terça-feira, 9 de agosto de 2011

Textos para 2a. série / Ensino Médio - 3o. bimestre

9. Matrizes culturais do Brasil
Profa. Celina – Geografia – 2ª. Série – EM

A constituição étnica da população brasileira é formada por três principais grupos: o indígena, o branco e o negro africano. Esse capítulo irá elucidar conceitos fundamentais relacionados ao conteúdo, como miscigenação, raça e etnia, preconceito e discriminação.
Alguns registros culturais podem despertar “a diversidade étnica da população brasileira”. Observe a figura “Monumento às nações indígenas” na página 3 do caderno do aluno: essa obra é uma das mais expressivas obras do artista plástico Siron Franco. Criado em 1992 e construído em Aparecida de Goiânia (GO), quando visto do alto mostra a silhueta do mapa do Brasil. São 500 totens quadrangulares ou triangulares com imagens da iconografia indígena em baixo-relevo em suas faces laterais, além de esculturas de objetos, utensílios ou rituais sagrados dos diferentes povos indígenas, todos reproduzidos minuciosamente em concreto a partir de peças datadas de época pré-cabralina (antes de Pedro Álvares Cabral). Os índios contribuíram muito para a formação da cultura brasileira: culinária, instrumentos musicais, nomes de lugares, a presença de palavras indígenas no português falado no Brasil são alguns exemplos.
Agora, veja, na página 4, a pintura “Navio de emigrantes”, do artista moderno Lasar Segall (1981-1957). Somos multiculturais por formação: os imigrantes contribuíram muito na formação da população brasileira ao lado de outros grupos e culturas, como portugueses, indígenas e africanos. Inúmeras levas de estrangeiros chegaram ao país, principalmente ao longo do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. A emigração envolve o drama dos envolvidos, que abandonaram seu país de origem, a interrogação sobre a terra futura e a nostalgia da terra passada. No quadro, o olhar do pintor está situado na ponte de comando do navio, projetando-o sobre a proa, conferindo destaque para as famílias de emigrantes. Embora, ao que tudo indica, o instante escolhido pelo artista é o da tristeza do desterro, o navio parece erguer-se, maior e mais forte que os obstáculos naturais (o mar) em direção a seu porto de destino. Além desses aspectos, nota-se o valor atribuído pelo artista aos seres anônimos que, egressos de diferentes países, contribuíram para a formação e a diversidade étnica do Brasil contemporâneo.
No século XX, mais um grupo étnico veio participar da formação da população brasileira: o asiático, representado, principalmente, pelos japoneses, chineses e coreanos.
Etnia corresponde a um agrupamento humano cuja unidade repousa na comunhão de língua, cultura e de consciência grupal. Podem existir, em uma etnia, traços físicos comuns, entretanto não são eles que a definem, e sim o sentimento de pertencer ao agrupamento ou à comunidade. O termo raça, por sua vez, largamente utilizado no passado, é hoje considerado impróprio, pois a ciência já constatou que, no sentido biológico, não existe raça humana.
Durante muito tempo utilizou-se a miscigenação da nossa população, isto é, o cruzamento entre grupos étnicos, para se afirmar que no Brasil sempre existiu uma “democracia racial”. No entanto, essa visão é hoje considerada um mito, pois obscurece a realidade do preconceito e da discriminação ainda presentes na sociedade brasileira. No passado, tal mito disfarçava o preconceito de cor em relação ao indígena, ao negro e aos mestiços e, também, o preconceito social determinado pela renda e pelo status social. Serviu de forma admirável à classe dominante para mascarar as opressivas relações étnicas e sociais no Brasil.
