terça-feira, 9 de agosto de 2011

Textos para 1a. série / Ensino Médio - 3o. bimestre

9. Estruturas e formas do planeta Terra: os movimentos e o tempo na transformação das estruturas da Terra
Profa. Celina – Geografia – 1ª. série – EM

Apenas recentemente a ciência conseguiu estabelecer parâmetros e legitimá-los perante a sociedade no que diz respeito à história e à estrutura do planeta Terra. Há apenas 200 anos admite-se e se procura compreender essa história levando em conta a dinâmica dos movimentos numa faixa de tempo bastante longa. Os elementos essenciais dessa trajetória são examinados com detalhes nas três esferas inorgânicas que se manifestam na superfície terrestre: a litosfera, a hidrosfera e a atmosfera. Uma ênfase maior será dada à litosfera, porque o objetivo é chegar aos elementos essenciais para o entendimento das estruturas e das formas do planeta.
Uma descoberta que foi essencial para fundar a Geologia, que é a ciência que estuda as estruturas da Terra, foi o tempo. O tempo da natureza foi descoberto, e ela deixou de ser entendida segundo o tempo humano, que era o tempo das narrativas bíblicas. Sem a compreensão dos movimentos e da extensão do tempo (e de sua relatividade) não há meios para explicar a estrutura e as formas da Terra.

