sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Textos para 8a. série / 9o.ano - 4o. bimestre

13. Espaços relacionais, espaços de conexão
Profa. Celina – Geografia – 8ª. série

Quais os significados e os efeitos sociais da configuração espacial que é a cidade? As cida­des são espaços relacionais por excelência, nas quais se produziu e se produz o fundamental dos elementos estruturadores do mundo mo­derno, incluindo o campo da cultura, em seu sentido mais amplo. Não são apenas espaços que promovem relações no seu interior, mas que conectam seus habitantes a redes sociais de outra escala geográfica, com outras cidades, com outras culturas, com o mundo.
Nas cidades, os seres humanos aglome­ram-se e diminuem as distâncias entre si, mas, ao mesmo tempo, conectam-se e associam-se a espaços distantes. Elas são, portanto, a an­títese do isolamento geográfico. Vamos estudar as características essenciais das cidades, em especial as das grandes cidades.
O que é uma cidade? É comum encontrarmos dificuldade para discursar a respeito. Sobre cidade, vive-se o mesmo impasse que o filósofo católico Santo Agostinho (354-430) mencio­nava quando o tema era o tempo. Dizia ele algo assim: "O tempo... se não me pergun­tam sei o que é, mas se me perguntam... já não sei mais".
Normalmente, esse tipo de situação ocorre quando estamos diante de fenômenos que, de tão presentes em nossas vidas, não são mais alvo de nossa atenção, porque evidentemente já o conhecemos. Isso ocorre com o tempo, com o espaço, com o rural, com o urbano e com a cidade, por exemplo. Mas o que sa­bemos? E por que isso é importante? Porque, ape­sar de imersos nessa configuração espacial que é a cidade, muito dos seus sentidos e de sua força em nossa vida escapa de nossas consciências. É provável que pensam palavras e expressões como: concentração, aglomeração, muita gente junta, lugar que tem muitas coisas, lugar que tem confusão etc. Na maioria delas, há um componente espacial: concentração, muita gente e objetos em direção a um cen­tro, a um único ponto do espaço; aglomeração tem o mesmo sentido; muita gente junta, lugar que tem muitas coisas são formas comuns de se referir a aglomeração e a concentração; lugar que tem confusão já é uma afirmação que ava­lia o ajuntamento no espaço como algo difícil de ordenar, logo, a bagunça. Concentração, aglomera­ção e ajuntamento são formas espaciais, ma­neiras de se construir espaços, que diminuem a distância entre as pessoas e os objetos, e são conceitos opostos à expansão, à dis­persão e ao espalhamento, que são ocorrên­cias espaciais que aumentam as distâncias entre as pessoas e os objetos. Uma questão pode ficar para reflexão dos estudantes: Não será essa forma espacial, a concentração, a essência da cidade? Como a Geografia é uma dis­ciplina que volta sua atenção às lógicas es­paciais que percorrem nossas sociedades, ela tem a responsabilidade de trazer à luz do dia o que essas lógicas escondem.