Os gráficos “População brasileira segundo a cor”, na página 7 do caderno do aluno, apresentam os recenseamentos da população brasileira elaborados desde 1950: com exceção do realizado em 1970, sempre fizeram o levantamento da população segundo a cor dos indivíduos. No entanto, esses dados merecem uma análise mais crítica, entre outras razões, em virtude:
- de ser autodeclarados (declaração em que o declarante declara algo sobre si mesmo), uma vez que o IBGE solicita que cada indivíduo se reconheça em um dos poucos parâmetros relativos a cor previstos no instrumento da pesquisa;
- de esses parâmetros serem imprecisos – como, por exemplo, a noção de pardo, que abrange descendentes tanto de africanos quanto de indígenas, e a noção de amarelo, que engloba indivíduos indígenas, japoneses, coreanos, chineses e seus descendentes. Esse problema, embora não resolvido, foi minorado no censo de 2000 realizado pelo IBGE, conforme atesta o gráfico relativo ao ano de 2001, no qual se nota que os indígenas foram agrupados separadamente dos orientais.
            Por último, os dados de 2006 mostram a consolidação de um movimento, sinalizam que mais pessoas em nosso país estão assumindo sua cor de pele, abrindo mão, assim, de uma ideologia de fundo racista que as fazia desvalorizar sua cor. Nos últimos anos, o fortalecimento do movimento negro e a transformação positiva da imagem pública das pessoas desse grupo em nossa sociedade vêm crescendo.

10. A dinâmica demográfica

Nesse capítulo serão enfatizados os conceitos de natalidade, mortalidade, crescimento natural ou vegetativo e os principais fatores que interferem na variação desses índices, buscando discutir a dinâmica demográfica brasileira segundo sua evolução no tempo e sua situação atual. A evolução demográfica do Brasil é subdividida em dois grandes períodos e, a partir da noção de transição demográfica, iremos comparar com a verificada em outros países. Além da queda acentuada nas taxas de mortalidade e de fecundidade a partir da acelerada urbanização, vamos verificar outros fatores responsáveis pela variação das taxas de natalidade no Brasil. Algumas notícias e opiniões veiculadas pela mídia tratam questões relacionadas ao processo demográfico brasileiro de modo equivocado, difundindo preconceitos e desinformação. O que vocês pensam em relação ao futuro familiar que os aguarda? Que tipo de família que pretendem ter e quais os métodos contraceptivos que vocês conhecem?
Coletar e estudar dados populacionais colaboram com os governos a desenvolver projetos de gestão pública adequados às reais necessidades da população e atua como uma forma de planejar o nosso próprio futuro. O crescimento populacional decorre de duas variáveis: o saldo entre o número de imigrantes (pessoas que entram no país) e o número de emigrantes (pessoas que deixa o país) e o saldo entre o número de nascimentos e o número de óbitos. Esta última variável constitui o crescimento natural ou vegetativo. No caso do Brasil, este último processo é de grande importância, pois a imigração só teve influência significativa no crescimento populacional no final do século XIX até 1934, quando foi promulgada a Lei de Cotas, que restringiu drasticamente a entrada de imigrantes no país.
A taxa de mortalidade expressa a proporção entre o número de óbitos e a população absoluta de um lugar, em determinado intervalo de tempo. A taxa de natalidade expressa a proporção entre o número de nascimentos e a população absoluta de um lugar, em determinado intervalo de tempo.
Observando no gráfico “Crescimento populacional brasileiro entre 1872 e 2000 e projeções para 2010 e 2020”, na página 13 do caderno do aluno, podemos analisar dois grandes períodos da dinâmica geográfica brasileira:
- o período da aceleração demográfica, que aconteceu entre 1940 a 1960: taxas de natalidade elevadas, enquan­to as taxas de mortalidade começaram a declinar de forma significativa, em razão do maior acesso à rede médico-hospitalar, dos avanços da medicina e das vacinações em massa, gerando, em conseqüência, gran­de crescimento vegetativo ou natural da população brasileira. A partir do ano de 1960, iniciou-se um declínio do crescimento po­pulacional brasileiro mostrado através das quedas percentuais de 35,1%, em 1960, para 15,6%, em 2000 (de acordo com projeções do IBGE para 2010 e 2020, o declínio do crescimento popula­cional brasileiro deverá continuar). As princi­pais causas da queda do crescimento populacional são a revolução da tecnologia bioquími­ca, o aumento do número de pessoas com acesso à rede médico-hospitalar, às vacina­ções em massa e à melhoria das condições sanitárias, que contribuíram de forma signi­ficativa para a queda acentuada das taxas de mortalidade.