Os movimentos das esferas terrestres
Os três domínios naturais da superfície terrestre são:
- a litosfera: a referência para o relevo;
- a hidrosfera: a referência para a hidrografia;
- a atmosfera: a referência para o clima.
O quadro “As três esferas terrestres” na página 3 no caderno do aluno apresenta as características das três esferas terrestres. Quando você descreve o relevo do seu bairro, por exemplo, você apresenta uma das características da litosfera naquele local. As menções sobre a hidrografia da localidade é a forma de manifestação da hidrosfera no local (rios) e o clima do bairro, o modo como a dinâmica da atmosfera se expressa naquela localidade (que certamente não é somente daquele bairro, e sim da cidade, ou da região mais ampla, visto que o clima é um fenômeno difícil de caracterizar apenas na escala local). No quadro, verificamos que, se a água for aquecida acima de 100°C, ela vai mudar de fase, isto é, evaporará (virará vapor de água) e se transferirá da hidrosfera para a atmosfera. O ar atmosférico tem diversas temperaturas e a máxima, como mostra o quadro, atinge 50°C. Quando a temperatura está em torno de 33°C, os gases, que compõem a atmosfera, vão ficar mais leves (menos densos) e o ar vai subir (ascender). O ar mais frio, que estava nas camadas mais altas, vai ser empurrado para substituir esse ar que subiu. Ou seja, a variação de temperatura vai colocar o ar em movimento. Quer dizer: tecnicamente, o vento se forma com a propagação de calor por convecção. Se os materiais que compõem a litosfera forem aquecidos acima da temperatura máxima de 700°C, eles se fundirão (derreterão). Observe a imagem na página 4 do caderno do aluno: a essa temperatura, os materiais se fundem, passando para o estado pastoso, uma primeira referência ao material viscoso que está sob a crosta terrestre (debaixo da crosta). O magma, que ali se encontra a uma temperatura superior a 700°C, chega a superfície terrestre quando há uma erupção de um vulcão, por exemplo.
Os seres humanos constroem suas vidas e seus espaços em estreita relação com essas três esferas. Eventos como os fenômenos climáticos (precipitações, furacões, frio e calor intensos), fenômenos sísmicos (terremotos, erupções vulcânicas) e ocorrências como enchentes ou a existência de cursos d’água, por exemplo, afetam os seres humanos na superfície terrestre. Os eventos são produtos da movimentação que existe em cada uma das esferas. Na movimentação da atmosfera surgem os fenômenos climáticos; na hidrosfera, os cursos d’água e os oceanos estão em constante movimento e os eventos que envolvem as águas resultam disso; um terremoto é um movimento brusco da litosfera. Resumindo: os movimentos das esferas resultam em eventos naturais que afetam os seres humanos.
Apesar de parecer óbvio que os movimentos das esferas provocam os eventos naturais que afetam os seres humanos, isso precisa ser notado e destacado, pois nem sempre foi essa a percepção que os seres humanos tiveram sobre o funcionamento da natureza. Sem dúvida, é na compreensão dos movimentos que encontramos uma série de explicações sobre o funcionamento das esferas terrestres. Uma questão fundamental para a compreensão das esferas terrestres é o tempo. Afinal, o que é um tempo longo ou um tempo curto? É comum se afirmar que os oceanos atuais (Pacifico, Atlântico, Índico, Glacial Ártico e Glacial Antártico) começaram a se formar na superfície terrestre há pouco tempo, cerca de apenas 200 milhões de anos, quando esse tempo é comparado com a idade da Terra, 4,6 bilhões de anos, por exemplo. Essas afirmações podem gerar um estranhamento e não pode ir adiante enquanto a noção de que se está lidando com diferentes escalas de tempo. Será que o que é pouco tempo para o ser humano é pouco tempo na vida de um inseto? Certamente não. E o que é muito tempo da vida do homem, digamos 40 anos, significa muito para os movimentos da hidrosfera? Em 40 anos pode surgir um novo rio natural na superfície terrestre? Vamos voltar ao exemplo da abertura dos oceanos e apresentar algumas informações:
- Abertura dos oceanos: vamos voltar 200 milhões de anos no tempo. Nesse momento, os oceanos começaram a surgir por entre os espaços de um imenso bloco continental que se fragmentava. Essa abertura foi ampliando em mais ou menos 1,2 cm ao ano. Esse foi o caso do Oceano Atlântico que, após 200 milhões de anos, atingiu a largura de 4.100 km entre dois grandes fragmentos continentais (África e América do Sul).
- O ser humano: acredita-se que o ancestral direto do ser humano viveu há aproximadamente 2 milhões de anos. Porém, se formos considerar o ser humano como sedentário, vivendo em grupos sociais mais estruturados, estaremos nos referindo a um período de apenas 10 mil anos (início do Período Neolítico). Por outro lado, se atualmente a expectativa de vida do ser humano é de 65 anos (conforme a ONU), num passado remoto ela era bem menor.
- A Terra: nosso planeta está se formando (logo, está em movimento) ao longo de mais de 4,5 bilhões de anos, pertencente a um universo que vem se formando há 15 bilhões de anos.
            O tempo é relativo às referências que usamos; o tempo da natureza é outro, bem diferente do tempo humano.
Resumo do que foi estudado até o momento:
- o substrato natural inorgânico (sem vegetação) sobre o qual construímos nossos espaços pode ser dividido em três esferas: litosfera, hidrosfera e atmosfera;
- os eventos que ocorrem nessas três esferas podem afetar a vida humana, inclusive como catástrofes;
- o que provoca os eventos nessas três esferas são seus movimentos; as esferas não são estáticas, elas se movimentam;
- para melhor caracterizar as três esferas e compreender seu funcionamento é preciso entender seus movimentos;
- os movimentos das esferas se dão em ritmos diferentes, no interior do tempo da natureza, que é diferente do tempo humano. O tempo é relativo.
            Identificamos ritmos distintos dos movimentos nas três esferas terrestres, do ponto de vista dos seus movimentos. Há movimentos que se mantêm constantes, como a erosão na litosfera, e outros mais ocasionais, eventuais (daí o termo evento), tais como os terremotos e as erupções vulcânicas. Aos primeiros, podemos chamar de dominantes e, aos outros, de bruscos, eventuais, catastróficos etc. Do mesmo modo, nas outras esferas inorgânicas (hidrosfera e atmosfera), podemos encontrar movimentos dominantes (constantes) e outros eventuais (bruscos).
Vale acrescentar que os movimentos de cada uma dessas esferas podem ser provocados por movimentos de alguma outra. Dois exemplos:
- um maremoto, movimento na hidrosfera, é provocado por terremoto no fundo do oceano, que é um movimento na litosfera;
- uma enchente, movimento na hidrosfera, é provocada por furacão, que é um movimento na atmosfera.