Abrindo a caixa-preta das cidades
Observe o mapa “Estado de São Paulo: cidades mais importantes”, na página 4 do caderno do aluno, com suas principais cidades assinaladas. As várias bo­linhas pretas representam o conjunto das ci­dades. A única diferente é a cidade de São Paulo, que recebe destaque ao ser representada por uma bolinha preta com um círculo em volta. A maior concentração des­sas bolinhas acontece nas proximidades da capi­tal e elas se dispersam em direção ao interior.
A Geografia não mapeava os espaços internos das cidades, reduzia-os a bolinhas pretas em mapas de outra escala, como o do Estado de São Paulo. Os mapas da Geografia são dominantemente de escala geográfica regional, nacional ou mundial, quer dizer, são mapas em que a maior parte da representação diz respeito aos vazios demográficos, já que nessas escalas as cidades viram bolinhas. Raramente se vê numa aula de Geografia, em atlas geográficos escolares e nos livros didáticos mapas dos espaços internos das cidades. Os espaços humanos mais complexos - centros geradores e comandantes da economia e da cultura modernas e espaços de moradia da maioria da população - são negligenciados pela Geografia e pela Cartografia. Assim, nega-se o acesso direto às realidades geográficas que lhes são mais imediatas.
Agora, observe os mapas das duas áreas metropolitanas mais importantes do Estado: “São Paulo: região metropolitana”, na página 8 e 9 do caderno do aluno, que está entre as maiores aglo­merações do mundo de escala local, e “Campinas: região metropolitana”, na página 10 e 11 do caderno do aluno.
No mapa de São Paulo, as manchas assinaladas em rosa, que incluem o município de São Paulo, compõem a área urbana, cuja população, em 2007, era de cerca de 18,8 milhões de habitantes. O número de edificações, de infraestruturas urbanas, de negócios diversos e de recursos cul­turais é imenso nessa grande metrópole que é, em si, um mundo. Ser um mundo em si significa que, em sua relativa pequena extensão espacial, há um máximo de concentração de população e de objetos geográficos construídos pelos se­res humanos.
Trata-se de um mundo isolado geograficamente, ou ao contrário: seria vocação dessa impressionante aglomeração humana a abertura e o relacionamento com os mundos externos?
Essa questão revela o potencial relacional de uma grande cidade e como esse gênero de configuração espacial é decisivo para a compreensão da geografia do mundo que vivemos, pois, para além do seu espaço interno, uma grande cidade estende seus tentáculos - a metrópole de São Paulo, que soma vários municípios -, cria imensas redes sociais, que, por vezes, alcançam a escala global.
Provavelmente, ninguém entende uma grande cidade como um espaço isolado geograficamente, mas certamente é necessário examinar com detalhes todos os elementos de uma grande cidade, que comprovam sua articulação com regiões bem mais amplas.
Alguém, em sã consciência, poderia entender que uma grande cidade teria uma população composta apenas por pessoas nascidas em seu território? Como se poderia reunir num espaço concentrado, de distân­cias reduzidas, cerca de 18,8 milhões de pessoas, como no caso de São Paulo (dados de 2007)? Ainda mais considerando que, há 50 anos, essa população não ultrapassava 4 milhões de habitantes. O que explica essa multiplicação acelerada da população? A migração de pessoas de outras partes do Estado de São Paulo, do Brasil e do mundo é a principal fonte do povoamento de uma grande cidade. Antes de tudo, toda grande cidade é uma concentração de migrantes e imigrantes que, em geral, não perdem o vínculo com suas localidades de origem (no mínimo se correspondem). Isso, por si só, já significa ligações da cidade com outras sociedades e outros espaços. Já significa a formação de redes sociais, inerentes a qualquer grande cidade.
No quadro “Até onde vão as redes sociais e geográficas das grandes cidades”, na página 12 e 13 do caderno do aluno, são apresentados algumas características de uma grande cidade, por exemplo, São Paulo. Esses são 15 pontos que ajudam a abrir um pouco a caixa-preta das cidades, em especial das gran­des cidades. Podem-se acrescentar vários outros ou organizá-los de diversas formas. Eles servem de exemplo dos elementos geográficos de uma grande cidade que exercem seu papel muito além do espaço local, da escala local.
Esse quadro pode ser enriquecido com fatos concretos, usando diretamente uma cidade real, como por exemplo São Paulo. Vejamos dois exemplos:
- Atividades artísticas: a cidade pode sediar uma mostra in­ternacional de cinema anual de muito pres­tígio e festivais de música de vários géneros; tem uma estrutura razoável de salas de ci­nema e de espetáculos e recebe espetáculos e artistas do Brasil e do mundo rotineira­mente; tem museus e exposições bem visita­dos, inclusive recebe público que viaja com esse objetivo etc.;
- Poder político: a cidade não é a capital do Brasil, mas é a maior e a mais influente cidade do país. Alguns dos principais partidos que atuam na política nacional têm origem na metrópole paulista, assim como algumas das principais lideranças saíram dessa cidade (que vai além do município de São Paulo). Os interesses formados nessa cidade costumam ter força política no quadro nacional.
Não faz sentido afirmar que as cidades, em es­pecial as maiores, são espaços relacionais por excelência?