- o segundo período, o da desaceleração demográfica e transição em curso, aconteceu a partir de 1970 até os dias atuais: houve reduções consideráveis das taxas de natalidade, seguidas de pequena diminui­ção das taxas de mortalidade, o que refletiu na diminuição do crescimento natural da população brasileira. Algumas transformações ocorridas no Brasil explicam a queda das taxas de natalidade, tais como a crescente urbanização, o aumento da taxa de escolarização, a entrada da mulher no mercado de trabalho e a popularização da pílula anticoncepcional e de outros métodos contraceptivos. O conjunto desses fatores favoreceu a redu­ção do número de filhos, muitas vezes tra­duzida pelo planejamento familiar.
            A taxa de fecundidade consiste no número médio de filhos que as mulheres têm no decorrer de suas vidas, em determinada população. Para obter essa taxa. divide-se o total dos nascimentos pelo núme­ro de mulheres em idade reprodutiva (de 15 a 49 anos) da população considerada.
            O gráfico “Brasil: taxa de fecundidade por anos de estudo das mulheres”, na página 16 do caderno do aluno, indica que as taxas de fecundidade diminuem sensivelmente conforme aumentam os anos de estudo das mulheres. As diferentes taxas de fecundidade entre as grandes regiões brasileiras são explicadas pelas diferenças regionais de desenvolvimento econômico, o que implica maior nível educacional da população e a significativa presença da mulher no mercado de trabalho, entre outros fatores. Mulheres com baixo grau de instrução apresentam as maiores taxas de fecundidade.
            Com o auxílio do gráfico “Brasil: redução da taxa de fecundidade”, na mesma página, verificamos a queda da taxa de fecundidade no Brasil começou na década de 1970. Naquela década, a média de filhos por mulher era 5,8 (quase 6 filhos), em 2006 caiu para 2 filhos por mulher e em 2007 esse índice baixou para 1,95 filho por mulher. Segundo o IBGE, uma taxa de fecundidade inferior a 2,0 filhos por mulher não garante a reposição da população atual, demonstrando uma tendência de que o número de habitantes poderá diminuir em números absolutos. A redução do núme­ro médio de filhos por mulher vem caindo em todo o mundo. Particularmente no Brasil, iniciou-se com as mulheres das classes mé­dia e alta dos centros urbanos do Sul e do Sudeste - que apresentavam maior taxa de escolarização e tinham mais acesso as infor­mações – e, pouco a pouco, atingiu as demais classes sociais e regiões (estendendo-se, atualmente, pelas áreas rurais). Entre as regiões brasileiras, em 2005 a Norte tinha o maior ín­dice de fecundidade (2,5 filhos por mulher), e a Sudeste, o menor (1,9 filho por mulher).
Como existe uma estreita relação entre desenvolvimento econômico e taxa de fecundidade, pelas razões apontadas anteriormente, nos países "desenvolvidos" ou industrializados, de modo geral, as taxas de fecundidade são baixas quando comparadas às dos países "subdesenvolvidos" (a taxa de fecundidade dos países "desenvolvidos” situa-se em torno de 1,0).
O gráfico de transição demográfica, no canto inferior esquerdo do mapa “Mundo: estágios de transição demográfica”, na página 31 do caderno do aluno, expressa como o comportamento das taxas de natalidade e de mortalidade de uma popula­ção, no decorrer de um período mudam. Essa noção se refere à transição entre duas situações de crescimento demográfico relativa­mente reduzido. O período pré-transicional é conhecido como regime demográfico tradicio­nal, e é definido por apresentar uma alta taxa de mortalidade e por uma taxa de natalidade também elevada. Em seguida, observe que na Fase I da transição demográfica ocorre a redução das taxas de mortalidade (linha lilás) e registra-se um elevado crescimento vegetativo (natalidade, a linha verde) da população. A Fase II, por sua vez, caracte­riza-se pela redução das taxas de natalidade e, por último, na Fase III,  período pós-transicional, conhecido como regime de­mográfico moderno, definido por baixas taxas de mortalidade e de natalidade e, conseqüentemente, do crescimento vegetativo.