A descoberta do tempo nos estudos da estrutura física da Terra
Como se sabe que os oceanos estão se formando e se abrindo há apenas 200 milhões de anos? Desde quando a humanidade tem esse conhecimento? Esse entendimento sobre a abertura dos oceanos e a medição que comprova a abertura (1,2 cm no caso do Atlântico) é uma elaboração e uma tarefa da ciência. Mas qual ciência faz esse tipo de afirmação? E desde quando se tem esse entendimento?
Para admitir que os oceanos estavam se abrindo, foi preciso que o ser humano tivesse descoberto a idade da Terra. Vamos ler o texto “A idade da Terra” na página 11 no caderno do aluno sobre uma verdadeira revolução no pensamento humano. Em seguida, vamos ler o texto na página 15 no caderno do aluno sobre os conhecimentos científicos.
            Vamos a um exemplo: um pequeno morro que seja formado por 10 mil toneladas de rochas duras, de desgaste bem lento, sofre uma erosão que lhe tira anualmente 400 quilos de material, que é transportado pelas águas de um pequeno riacho. É possível calcular em quanto tempo ele desaparecerá? Vamos admitir que, ao contrário do que ocorre, as condições climáticas não se alterem, o que vai facilitar a compreensão do exemplo. É simples: 10 mil toneladas, convertidas em quilos, representam 10 milhões de quilos. Dividindo-os por 400 quilos ao ano, serão necessários 25 mil anos para que o morro seja inteiramente devastado, ou seja, mais do que toda a história humana do Neolítico até hoje e muito mais do que o tempo da Terra admitido pela interpretação de James Ussher. Por fim, se posso saber como e em quanto tempo um morro do presente vai desaparecer, posso também saber como ele era em um passado mais remoto. Posso dizer que um simples morro foi anteriormente uma elevação bem maior. No caso de uma investigação científica, outra variável precisará ser levada em conta: as mudanças climáticas do passado.

10. Estruturas e formas do planeta Terra: os movimentos da crosta terrestre

Com a compreensão de que os movimentos da estrutura terrestre se desenrolam num tempo longo, podemos desenvolver boa parte das teorias sobre a dinâmica das esferas terrestres. Mas, e quanto aos movimentos bruscos, que em tempos mais curtos podem provocar alterações nas formas da superfície terrestre, como a explosão de um vulcão? E um movimento mais lento, como a abertura dos oceanos? Podemos adiantar que, as teorias e pesquisas inovadoras de James Hutton e Charles Lyell não foram capazes de explicar todos os fenômenos que ocorrem na litosfera terrestre.