Cidades: plataformas para a transição das escalas geográficas
O mesmo quadro pode agora ser utilizado para avaliar outras cidades. Se a cidade for média ou pequena, pode ocorrer algo semelhante aos dois exemplos seguintes:
- Atividades educacionais I ↔ Cidade média (+ 70 mil habitantes) = por escassez de demanda, é bem provável que alguns níveis de ensino não existam, por não haver público suficiente, nem interesses estabelecidos para que existam esses cursos, por exemplo. Os interessados dessa cidade em frequentar cursos superiores deverão procurar vagas em outras cidades maiores.
- Infraestrutura de trans­portes ↔ Cidade média (+ 100 mil habitan­tes) = boa malha rodoviária em sua direção; bom número de linhas de ônibus para cidades da região e para a capital, mas para outras localidades do país é preciso ir para outra ci­dade maior onde se pega outro ônibus; para uma viagem aérea, deve-se ir para a capital ou para outra cidade maior do Estado que possui aeroporto.
Qual o objetivo dessa comparação? O que está sendo medido é a força da cidade de extrapolar seus próprios limi­tes; de alimentar redes sociais de outras escalas; de atrair mais moradores, negócios e eventos. É evidente que uma cidade média perderá, por comparação, para uma cidade grande, que tem mais recursos para saltar para outras escalas geográficas de relações. Porém, nem sempre o tamanho é inteiramente decisivo. Uma cidade como Londres, em 2007, contava com uma população de cerca de 8,6 milhões de habi­tantes, ou seja, bem menor que São Paulo, mas ela levaria vanta­gem em vários itens do inventário construído, se comparada à capital paulista.
Com o objetivo de caracterizar a condi­ção das cidades quanto à sua capacidade de influenciar e se articular com outros espaços e outras sociedades, os estudiosos do fenômeno urbano têm procurado classificá-las. Nesse esforço, vários termos vêm sendo emprega­dos: metrópoles; megalópoles (megapólis e gigapólis); cidades mundiais ou globais; arqui­pélago megalopolitano mundial; entre outros.
Todos esses termos referem-se a cidades ou reunião de cidades (espaços urbanos) que têm a capacidade de se inserir em escalas mais elevadas e, no limite, na escala mundial. A de­finição mais comum de metrópole diz respeito à sua capacidade de comandar territórios, so­ciedades e negócios para além de seu próprio território.
São Paulo corresponderia a essa situação? São Paulo é, sem dúvida nenhuma, uma grande metrópole. Se fosse Campinas, certa­mente seriam encontradas características para catalogá-la como uma metrópole, embora menor e menos influente que São Paulo. Outros centros urbanos do Estado não chegam a essa condição, mas poderá se notar a presença de alguns elementos metropolitanos em algumas delas: São José dos Campos, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, por exemplo.
E olhando para o mundo? Vamos lembrar uma expressão que está sendo muito utilizada desde os anos 1990: cidades globais (ou mun­diais). Como o próprio nome diz, são aquelas cujas influências têm escala mundial de fato. Mais até: seriam os lugares mais estratégicos da globalização, os principais lugares da rede de relações econômicas que forjam a globali­zação. Nos anos 1990, admitia-se que apenas três metrópoles chegavam a tanto: Tóquio, Nova Iorque e Londres. Hoje, já se admite que há outras que podem ser consideradas cida­des mundiais. E São Paulo? Ainda, segundo esse modo de classificar as cidades, não teria alcance global, mas teria forte alcance regional ou zonal.
Mas essa forma de classificar isoladamente cidades é bem discutível. Talvez o ideal fosse apenas verificar se a cidade propicia o acesso cotidiano de sua população e de suas rela­ções à escala mundial. E isso São Paulo proporciona de forma evidente. Nesse caso, seria uma cidade global. Não somente porque in­fluencia, mas porque recebe a influência e pertence à rede geográfica da globalização.
São Paulo é uma cidade global enão é uma cidade global. Mas qual é a reali­dade? É ou não é? A realidade existe, mas ela somente chega até nós conforme a olhamos. E, no caso, mencionamos duas formas de in­terpretar essa realidade:
1.  Conforme o critério de capacidade isolada de influência, São Paulo tem força para in­fluenciar muito pouco na escala mundial, logo não é uma cidade global (uma metró­pole global).
2.  Segundo o critério de pertencimento a redes sociais e econômicas de relações que carac­terizam a globalização, São Paulo é plena­mente uma metrópole global.
Qual dos dois critérios mencionados revela melhor a realidade que vivemos? Essa discus­são é mais importante do que simplesmente discutir se São Paulo é ou não uma cidade global.
Algo mais pode ser acrescentado à questão das cidades e às suas relações que se estendem a outras escalas: certas regiões do mundo reú­nem em espaços de pequenas extensões mais de uma metrópole, que articulam de tal modo as relações entre si que é justo se falar num espaço urbano de outra escala, a escala regio­nal. Esse espaço urbano que articula intensa­mente mais de uma metrópole é comumente designado como megalópole. Numa megalópole, encontram-se mais claramente os ele­mentos de integração na escala global.
No quadro “Arquipélago Megalopolitano Mundial (ou Global)”, na página 18 do caderno do aluno, estão mencionados e localiza­dos os principais centros urbanos, que, como grandes ilhas em conjunto, formam uma espécie de arquipélago: Arquipélago Megalopolitano Mundial. Essa seria, como alguns autores dizem, a estrutura espacial básica da globaliza­ção. E São Paulo faz parte dessa estrutura. Em cada um dos conjuntos, seus núcleos são bem articulados.
Até onde vão e de onde vêm os bens materiais (mercadorias) e imateriais (informações, influências) que cercam nossas vidas no Estado de São Paulo. Afinal, é justo incluir São Paulo como uma metró­pole integrada na realidade da escala global?

14. As cidades: criação e irradiação do consumo

As configurações urbanas reúnem, em uma dis­tância mínima, um número máximo de pes­soas e recursos. Além da imensa massa de relações que se estabelecem entre os habitan­tes e os recursos de um espaço urbano, a vida na cidade permite relações em outras escalas geográficas, com outros espaços e sociedades. É por isso que uma cidade chega à condição de metrópole.
Não é por acaso que o fundamental da vida humana, no mundo moderno, se orienta por criações que têm origem nas cidades. Esses são os casos da criação econômica e seu comando, das ciências, das diversas faces da cul­tura, da política. Entre as práticas modernas, uma que tem um peso importante em nossas vidas e uma complexidade de múltiplos signi­ficados é o consumo. O local fundamental do consumo é a cidade. Não somente o ato em si, mas também no que diz respeito à sua inven­ção,  e à invenção das necessidades nas cidades e a sua irrigação para o mundo a partir das cidades que participam das redes sociais de escala global.
Quais as relações entre consumo e cidade? Como é o consumo em suas vidas?
Vamos ler o texto “A Revolução Industrial e o consumo” na página 22 do caderno do aluno. O que a transferência desses contingentes populacionais para as cidades, que a nova industrialização estimulou ou mesmo obri­gou, impôs a essas pessoas? Um novo estilo de vida. Elas não puderam mais produzir os bens para sua sobrevivência e passaram a ter que comprá-los. A vida urbana, nesse sentido, criou o consumo como meio necessário de sustentação material dos novos habitantes. A vida urbana estava criando um mercado que, antes, não existia. Logo, o consumo, para co­meço de conversa, é resultado de um modo de vida num espaço no qual os alimentos são produzidos em outras áreas. O consumo de nossos meios de vida não é, portanto, algo natural. É uma construção social fortemente vinculada às cidades.
O que os habitantes do meio urbano preci­sam comprar em razão de viverem nesse tipo de espaço, de praticarem um modo de vida especí­fico? Vivendo em áreas rurais, e assim tendo ou­tro modo de vida, as necessidades de consumo seriam as mesmas?
Os espaços geográficos sociais têm modos de vida e uma prática específica, no caso, o consumo.
Essa reflexão é um passo importante para o enriquecimento do olhar sobre   as   realidades: a desnaturalização de ocorrências, que na verdade, são construções sociais e históricas.