O Brasil, segundo estudos do IBGE, encontra-se na fase de transição demográfica em curso (Fase II), caminhando para a de transição demográfica avançada, que se caracteriza pela diminuição acentuada das taxas de natalidade e de fecundidade e, conseqüentemente, pelo crescimento populacional moderado. Segundo estimativas, nos próximos anos a taxa de natalidade deverá ser inferior a 20, e a de fecundidade deverá declinar ainda mais.
Na página 20 do caderno do aluno, observamos quatro pirâmides etárias do conjunto de países emergentes, conhecidos pela sigla BRIC: Brasil, Rússia, Índia e China (“BRIC: composição da população residente, por sexo, segundo os grupos de idade”). Estes países, considerados economias emergentes, apresentam estruturas etárias bem diferenciadas, tornando-se, portanto, um excelente material de análise acerca de como devem ser lidos e interpretados os gráficos corres­pondentes às pirâmides etárias. A análise da pirâmide etária oferece diversas informações sobre a população de um país, como a quanti­dade de habitantes por faixa etária, a propor­ção por sexo e a porcentagem de pessoas em idade produtiva (ou seja, as que se encontram entre 10 e 65 anos) no total da população. Para interpretar uma pirâmide etária, devemos observar os seguin­tes critérios:
- no eixo das abscissas (horizontal), registra-se a proporção de habitantes em cada faixa etá­ria; no eixo das ordenadas (vertical), as faixas de idade;
- os dados da base ao topo correspondem à quantidade de popu­lação em cada faixa etária de acordo com o gênero (à esquerda, população do sexo masculino; à direita, do sexo feminino);
- observamos diferenças entre a quantidade de popula­ção masculina e de população feminina em cada faixa etária correspondente;
- quando a diferença entre a parcela intermediária - entre 15 e 60 anos, que corresponde à idade produtiva - e a base da pirâmide for acentuada, o país terá um descompasso en­tre a população em idade produtiva e os que deverão ser sustentados (crianças e idosos);
- o vértice (ponta) em relação ao resto da pirâmide: ele (vértice) apresenta a quantidade de população de ido­sos em relação ao resto da pirâmide;
As mudanças na di­nâmica demográfica brasileira influem diretamente nas políticas públicas de planejamento e de atendimento social. Ao comparar a pirâmide brasileira com as outras, verificamos que as pirâmides da Rússia e da China mostram uma estrutura etária mais envelhecida, enquanto a estrutura da Índia é jovem. A pirâmide russa apresenta maior quantidade de mulheres do que de homens, principalmente nas faixas acima dos 65 anos, em virtude dos vários conflitos internos e das guerras pelos quais o país passou em sua história, o que afetou diretamente o contingente masculino. Quanto à pirâmide brasileira, as quedas dos níveis de fecundidade e mor­talidade nos últimos 40 anos evidenciam que o país está passando por uma fase de transição, fazendo com que o desenho de sua pirâmide etária apresente mudanças ao longo do tempo, passando de uma estrutu­ra jovem nas décadas de 1960, 1970 e 1980, para uma bem menos jovem projetada para o período 2005-2010.

11. O trabalho e o mercado de trabalho

            Abordaremos nesse tema, os conceitos fundamentais para o entendimento da distribuição da População Economicamente Ativa (PEA) do Brasil segundo os setores de produção (primário, secundário e terciário), ressaltando suas transformações ao longo do processo de urbanização do país.