Um pensamento original e ousado: a deriva continental
Um mapa é uma linguagem espacial e nele é adequado apresentar informações do espaço ou que estão no espaço. Num mapa é muito difícil representar o tempo. Cada mapa é um retrato de um único tempo, de um presente. Se um único mapa é um retrato, para mostrar mudanças deve-se mostrar um retrato de outro momento, depois outro e assim por diante, criar uma seqüência, como na linguagem verbal (para compreender o que se quer falar, passar). Chamamos de cartografia dinâmica, uma coleção de mapas colocados em seqüência, como a “Coleção de mapas sobre a deriva continental: da Pangeia até nossos dias” nas páginas 18 e 19 do caderno do aluno. Os mapas mostram continentes se formando e se afastando. Mostram oceanos se abrindo. Eles estão representando um processo natural de escala planetária em cinco tempos:
- o primeiro mapa representa a Terra há 225 milhões de anos, no Período Permiano, a época em que se inicia a abertura dos oceanos;
- no segundo mapa, Período Triássico, 25 milhões de anos depois, o grande bloco terrestre observado no primeiro mapa já apresenta fragmentos e espaços preenchidos pela água;
- no terceiro mapa, Período Jurássico, essas aberturas já são maiores, após a passagem de mais 65 milhões de anos;
- no quarto mapa, Período Cretáceo, essas aberturas estão ainda maiores, após mais 70 milhões de anos;
- até o mapa atual, 65 milhões  de anos depois, essa abertura só fez aumentar.
Os blocos continentais que estavam se formando como fragmentos de uma única massa continental (Pangeia) parecem peças de um quebra-cabeça. A América do Sul não parece se ajustar bem à costa ocidental da África? Esse processo representado nos mapas é o de abertura dos oceanos por entre fragmentos de um único bloco continental, o que representa a formação dos continentes que conhecemos.
Os mapas mostram uma dinâmica da natureza, numa temporalidade mais ou menos rápida para a natureza, mas muito longa para o ser humano. Eles estão mostrando que a crosta terrestre não é fixa, e que estamos sobre algo que se movimenta como se fosse uma balsa.
Hutton e Lyell não perceberam essa movimentação e assim, não fizeram estudos a respeito. Essa é a lacuna que será preenchida no conhecimento geológico que Hutton e Lyell legaram para o século XX.
No início do século XX, as pesquisas científicas sobre o mundo natural ainda eram alvo de censura (por exemplo, a censura religiosa) como no passado. O conhecimento geológico estabelecido não considerava essa hipótese de um movimento de afastamento dos continentes. Quando, em 1912, o geofísico e o meteorologista alemão Alfred Lothar Wegener (1880-1930) apresentou essa hipótese, ele foi tratado como um aventureiro, um irresponsável, um “herege”, até pelos seus colegas cientistas. Seus contemporâneos não estavam preparados para essa idéia um tanto desconcertante e não foi fácil para ele suportar a aversão dos discordantes. E os mapas apresentados expressam exatamente o que ele pensava.
A Geologia não sabia explicar os movimentos que geravam os terremotos e tinha pouco entendimento sobre os vulcões, ou seja, muitas perguntas estavam sem respostas. Graças a isso, apostar num movimento da crosta tal como imaginou Wegener era bem razoável como hipótese. Afinal, além dos processos lentos bem apreendidos por Hutton, existiam outros movimentos que permaneciam misteriosos. Pesquisas posteriores encontraram nas costas da África e da América do Sul fósseis de vegetais idênticos, em estratos rochosos antigos. Se são idênticos não é porque estavam próximos, se afastando depois, ao longo de 200 milhões de anos? Isso se confirma com a presença, nos dois lados, de estruturas geológicas e rochas também idênticas. Parece não haver dúvida: um dia esses blocos continentais integravam um único continente. Wegener teve de fato uma intuição genial e revolucionária que inaugurou uma nova era nos conhecimentos sobre a Terra. Aqueles que o censuravam estavam pouco abertos para o novo. Após a morte de Wegener, e depois de constatado o valor de sua hipótese, os geofísicos aproveitaram a porta aberta e foram mais longe na interpretação das estruturas da Terra. Como e por que se dava esse movimento? Os geofísicos notaram que esse movimento de afastamento era possível porque a crosta terrestre era formada por pedaços ou placas, e não por uma única capa de rochas. Essa grande revolução científica aconteceu nos anos 1960. Novas informações no campo da Geofísica marinha propiciaram um melhor conhecimento do fundo dos oceanos e avançou-se no conceito de falhas, na localização precisa dos terremotos etc. Nascia assim a teoria Tectônica de Placas com os trabalhos de J. Morgan, X. Le Pichon e D. McKenzie, entre outros autores. Atualmente, não há Geologia sem considerar a deriva continental, como ficou conhecida a visão de Wegener e a teoria das placas que compõem a crosta terrestre.

Uma cartografia das placas tectônicas
A crosta terrestre é formada por placas que flutuam sobre um material viscoso chamado magma. Inicialmente admitiu-se a existência de 6 placas; hoje estão identificadas aos menos 15 placas: Placa Eurasiática, Placa das Filipinas, Placa Australiana, Placa da Antártica, Placa da Índia, Placa da Arábia, Placa Africana, Placa Sul-Americana, Placa Nazca, Placa Caribenha, Placa Cocos, Placa Juan de Fuca, Placa Norte-Americana, Placa do Pacífico e Placa de Scotia. No interior de algumas placas se encontram os blocos continentais, normalmente, nas placas maiores. No “Mapa da placas tectônicas” página 20 no caderno do aluno, os continentes estão representados com seu contorno. Por exemplo, na Placa Norte-Americana se encontra os EUA, o Canadá, o México, a Groenlândia e um segmento da Ásia.
As áreas de encontro das placas são fundamentais para se entender certos eventos geológicos como o vulcanismo e os terremotos. Por exemplo: nota-se que o Japão situa-se no encontro de duas ou três placas (Norte-Americana, Eurasiática e a Placa das Filipinas), e isso tem conseqüências na instabilidade geológica que ali ocorre. A existência dessas placas e o fato de elas se movimentarem trazem para a superfície terrestre conseqüências que já se sabe e que, aliás, foi por onde essa descoberta começou: a deriva continental.