Os novos modelos de consumo e as metrópoles
Qual a relação entre o elemento es­pacial e as necessidades do consumo? A ideia agora é verificar alguns aspectos desta relação (cidade ↔ consumo) numa situação contem­porânea e real: na metrópole global que é São Paulo. O primeiro passo é a leitura do texto “O consumo e o espaço interno das metrópoles: o caso de São Paulo”, na página 22 do caderno do aluno”.
A reflexão se inicia com a grande cidade que é São Paulo. É importante saber raciocinar a partir de informações indiretas, porque esta é, aliás, uma prática comum no mundo do conhecimento. A ampliação das redes de supermercado e hipermercado nas grandes cidades prejudica o pequeno comércio de rua. Os grandes supermercados são concorrentes poderosos demais para os pequenos negó­cios distribuídos nas ruas dos bairros, mais próximos das residências. Os pequenos co­merciantes não podem competir em preços e na diversidade de produtos e perdem para a força cultural associada ao consumo das grandes redes de supermercado. Com isso, esse tipo de comércio entra em decadência, juntamente com a vida econômica das ruas.
Os grandes supermercados são os princi­pais centros de abastecimento nas grandes cidades. No entanto, não existe um a cada esquina e, na maioria dos casos, as pessoas têm de realizar deslocamentos longos para chegar até eles. Assim, é difícil fazer com­pras usando transporte coletivo. O automóvel praticamente se impõe nessa forma de abas­tecimento, o que o torna mais dispendioso, aumenta o gasto de tempo e sobrecarrega o sistema viário da cidade.
As práticas em São Paulo terminam sendo transpostas para outras cidades menores, tal é a influên­cia do seu modo de vida e de suas práticas cotidianas. Vamos tratar de outro exemplo: em São Paulo, a moradia em condomínio fechado é um bem econômico muitíssimo valorizado. O setor imobiliário é o mais poderoso e lucrativo segmento da economia urbana. A onda de condomínios fechados é justificada pelo problema de segurança, e isso justificaria as famílias se enclausura­rem em ambientes protegidos. Pois bem, em cidades menores do Estado, nas quais não existem problemas sérios de segurança, esse modelo de moradia também está sendo adotado. É moderno, é da capital, com toda sua capacidade de influenciar os hábitos de consumo.
O consumo e seus novos modelos de espacialização são suficientemente fortes para interferir na estruturação de uma cidade mundial, como São Paulo, por exemplo. Além disso, outras ci­dades terminam sendo influenciadas pelas for­mas e pelos hábitos de consumo das grandes cidades. Essa lógica é cada vez mais acentuada na medida em que as conexões entre as cida­des intensificam-se formando redes geográficas urbanas de caráter cada vez mais mundial. As corporações transnacionais do consumo en­contram, nessa estrutura geográfica que elas ajudaram a criar, um terreno propício para expandir seus negócios. Essa nova situação geográ­fica sedimenta uma nova estrutura urbana mundial. As formas de consumo surgi­das no interior das cidades terminaram se expandindo em escala mundial.
Na experiência cotidiana da vida urbana moderna, não somente nas grandes cidades, mas também nas cidades médias, o consumo apresenta-se muitas vezes organizado em re­des. Aliás, essa é a forma popular de os consu­midores se referirem a certos tipos de negócios. Essas redes estão nos ramos de alimentos (lanchonetes fast-food, pizzarias, restauran­tes); de roupas e calçados; de equipamentos esportivos; de cosméticos; e de vários outros. Muitas dessas redes não se restringem à escala do Brasil, pois são, na verdade, redes que se estruturam na escala mundial, instalando-se, no mínimo, em capitais de diversos países.
Faz parte da lógica desses negócios procurar forta­lecer sua imagem, realçando o tempo todo seu caráter mundial, o que pode ser expresso com slogans publicitários tal como: "...finalmente, chegou ao Brasil o produto X, que já era objeto de consumo das principais cidades do mundo (ou das sociedades mais modernas.)". O fato de ser mundial, de ser objeto de consumo de outras cidades, acrescenta desejo de consumir nas po­pulações de cidades que ainda não têm acesso ao bem de consumo, e as redes mundiais desses negócios sabem como se promover e despertar grande interesse. Não é incomum aglomera­ções e filas para experimentar, por exemplo, um alimento fast-food "mundialmente conhecido", recém-introduzido numa cidade.
Essas redes de negócios em escala global são as primeiras a querer informar sobre sua força mundial e, por esta razão, mantêm sites que oferecem boa parte das suas informações e também por meio de outros materiais.
Isso quer dizer também que, além das pró­prias empresas, muitos estudiosos, muitas pu­blicações (inclusive livros didáticos) organizam dados sobre essas empresas. Nas pró­prias lojas, haverá quem forneça material ou informe os caminhos para se obter as informa­ções.

