caso a principal fonte da matriz energética mundial é a fóssil (petróleo, gás e carvão);
- Mudança do clima: pode ser direta ou indiretamente atribuída à atividade humana e que altere significativamente a composição da atmosfera mundial, somando-se àquela provocada pela variabilidade climática natural, observada ao longo de períodos comparáveis.
           
Glossário:
Área protegida: significa uma área definida geograficamente que é destinada, ou regulamentada, e administrada para alcançar objetivos específicos de conservação;
Biotecnologia: significa qualquer aplicação tecnológica que utilize sistemas biológicos, organismos vivos ou seus derivados, para fabricar ou modificar produtos ou processos para utilização específica;
Conservação ex situ: significa a conservação de componentes da diversidade biológica fora de seus habitats naturais.
Conservação in situ: significa a conservação de ecossistemas e habitais naturais, a manutenção e recuperação de populações viáveis de espécies em seus meios naturais e, no caso de espécies domesticadas ou cultivadas, nos meios onde tenham desenvolvido suas propriedades caracte­rísticas;
Diversidade biológica: significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens e os com­plexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas.
Ecossistema: significa um complexo dinâmico de comunidades vegetais, animais e de micro-organismos e o seu meio inorgânico que interagem como uma unidade funcional;
Material genético: significa todo material de origem vegetal, animal, microbiana ou outra que conte­nha unidades funcionais de hereditariedade;
Recursos biológicos: compreende recursos genéticos, organismos ou partes destes, populações, ou qualquer outro componente biótico de ecossistemas, de real ou potencial utilidade ou valor para a humanidade;
Recursos genéticos: significa material genético de valor real ou potencial;
Utilização sustentável: significa a utilização de componentes da diversidade biológica de modo e em ritmo tais que não levem, no longo prazo, à diminuição da diversidade biológica, mantendo assim seu potencial para atender as necessidades e aspirações das gerações presentes e futuras.



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