11. Estruturas e formas do planeta Terra: a produção das formas da superfície terrestre
A ciência geológica chega ao final do século XX com todo um conjunto de teorias e interpretações que são sustentadas por pesquisas e dados obtidos de forma bastante sofisticada. Somaram-se duas abordagens:
1. a que explica os processos geológicos lentos e uniformes que ocorrem no conjunto dos blocos continentais;
2. a que explica os grandes movimentos das placas que deram origem aos continentes e aos oceanos e que, ao mesmo tempo, manifestam-se por meio de eventos bruscos e ocasionais (no tempo humano), como os terremotos e o vulcanismo de um modo geral.
As formas da superfície terrestre e sua geomorfologia (o relevo) são produtos desses processos que a Geofísica e a Geologia descrevem. Mais importante do que saber onde ficam, por exemplo, as grandes cadeias montanhosas da Terra, será compreender por que elas estão ali e não poderiam estar em outras posições. Ao se discutir o relevo terrestre, provavelmente o que vem primeiro à mente das pessoas, em geral, são as formações que mais fascinam e chamam nossa atenção: as grandes cadeias montanhosas (mais conhecidas como cordilheiras), com seus picos elevados, cercados de fantasias e de várias aventuras criadas e encenadas na literatura e no cinema.

Os agentes naturais que produzem o relevo da Terra
Observe o “Mapa-múndi do relevo terrestre” nas páginas 28 e 29 do caderno do aluno.  As cores utilizadas para mostrar as altitudes dos terrenos ficaram conhecidas como escala hipsométrica. Apesar de consagrada em todos os atlas geográficos, essa escala ocasiona uma série de problemas relativos à linguagem cartográfica. Podemos chegar a conclusão que o verde-escuro representa grandes florestas, o verde-claro, matas mais abertas, o marrom-escuro, terra desmatada. Se identificarmos que os tons de verde representam as terras mais baixas, concluímos que a mais baixa é o verde-claro e não o verde-escuro, como a legenda indica. Esse mapa, sem a legenda, pode enganar seu observador em razão de várias armadilhas visuais – e somente a convenção da legenda pode esclarecer o equívoco. Isto é, a legenda, um elemento verbal e numérico, é o que decifra o visual, o que é um grande erro cartográfico. O fenômeno que o mapa representa é único: as altitudes. E não se pode usar várias cores para representar um único fenômeno. Este tem uma diferenciação interna e, portanto, seria mais adequado que a distinção se fizesse no interior de uma única cor, com valores do mais claro para o mais escuro, usando, assim, as tonalidades da cor: menores altitudes – menor valor da cor (tom claro) e maiores altitudes – maior valor da cor (tom escuro). No entanto, consagrou-se nos atlas escolares esse tipo de mapa, mesmo com problemas de linguagem.
  As cordilheiras vão aparecer como manchas de marrom mais escuro e roxo. Essas áreas têm médias de altitude acima de 4 mil metros. Por que estão ali? Sempre, desde que a Terra existe, estiveram ali? Ou será que o caso das cordilheiras é tal como o dos oceanos, que possuem apenas mais ou menos 200 milhões de anos? O que terá feito surgir as cordilheiras? Quando elas surgiram?
A poderosa cordilheira do Himalaia foi erguida quando a Placa Indiana se chocou com a Placa Eurasiática, enquanto os Andes surgiram da colisão entre o assoalho do Oceano Pacífico (Placa de Nazca) e a América do Sul (Placa Sul-americana). São eventos que acontecem na crosta terrestre e, por essa razão, se classificam como agentes internos. Vale também chamar a atenção para o seguinte: “Os créditos por esculpir a superfície da Terra normalmente vão para as violentas colisões entre as placas tectônicas, os fragmentos móveis da cobertura rochosa do planeta. [...] Mas mesmo o incrível poder das placas tectônicas não consegue explicar algumas das principais características da superfície do planeta”. (GURNIS, Michael. Os processos que esculpem a Terra). Sendo assim, há outras forças internas que operam. E o que sabemos sobre o interior da Terra?
Vamos ler sobre a estrutura interna da Terra na página 30 do caderno do aluno. Um detalhe nesse texto sobre a estrutura interna da Terra chama a atenção: há uma área na crosta terrestre em que ela possui uma extensão máxima (65 km de espessura). Trata-se da área em que as placas tectônicas foram soerguidas, dando origem às cordilheiras, às cadeias montanhosas. Mais uma vez fica claro o papel do que se denomina agente interno na formação do relevo.
Uma questão fundamental para mobilizar as duas vertentes do saber geológico: aquela que trata dos processos geológicos lentos e uniformes (erosão) e aquela que trata dos movimentos das placas tectônicas. Sabemos como e quando se formou uma cordilheira (mais ou menos 60 milhões de anos atrás), a dos Andes, por exemplo. Mas será que atualmente ela possui as mesmas características do seu período de formação? Ou ela se transformou?
Os movimentos das placas tectônicas podem erguer uma cordilheira gigantesca, porém uma lenta e discreta erosão, desde que tenha tempo, pode arrastá-la inteira para o oceano ou para as terras mais baixas. Erosão é um agente produtor do relevo da Terra e que opera diretamente na superfície, no ambiente externo e, por isso, ela é tratada como um agente externo na construção do relevo da Terra.