A representação cartográfica 
É insuperável o valor da visualização cartográfica para que se possa vislumbrar a dimensão global de um bem de consumo urbano e detectar a irradiação dos hábitos de consumo por intermédio de redes,  utilizando informações relacionadas à localização geográfica das unidades da rede e também em relação ao volume de unidades. O mapa permite uma visualização do fenômeno sob vários pon­tos de vista. Além da configuração da rede (articulação, pontos mais densos, áreas mais antigas, áreas mais novas, velocidade de ex­pansão da rede), algumas outras observações podem ser feitas sobre a força de irradiação do consumo que certas cidades (e certas redes) possuem.
A ex­pansão de uma rede, segundo o seu tipo de produto, pode ou não acontecer por uma questão cultural. Essa é uma di­mensão da força das redes que vale a pena des­tacar. Por exemplo: como uma rede de fast-food que vende hambúrguer, consegue se insta­lar em países que restringem culturalmente o hábito do consumo de carnes? Ou, então: como uma rede de roupas jeans consegue penetrar em áreas cujos vestuários masculino e feminino são bastante diferentes desse tipo de vestimenta? Nesses casos, não é possível falar em transformação cultural produzida pela irradiação do consumo?
A cidade, de acordo com seu consumo, pode ser inserida no grupo das cidades mundiais (rede de cidades), que interferem na expansão de modelo de consumo e nas transformações culturais.

15. As redes turísticas: o consumo dos espaços urbanos

Em um mundo em que aumenta a mobi­lidade humana, em que as conexões entre os lugares se intensificam (fato que se nota espe­cialmente nas cidades), potencializa-se uma atividade humana que está em crescimento: o turismo.
Para a atividade turística, os lugares do mundo são mais acessíveis em razão das novas tecnologias de transporte, da queda no custo das viagens, da ampliação do tempo livre das pessoas e da melhoria da capacidade de recep­ção ao turista nos lugares de destino. Num mundo assim, o ser humano seria inevitavel­mente um turista.
Em torno dessa atividade, formam-se redes geográficas e econômicas. Desse modo, cresce o pertencimento dos viajantes-turistas aos lu­gares do mundo, e eles podem agora consumir os diversos lugares atrativos com mais frequên­cia e regularidade.
O fenômeno turístico é muito conhecido no mundo contemporâneo, em especial em certas áreas do Brasil. Seguramente, percebemos o turismo, se não de forma direta, ao menos de forma indireta, pois a prática turística é bem presente nos meios de comunicação, por exemplo.
Imagine, numa grande cidade, uma loca­lidade muito conhecida, onde se encontra um monumento (uma igreja muito antiga, uma grande torre, uma estátua importante, um mu­seu etc.) ou então uma localidade que é muito conhecida por ter sido palco de um grande acontecimento (um ponto onde se declarou a independência de um país, por exemplo). Áreas assim são atrações e, por isso, recebem muitos visitantes, que nelas exploram todos os detalhes, tiram fotografias etc.
Esses vi­sitantes podem ser todos caracterizados como turistas? Todos estão praticando o turismo?
Alguns visitantes podem ser moradores da cidade ou de suas cercanias e estão apenas visi­tando aquele ponto porque também o apreciam. A cidade é muito grande, não é sempre que seus moradores conseguem ir até ali, a não ser em momentos especiais, no seu tempo livre, nas festas. Ali, como visitantes, vão se comportar do mesmo modo que qualquer outro visitante.
Como distinguir os turistas em meio a uma realidade mais ampla, a de todos os visitantes de locais turísticos? Nesse esforço de distinguir os visitantes do lugar atrativo, a palavra-chave é viagem. Essa pa­lavra é um divisor de águas entre o visitante comum de um lugar e o visitante-turista. O conceito de turismo pode ser construído ba­seado nesta condição.
Segundo a Organização Mundial do Tu­rismo (2001), compreende-se por turismo as atividades (de lazer, de negócios etc.) que as pessoas realizam quando viajam por mais de um dia consecutivo para lugares diferentes do seu entorno habitual.
O visitante que viajou está fora do seu cotidiano, está em outro lugar, não mora ali, está hospedado. Ele está viajando. Já o visitante da própria cidade não está fora do seu cotidiano, mora ali, não está hospedado, logo, não está viajando. São dois personagens diferentes e em situações distintas.