Quais os papéis desempenhados pelas mulheres na sociedade brasileira? Vocês consideram que, as mulheres donas de casa, não trabalham? É cada vez maior o número de brasileiras que também trabalha fora de casa, aumen­tando o orçamento familiar ou sendo elas mesmas chefes de suas famílias. Muitas mulheres enfrentam duas jor­nadas de trabalho, uma fora de casa, e ou­tra quando retornam ao lar e se dedicam aos afazeres domésticos. De acordo com o IBGE, ao longo da últi­ma década observa-se a manutenção da ten­dência de aumento na proporção de famílias chefiadas por mulheres, que passou de 24,9% (1997) a 33,0% (2007), o que representa, de acordo com os dados da Pesquisa nacional por amostra de domicílios - Pnad 2007, 19,5 mi­lhões de famílias que identificam uma mulher como sua principal responsável.
Os gráficos “Brasil: contribuição do rendimento das mulheres na renda das famílias” e “Brasil: número de famílias formadas por casas com filhos chefiadas por mulheres” na página 23 do caderno do aluno revelam o aumento de domicílios chefiados por mulheres, o que as torna protagonistas nos últimos anos de uma grande mudança em curso no mercado de trabalho brasileiro. Veja alguns dados adicionais do IBGE, extraídos da Pnad 2007:
- a proporção de arranjos do tipo casal com e sem filhos chefiados por mulher passou de 4,2 % em 1992 para 23,5% em 2007;
- aumentou muito a contribuição das mu­lheres na renda das famílias brasileiras: de 1992 para 2007 passou de 30,1% para 39,8%;
- ocorreu um aumento expressivo da pro­porção de mulheres cônjuges que contri­buem para a renda das suas famílias: de 32,5% para 65,7% no mesmo período;
- e, para finalizar, se em 1993 a mulher era a principal provedora em 22,3% dos domicí­lios brasileiros, em 2007 a proporção com­parável foi de 33%.
            População Economicamente Ativa (PEA) é o estudo setorial da economia, uma categoria fundamental para a análise econômica ou para investigação das estru­turas econômicas de um país. Denomina o conjunto da população em idade pro­dutiva (10 a 65 anos) e que trabalha em atividades remuneradas, tanto as pessoas ocupadas (com trabalho) como as deso­cupadas (sem trabalho, mas que tomam alguma providência efetiva no sentido de procurar trabalho).
População não economicamente ativa designa o conjunto das pessoas que não trabalham fora do lar, como crianças, estudantes, donas de casa, aposentados, pessoas impossibilitadas de trabalhar por motivo de doença etc., in­cluindo as que não estão empenhadas na busca de emprego.
Os setores econômicos ou setores de produção são divididos em três setores:
- setor primário: inclui a agricultura, a pecuária, a caça, a pesca e as explorações florestais;
- setor secundário: abrange a atividade industrial, incluindo as indústrias de transformação de bens de consumo e de produção e a de construção civil, e a extração mineral;
- setor terciário: agrupa as atividades relacionadas à presta­ção de serviços (bancos, transporte, saúde, educação, profissões liberais, funcionalis­mo público etc.) e ao comércio.
A importância de estudar a distribuição da PEA de um país, segundo suas atividades econômicas ou setores de produção, entre outras razões, possibilita fornecer elementos ou um quadro de referên­cia para a avaliação da economia do país e de suas tendências, além de proporcionar uma visão sobre suas transformações no decorrer do tempo, o que é relevante para efeito de planejamento econômico e social.