Uma Geografia das formas da superfície terrestre
Depois de refletir sobre as forças e os tempos envolvidos na produção do relevo da Terra, vamos refletir as formas da superfície e sua distribuição geográfica. O relevo da Terra é uma interface entre a ação dos agentes internos (placas tectônicas) e dos agentes externos (erosão). Para se ter uma idéia mais aproximada da Geografia das formas da superfície terrestre, será necessária um pouco mais de atenção ao processo erosivo. A erosão se dá sobre a crosta terrestre, que é formada de rochas, e é realizada pelo trabalho das águas (pluviais, fluviais, mares e geleiras), do vento (atuação muito significativa em áreas áridas e semiáridas), da temperatura (por intermédio da dilatação e compressão das rochas) e pela influência das condições climáticas de um dado local em diferentes tempos.
O intemperismo físico resulta notadamente da influência climática, enquanto o intemperismo químico resulta da atuação e conjugação de diferentes elementos. No caso das áreas tropicais, a ação das chuvas aliada às altas temperaturas intensifica o processo de intemperismo químico.  Em áreas áridas, a atuação eólica associada à aridez produz formas dinâmicas, como é o caso das dunas. A declividade do relevo amplia a ação da água como agente erosivo. A erosão não tem a mesma velocidade, isto é, não erode da mesma maneira rochas duras e rochas mais moles: rochas mais duras (normalmente em clima seco) têm erosão menos eficiente, mais lenta e rochas moles (em clima chuvoso), a erosão é mais rápida, mais eficiente.
Na superfície terrestre, encontram-se múltiplas combinações de várias situações climáticas com várias condições dos estratos rochosos que compõe os blocos continentais. As rochas reunidas formam conjuntos maiores, verdadeiras estruturas de dois tipos: os que têm origem nos movimentos das placas tectônicas (maciços cristalinos, formados por rochas que são magma que vazou solidificado, e cadeias montanhosas); e bacias sedimentares, formadas por material produzido pela erosão.
O “Mapa-múndi do relevo terrestre”, nas páginas 28 e 29 do caderno do aluno, mostrou a desigualdade nas altitudes do relevo terrestre. Temos pontos de mais de 4.800 metros de altura e outros de 100 metros em relação ao nível do mar. Vamos ler o texto “Encontrando as formas de relevo”, na página 34, que cria uma situação para identificação dos tipos de relevo.
De um modo geral, as terras muito baixas estão à beira-mar. Planaltos são constituídos de terras elevadas em relação ao nível do mar, normalmente acima de 700, 800 metros de altitude, sendo ou não planas, assim, podem conter irregularidades nos seus terrenos.