O turismo: um fenômeno que constrói espaços
Aqueles visitantes que não eram turistas, que moravam no lugar, estavam praticando lazer. Todos visitavam a atração da cidade, mas alguns praticavam o turismo e outros praticavam o lazer.
Um elemento que compõe o cotidiano de qualquer pessoa é o lugar, o lugar geográfico. Lugar é o quadro geográfico de vida, no qual a distância não impede que as relações do dia a dia (moradia, trabalho, escola, lazer, relações pessoais) se realizem. O que não podemos realizar no dia a dia, porque é muito longe para nós, está fora de nosso lugar. Uma frase resume essa conceituacão: o lugar é o tamanho geográfico de nosso cotidiano. Ele representa a escala local.
Assim, pode-se utilizar a contextualização da Organização Mundial do Turismo (2001) para complementar a caracterização:
- Turismo: viagem de mais de 24 horas para fora do lugar;
- Excursão: viagem de menos de 24 horas para fora do lugar;
- Lazer: visita a um ponto turístico ou de lazer feita por um morador do lugar.
            Essa caracteri­zação estabelece um vínculo entre o lazer e a atividade turística, mas o conceito de lazer possui uma amplitude maior: consi­dera todo o tempo disponível, excluindo-se as horas de trabalho, que pode ser dedicado às atividades que dão prazer às pessoas. Esse tempo poderá servir para visitar algum ponto atrativo local.
Todas as viagens podem ser caracterizadas como turismo? Se, por exemplo, alguém vai a uma festa de casamento de um parente, não foi fazer turismo. Mas há práticas que envol­vem viagens que estão sendo chamadas de turismo, e o melhor exemplo é o chamado turismo de negócios. Faz sentido dizer que pessoas que viajam a negócios praticam algo que possa ser cha­mado de turismo?
O turismo de negócios também é um tema polêmico na própria área, com defesas favoráveis e contrárias a essa categoria turística. Alguns pesquisadores, como Cunha (2001), conciliam a questão dos negócios com a atividade turística, ao afirmar que o turismo de negócios com­porta as atividades de visitação que decor­rem de viagens com a finalidade de realizar negócios ou outras atividades profissionais. Reforçando essa posição, o Ministério do Turismo (2008) afirma que as atividades tu­rísticas decorrentes de viagens de negócios (participação em feiras e convenções, reu­niões comerciais etc.) caracterizam-se como turismo de negócios e eventos.
As motivações para o turismo são variadas e os lugares procurados também, es­pecialmente onde há mais tempo e as pessoas se organizam para a prática do turismo. No passado, as atrações turísticas eram outras e novas motivações foram acrescentadas a elas. Alguns exemplos:
- Hidroterapia, climatismo, alpinismo, es­portes de inverno, esportes de verão: re­ferem-se às diferentes práticas do passado, algumas ainda são muito procuradas, como os esportes de inverno nos países temperados;
- "Turismo cultural", "turismo balneário ou litorâneo", "turismo de montanha", "turismo verde" (ecoturismo e "turismo rural"): são termos referentes a certas rea­lidades espaciais e sociais (grupos sociais tidos como exóticos, praias, montanhas, santuários ecológicos, área rural);
- O descanso, o divertimento, a procura de outras experiências e a realização de uma necessidade existencial são referências às finalidades buscadas pelos turistas.
Como se dá a organização espacial do tu­rismo e de suas redes?
Em função da sua capacidade de recepção, população local e funções urbanas diversificadas, os espaços turísticos são classificados em sítio turístico, infraestrutura turística, estações turísticas e cidade turística, como observamos no quadro “Distinção de diferentes espaços turísticos”, na página 32 do caderno do aluno. Os lugares turísticos funcionam articulada­mente. Vale a pena defini-los rapidamente:
- Sítio turístico: É a atração turística propriamente. Uma área destacada no interior de outros espaços e que possui a função turística pura. Esse é o caso das pirâmides do Egito (e de outras ruínas daquela civilização antiga); das pirâmides maias na América Central; de formações naturais (quedas d'água, picos de montanhas, por exemplo). Nos sítios turísticos não se hospeda e não mora ninguém. Os tu­ristas dirigem-se até eles, visitam-nos e retiram-se.
- Infraestrutura turística: Lugar pouco conhecido em nosso território, mas muito comum em paí­ses turísticos. Por exemplo, nas escaladas e trilhas em regiões montanhosas existem lugares que apoiam o turismo, até com serviços de hospedagem. Não mora ninguém nesses lugares, não são eles a atração, mas foram construídos como parte necessária das redes espaciais do turismo. Aeroportos em lugares afastados por vezes cumprem esse papel. São portas de entrada para áreas exploradas por certas práticas turísticas.
- Estação turística: Esse gênero de lugar turístico já é mais familiar. Estrutura-se em áreas po­voadas, pequenas cidades em geral, com grande capacidade de hospedagem para o período da estação turística. Suas atrações vinculam-se às estações do ano. Esse é o exemplo dos pequenos povoados em regiões montanhosas que lotam de turistas na estação do inverno, ou, então, das pequenas cidades litorâneas que se transformam no verão. Sem o turismo, são áreas urbanas sem a diversidade de atividades e recursos de uma grande cidade. Um exemplo bem conhecido de São Paulo: Campos do Jordão, estação turística de inverno.
- Cidade turística: São as cidades que recebem muitos turistas, mas têm uma vida ampla e diversi­ficada para além dessa atividade. São centros urbanos plenos, que exercem todas as funções das áreas metropolitanas e são visitadas inclusive por isso. Entre eles, estão os principais destinos dos turistas do mundo e exemplos não faltam: Paris (França), Londres (Inglaterra), Nova Iorque (EUA), Rio de Janeiro, Salvador, Sydney (Austrália), Barcelona (Espanha) e muitas outras cidades.
            Qualquer lugar turístico se encaixa em uma dessas quatro categorias. Elas compõem a rede espacial do turismo e sua escala de abrangência pode ir do local até o global.
As reações, as conseqüências e os efeitos do turismo no mundo, um fenômeno novo (na proporção atual) na his­tória da humanidade, não estão ainda absorvidos.