Observe o gráfico “Brasil: distribuição da PEA por setores de produção” na página 24 do caderno do aluno:
- o declínio da PEA no setor primário: de 70,2% em 1940 (quando o Brasil era um país predominantemente rural) para 20,6% em 2005. Entre outros fatores explicativos desse declínio e do aumento da população economicamente ativa nos setores secundário e terciário estão a industrialização, a urbanização, a permanência de uma estrutura fundiária concentrada, o difícil acesso à terra, a mecanização e a modernização da agricultura, entre outros. A diminuição relativa da força de trabalho empregada na agropecuária processou-se vigorosamente, acelerando-se nas décadas de 1960 e 1970. Tal processo liberou trabalhadores para a economia urbana, fornecendo mão de obra barata em grande escala,  porém pouco quali­ficada, para construção civil, indústria, comércio e serviços. Em uma visão mais ampla desse processo, o modelo econômico do país estava apoiado no rebaixamento dos salários e na maximização dos lucros, respaldado pela massa de migrantes rurais gerada no setor primário;
- a partir de 1980 verificou-se uma queda do percentual de pessoas empregadas no setor secundário de produção, por racio­nalização do trabalho (incluída a auto­mação industrial), levando à dispensa de mão de obra. Se no período de maior crescimento industrial do final da década de 1970 até 1980, as atividades manufatureiras e da construção civil absorviam de forma mais significativa a mão de obra liberada pelas atividades rurais (como apontado anteriormente), em toda a dé­cada de 1980 o aumento de trabalhadores no setor de serviços esteve consideravelmente acima do verificado no setor manufatureiro. Em outras palavras, a partir do período indicado, a produção de ri­quezas pela economia industrial cresceu em ritmo mais acelerado do que a gera­ção de empregos, o que determinou um crescimento restringido da mão de obra ligada às indústrias. Esse cenário não foi revertido na década de 1990 e nos anos 2000, período no qual a modernização do parque industrial, associada ao impacto da globalização sobre a economia nacional, condicionou uma significativa redução da população empregada no se­tor secundário. A globaliza­ção e a abertura do mercado nacional às exportações estrangeiras provocaram o aumento da concorrência interna, com a presença de produtos mais baratos e/ou de melhor qualidade. Alguns setores indus­triais foram obrigados a se modernizar enquanto outros sucumbiram à concor­rência, provocando a diminuição dos postos de trabalho e a migração de tra­balhadores para o setor terciário;
- em relação ao setor terciário, percebam que, em 1990, ele já absorvia mais da metade da mão de obra brasileira: de um lado, o aumento de pessoal em ocupações mais modernas, como as derivadas da introdução de novas tecnologias, responsáveis pelo surgimento de novas profissões e de novas formas de gerenciamento e administração como setores de franchising, turismo, call centers etc.; por outro lado, houve também um crescimento em serviços me­nos especializados em relação à exigência de conhecimentos tecnológicos e com menor relação capital/trabalho. Para alguns econo­mistas, as mudanças ocorridas após a intro­dução de meios informacionais na produção e de novas formas de administração causaram uma subdivisão no interior do próprio terciário, fazendo surgir um terciário su­perior e outro, inferior. Os serviços e o comércio do terciário superior represen­tam a absorção da mão de obra em setores ligados às novas tecnologias e formas modernas de administração do comércio e dos serviços, como setor de franchising; telefonia celular; serviços de suporte à in­formática; call centers; serviços de entre­ga em domicílio, serviços especializados, turismo etc.
            A reestruturação industrial causou demis­sões significativas em setores industriais tradicionais, o que fez crescer a economia informal de baixa renda em atividades representadas pelo comércio ambulante; vigilância; serviços de jardinagem; "flanelinhas"; valetes (estacionamentos em eventos) etc. Em função dessas alterações no perfil do setor terciário, ele absorveu trabalhadores a taxas anuais superiores às observadas nos demais setores, o que significa que os postos de trabalho gerados se revestiram de baixa remuneração e qualidade.
A transferência da PEA da indústria para o setor terciário consiste em um fenômeno mais evidente nas metrópoles, onde se concentravam as aglomerações industriais tradicionais. De modo geral, vem ocorrendo um inten­so processo de terciarização das atividades no  mundo  "subdesenvolvido",  inclusive nas metrópoles e cidades médias brasilei­ras. Esse fato deve ser entendido não como resultado da industrialização, e sim de pro­blemas existentes em suas economias. Não havendo empregos suficientes, ocorre uma hipertrofia do setor terciário, ou seja, o se­tor cresce desmedidamente, gerando uma economia informal no terciário inferior, re­presentado por atividades de baixa remuneração, tais como vendedor ambulante, camelô, guardador de carro, vendedor nos semáforos etc. Esses são exemplos típicos da situação de desemprego e subemprego.