12. Riscos em um mundo desigual: catástrofes e prevenção – uma construção do espaço geográfico

            Eventos catastróficos para os seres humanos resultam do movimento das esferas terrestres. Aqueles associados à litosfera, como terremotos e explosões vulcânicas, podem ter grande magnitude e muitas vezes nos fazem pensar nas nossas limitações para poder intervir diretamente sobre eles e nos precavermos diante desses eventos naturais. Quais os efeitos dessas catástrofes sobre as diversas sociedades, em especial os efeitos no espaço geográfico? Esses efeitos são maiores ou menores em função da desigualdade social existente no planeta? Quais as ações humanas diante das catástrofes? Como preveni-las, quando há condições de fazê-lo?
            Vulcões que explodem e devastam os lugares e terremotos que abalam cidades levando destruição são eventos distantes de nossa realidade. Esses são eventos relacionados em sua grande maioria às zonas de encontro das placas tectônicas e, por estarmos no centro da Placa Sul-americana, dificilmente nos atingem.
            Em nosso contexto (urbano), por exemplo, uma área de risco ligada às questões de ordem geológica são os deslizamentos, que são parte do processo erosivo e costumam levar grande perigo às populações desses locais: muitas moradias precárias se encontram em morros, terrenos de elevada inclinação e sem cobertura vegetal.

Como se proteger dos eventos geológicos
Os eventos geológicos podem ter duas origens distintas: associados aos movimentos internos da crosta (tectonismo) ou externos, vinculados aos processos erosivos, de desgaste da crosta. Sem dúvida, os mais perigosos para o ser humano, os que produziram maiores tragédias, são os de grande escala provocados pelo movimento das placas tectônicas: terremotos e explosões vulcânicas. O mapa “Anamorfose de mortos em terremotos”, na página 39 do caderno do aluno, representa um desses fenômenos. A medida utilizada é um índice, o número de mortos por cada milhão de habitantes, o que pode ser observado no “Gráfico sobre terremotos”, na mesma página, e que foi organizado a partir do mesmo banco de dados que deu origem ao mapa. Essa é uma anamorfose que mantém as posições geográficas e o que é possível das formas (e não a extensão territorial) dos blocos continentais e de suas regiões internas. Assim, vemos regiões de dois continentes (África e América do Sul), onde os índices de morte em terremoto são bem baixos, representadas por um traço bem fininho. Nas áreas aumentadas, os índices são mais elevados, como no leste asiático. Dessa maneira, por exemplo, o Japão está quase do mesmo tamanho que a América do Sul ou a África. Se observarmos as zonas de encontro das placas no “Mapa das placas tectônicas”, na página 20, associamos os índices de mortos em terremotos. O que explica o desenho do centro e do sul da África é o fato de ser um segmento do bloco continental que se encontra no centro da placa tectônica africana.
Para chegar mais próximo da complexidade da questão das mortes em terremotos, é preciso ter em conta mais um dado da realidade: entre 1975-2000, estima-se que tenham morrido 471 mil pessoas em decorrência de terremotos. Dessas, 52% foram na China e 16% no Irã. O maior número de vítimas num único tremor foi em 1999, na Turquia (18 mil pessoas), mas esse número foi atribuído, em parte, à pobreza e à fragilidade das habitações, e nem tanto à força do tremor. Encontrou-se aí uma variável fundamental para entender os desastres ligados a terremotos e explosões vulcânicas: há populações mais protegidas e preparadas para os impactos dos desastres naturais que outras, e isso vai interferir no número de vítimas. Para tornar mais concreta ainda essa variável fundamental, vamos ler dois casos nas páginas 41 e 42: o do vulcão Nevado Del Ruiz e do vulcão Vesúvio.
No primeiro caso, em Armero morreram ¾ da população da cidade, ou seja, quase todo mundo. O intervalo entre a explosão do vulcão e a enxurrada de lama foi de 8 horas. Uma maneira fundamental de prevenir desastres provocados por erupções vulcânicas deve ser a combinação de informações científicas: monitoramento da atividade do vulcão somada a estratégias coordenadas para rápida evacuação da população dos locais de risco. Caso isso existisse em relação ao vulcão e à comunidade de Armero, a tragédia não teria sido tão grave. A baixa eficiência desse controle foi responsável pela envergadura da tragédia. Já o segundo caso, é um bom exemplo de controle passivo eficiente pelos seguintes motivos: existe um observatório com equipamentos e cientistas estudando cotidianamente o vulcão, que está ativo, e nenhuma erupção pegará de surpresa a população, como no caso do Nevado Del Ruiz. Os estudos não ficam apenas na atividade atual do vulcão, volta-se no tempo para saber qual é a sua verdadeira potência, visando aperfeiçoar os planos de proteção e evacuação. Para ter idéia do risco ao qual as populações estão submetidas e como é desigual o controle passivo, segundo as condições dos países, veja: existem alguns milhares de vulcões no mundo, mas somente cerca de 500 são ativos e bem estudados, outros 150 são monitorados e pouco se sabe sobre o restante.