A escala do fenômeno turístico: o apoio na rede de cidades
O turismo tem uma dimensão econômica importante que contribui para a criação de riqueza em diferentes escalas. Na escala mun­dial, com mais de 700 milhões de deslocamen­tos, o turismo contribui com cerca de 10% da riqueza mundial. Em países em desenvolvi­mento, uma porcentagem ainda maior de sua riqueza provém do turismo; porém, países ricos, como a França ou a Espanha, arreca­dam perto de 10% de suas riquezas dessa atividade.
O que significam as práticas turísticas no mundo contemporâneo? Observe a representação cartográfica “Destinações do turismo internacional, 2005” apresentada na página 36 e 37 do caderno do aluno
Podemos utilizar esse mapa também para trabalhar sua linguagem visual. Ele foi elaborado pelo Ateliê de Cartografia de Sciences Po (instituição de pesquisa francesa na área de Ciências Políticas), de acordo com os preceitos definidos por Jacques Bertin, em sua obra Semiologia gráfica. Para esse autor, que elaborou teorias de tratamento da informação, a imagem gráfica (no caso, o mapa) bem trabalhada favorece o apren­dizado, ajuda a construir um pensamento lógico com base em uma forma visual de interpretação.
Por que uma coleção de mapas? Na repre­sentação dos fluxos turísticos, os autores criaram mapas separados para cada con­tinente. Em cada um deles, encontra-se a origem dos fluxos que partem em direção aos outros continentes. Com isso, criaram uma coleção de mapas para representar um único fenômeno. A decisão foi toma­da porque, se os fluxos todos fossem repre­sentados num único mapa-múndi, haveria sobreposição, e isso dificultaria a inter­pretação do mapa. Olhando a coleção de mapas, pode-se responder de imediato à pergunta: onde estão os maiores fluxos de turistas no mundo? E esse olhar de conjun­to somente é possível porque os mapas são comparáveis. São mapas do mesmo tema e feitos com a mesma linguagem (mesma legenda, mesmos símbolos, e, no caso, a largura das setas têm a mesma proporcio­nalidade em todos os mapas).
O que mostra a coleção de mapas? Re­presenta quantidades em forma de setas que indicam direções (de um continente a outro), formando fluxos quantitativos. Representa também quantidades inter­nas a um único continente, por meio de círculos sobre os continentes ou regiões. A largura das setas mostra a quantidade de turistas viajando de um continente a outro; o tamanho dos círculos mostra o volume de turismo no interior do conti­nente.
O fluxo quantitativamente mais sig­nificativo de turismo intercontinental (entre continentes) é o da Europa para a América do Norte (em laranja), representado no mapa que centraliza a Europa pela seta proporcionalmente mais larga dos quatro mapas. Já o maior volume de turismo intra-regional (dentro do mesmo continente) está na Europa (em laranja) e está representado pelo maior dos círculos dos quatro mapas, indicando tam­bém o domínio do turismo de distâncias menores. A Europa é a área do mundo que mais recebe turistas intercontinentais vindos principalmente das Américas e da Ásia. É também o continente que mais envia turistas para os outros continentes, inclusive a África. Além de tudo isso, tem o maior turismo intra-continental. Isto é, ao mesmo tempo, sintoma de riqueza eco­nômica; boa qualidade de vida de seus habitantes que conquistaram parcelas de tempo livre; presença de localidades atrativas e de estruturas para atrair o turista e facilitar o turismo para o exterior. Em menor escala, essa situação se repete na América do Norte e no Japão.
A Europa é uma região bastante urbanizada. Os turistas que vão à Europa buscam as atrações urbanas, em suas grandes e muito conhecidas cidades. Paris é a cidade mais visitada do mundo; em 2008, recebeu cerca de 28 milhões de tu­ristas, sendo 9 milhões de estrangeiros. A única concorrência que as cidades européias sofrem vem das praias, no verão. As praias da Espanha e da Grécia, por exem­plo, são muito procuradas, em especial pelos europeus dos países mais frios. Em busca de sol e praia, muitos europeus vão também para a África.
A América do Norte, que é um destino de muitos turistas europeus, asiáticos e sul-americanos, tem várias atrações turísticas, mas as principais também são suas cidades e suas instalações urbanas, com destaque para Nova Iorque e os parques temáticos localizados em Orlando e em Los Angeles, por exemplo.
Algumas cidades atraem mais turistas que as outras localidades, que também têm atra­ções turísticas, por conta da riqueza de seus monumentos históricos ou arquitetônicos, paisagens populares ou ro­mânticas e seus grandiosos recursos culturais. A esses fatores tradicionais, exposições, congressos, eventos cultu­rais e desportivos alcançam uma grande difusão internacional As cidades têm várias situações estratégicas para atrair os turistas: infraestruturas de comunicação e de trans­porte, que partem e se dirigem para as cidades; concentração de recursos de hospedagem, de comércio, mercados populares e "étnicos", parques de lazer etc.
Apoiado nas redes de cida­des, o turismo intercontinental movimenta mais de 100 milhões de pessoas anualmente. Isso, adi­cionado ao turismo dentro dos continentes (cerca de 600 milhões), demonstra quanto no mundo contemporâneo as relações huma­nas estão se estreitando e quanto os espaços estão se transformando em espaços de todos. Por enquanto, os números da movimentação turística representam 10% da população mundial, mas todas as tendências indicam que esse processo de "consumo dos espaços" mal se iniciou.

16. Um mundo mais fluido: os caminhos geográficos das redes ilegais

Num mundo mais interconectado, que es­trutura seus principais núcleos urbanos em re­des e por onde circula um volume imenso de turistas, de novos bens e hábitos de consumo, circulam também pessoas, bens e informações fora do controle das leis vigentes.
Ao contrabando de mercadorias, à circu­lação de imigrantes clandestinos, ao tráfico de drogas e de armas, às redes de ilegalidade tradicionais (embora atualmente mais profis­sionais e mais sofisticadas), juntam-se: as no­vas formas de organização dos agrupamentos terroristas; os novos meios de fuga de recursos financeiros em "paraísos fiscais" (que não co­bram impostos sobre determinadas operações financeiras); a "lavagem" e o "esquentamento" de dinheiro sujo; e o comércio de produtos e de bens culturais com marcas famosas falsifi­cadas: a pirataria.
A rigor, as redes de ilegalidade se fortale­cem porque é possível fazer circular bens em escala global, há demanda para eles, e os con­troles que são feitos pelos Estados nacionais (países) não estão bem preparados para re­primir as organizações ilegais mundiais, bem mais poderosas e engenhosas do que eram antes.
Algumas atividades ile­gais, em nosso país, estão muito presentes em nosso cotidiano, direta ou indiretamente, pelos meios de comunicação, por exemplo: contrabando, pirataria, falsificação, "laranjas", tráfico de drogas ou de armas, muambas, sacoleiros, lavagem de dinheiro, dinheiro sujo, etc.
            Os piratas são personagens históri­cos, navegadores que viviam de saquear navios que transportavam mercadorias das regiões colonizadas pelos europeus. A pi­rataria clássica, de rapto e saque de navios, parece ter retornado, a partir da Somália, país que vive uma guerra civil desde 1990. Desde 1997, há re­latos de roubos de navios nas proximidades desse país. Hoje, quando se fala em produ­tos piratas e pirataria, são produtos falsificados, copiados de outros produtos famo­sos. A pirataria é um negócio ilegal, apoiado por redes e organizações poderosas, que vivem de copiar, de falsificar, de usar a identidade alheia. Produtos piratas são mais baratos: não pagam impostos e geralmente usam materiais de baixa qualidade.

Um mundo interligado: as redes da ilegalidade se fortalecendo
Os negócios legais ou as redes de ilegalidade operam em escala glo­bal, aproveitando diferentes oportunidades no mundo desigual e de controles e necessidades variadas.
O enfraquecimento do controle dos Estados nacionais favorecem a circulação de bens ilegais, e, depois, "purificam" seus resultados, dando condição legal ao dinheiro obtido.
Mui­tas vezes inexistem controles às redes de ilegalidade. Um exemplo é o próprio Brasil e sua maior cidade (São Paulo), cuja paisagem urbana atual está marcada por locais que concentram abertamente a comercialização de "produtos pirateados". Nesse comércio, mobiliza-se um volume muito grande de mão de obra e de compradores, que de outro modo não teriam emprego ou condição de comprar certos produtos. Mesmo quem poderia comprar produtos mais caros, termina se be­neficiando desse comércio. Aí, a ilegalidade se mistura com problemas sociais e econômicos do país. Esse é um aspecto da complexidade do problema. Outro aspecto são os malefícios que esse comércio ilegal produz sobre várias atividades legais que vão sofrer com perda de mercado, o que vai ocasionar desemprego, por exemplo. Além disso, muitos outros riscos - de saúde, de segurança etc. - estão implica­dos no comércio ilegal.
O mapa “Os paraísos fiscais”, na página 44 do caderno do aluno, mostra a localização dos paraísos fiscais, mas não mostra a importância deles por meio de uma relação visual de ordenação ou de quantidade e não há representação das movimentações financeiras de cada um deles, que certamente são diferenciadas.
No paraíso fiscal, as operações são secretas. Se não houvesse sigilo e todos soubessem para onde vai o dinheiro dos traficantes, quais negócios legais foram abertos com esse dinheiro, enfraque­ceria os paraísos fiscais e as organizações criminosas em suas operações no mundo. As transações ilícitas  se­riam reveladas e a expulsão do "paraíso", mais eminente.
No mapa, pode-se ver a distribuição geográfica desses lugares. Por que ocorre a concentração dos paraísos fiscais na região da América Cen­tral, no mar do Caribe? Os Estados nacionais identificados como paraísos fiscais são quase todos ilhas, quase todos de pequena extensão territorial e, seguramente, com poucos recur­sos econômicos próprios. Sua vida econômica depende do turismo (que neles é bem forte) e espaço livre de controles aos capitais.
A segunda maior concentração de paraísos fiscais, que o mapa nos mostra, é na Europa. São áreas de pequena extensão, espécies de recortes que ficaram fora da divisão territorial dos principais países europeus. Encontram-se num continente rico e ser­vem de algum modo para que muitos milio­nários europeus, por exemplo, mudem para esses paraísos para fugir de impostos nos seus países de origem. São paraísos fiscais tanto quanto os outros e também mais ou menos fora do controle das leis interna­cionais. Logo, servem de apoio às redes de ilegalidade.

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