As catástrofes como elementos de construção do espaço
            Uma das catástrofes mais impressionantes dos últimos tempos foi o tsunami no Oceano Índico (foto página 44 no caderno do aluno). Estamos diante de um evento natural que combina movimentos de duas esperas naturais: movimentos da litosfera mais os movimentos da hidrosfera.
            Tsunami ou maremoto é uma série de ondas de água causada pelo deslocamento de um grande volume de um corpo de água, como um oceano ou um grande lago. Vamos ler o texto “Tsunami do Índico: uma catástrofe regional de amplitude mundial” na página 45 do caderno do aluno. A placa tectônica indiana subiu sobre a microplaca birmanesa, que seria um fragmento (não se tem certeza se é uma placa independente) da placa eurasiática. Esse movimento brusco produziu grande perturbação nas águas oceânicas, o que gerou o maremoto, o tsunami. Ele foi um evento que ocorreu em dezembro de 2004. Todos sabiam de sua ocorrência. Nesses cinco anos, vocês ouviram falar de terremotos no Peru e no Paquistão? E sobre o terremoto do dia 6 de abril de 2009, no centro da Itália (região de Abruzzo), no qual morreram mais de 300 pessoas? O tsunami atingiu áreas turísticas, vitimando um grande número de pessoas de diversas nacionalidades. Isso fez aumentar a repercussão para além da escala regional. A repercussão do tsunami em escala mundial significou uma forma de aproximação dos povos, visto que a solidariedade que se organizou veio de lugares dos quais, no passado, não viria. Essa ocorrência ajuda a construir uma nova Geografia das relações entre os povos. Várias possibilidades de reflexões interessantes existem sobre os significados de um evento dessa dramaticidade para a humanidade, e muitas vão nos ajudar a pensar melhor no que chamamos relações homem-natureza. O que está acontecendo agora nos países vitimados pelo tsunami? Como foi retomar a vida depois da devastação? Como construir novos espaços? Pensar de outra maneira na localização geográfica da ocupação do espaço nas regiões litorâneas, reavaliar a qualidade das edificações, rever o sistema de proteção, como o monitoramento das condições oceânicas, os meios para o alerta geral e para a evacuação. Será que os países atingidos têm condições econômicas e sociais para incorporar essa experiência e os novos saberes para construir espaços humanos mais bem protegidos e mais dignos?
            O evento do tsunami está agora humanizado (ele não é mais um evento da natureza apenas), a ação geográfica do ser humano na região estará fortemente influenciada pelo que aconteceu e pelo que pode acontecer. Nesse sentido, pode-se dizer que o tsunami, que antes destruiu, agora é um dos construtores do espaço.

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