12. A segregação socioespacial e a exclusão social

Este último tema do 3º. bimestre enfatiza as condições precárias de moradia (favelas, cortiços e loteamentos irregulares) e as transformações expressivas na organização do espaço urbano ocasionadas pela proliferação dos condomínios fechados e de moradias de alto luxo em determinadas áreas habitadas por pessoas com alto poder aquisitivo, principalmente nas cidades médias e grandes brasileiras.
A defi­nição e a medição da pobreza e da exclu­são social são difíceis de quantificar. Isso porque elas são situações que apresentam múltiplas dimensões e variações de acordo com a metodologia dos diferentes estudos, como também segundo as condições da economia, de fatores culturais e das diversidades regionais. Na prá­tica, a pobreza é associada à insuficiência de renda. Ou seja, quando a soma dos rendimen­tos de um indivíduo ou família não permite a satisfação de suas necessidades básicas (ali­mentação, transporte, moradia, saúde e edu­cação), costuma-se utilizar o termo pobre.
Quanto à exclusão social, além da renda, em­prega-se a expressão de maneira mais ampla ou multidimensional, pois também abrange restrições à mobilidade social (intra e intergerações) resultantes de condições como gênero, tipo de ocupação, condição socioeconômica, além de fatores culturais, institucionais e políticos. De maneira complementar, vale chamar a atenção para o fato de que a exclusão social também pode ser vista sob outro enfoque, como um conceito associado à ideia de "vulnerabilida­de social", referindo-se, nesse caso, à marginalização de determinados segmentos sociais (em geral, pobres com baixa escolaridade, negros e mulheres) em relação aos benefícios gerados pelo desenvolvimento. Em qualquer dos casos, o fato é que a exclusão social está intrinsecamente associada à noção de mobilidade social.
O “Diagrama de construção do índice de exclusão social”, na página 29 do caderno do aluno, sintetiza parte da metodologia de estudo que possibilitou a elaboração dos dois mapas “Brasil: índice de pobreza” e “Brasil: índice de exclusão social” nas páginas 27 e 28, como também de outros presentes na publicação do Atlas da exclusão social no Brasil (2003).
Os indicadores sociais são as estatísticas da rea­lidade social do país, em saúde e saneamen­to básico, educação, trabalho e rendimento, domicílios, famílias, grupos populacionais e trabalho de crianças e adolescentes, entre outros aspectos. São utilizados para orientar políticas públicas e avaliar sua eficácia no tempo e o principal órgão de apuração de indicadores sociais no país é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), embora outros também sejam obtidos pelos ministérios e instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais.
A charge de Angeli (página 30 do caderno do aluno) ilustra uma situação diária: a situação de favelas, cortiços e loteamentos irregulares em contraste com o crescimento dos condomínios "fechados" ou exclusivos nas cidades médias e grandes brasileiras e o isolamento das popula­ções de alta renda. Moradias irre­gulares, o papel dos movimentos sociais e de associações de moradores na luta por maiores investimentos públicos em infraestrutura ur­bana, condomínios fechados, tanto verticais como horizontais, a questão da expansão/retração do chamado "direito à ci­dade" possibilitam discutir se esse mode­lo colabora ou não para a construção de uma sociabilidade urbana mais democrática.
Teresa Pires do Rio Caldeira, autora de vários trabalhos, um dos mais interessantes é o “Cidades de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo”, apresenta uma definição interessante a respeito dos condomínios “fechados”, designando-os como “enclaves fortificados”, ou seja, espaços privatizados, fechados e monitorados para residência, consumo, lazer ou trabalho. Nas últimas décadas, a proliferação dos “enclaves fortificados” vem criando um novo modelo de segregação espacial e transformando a qualidade da vida pública não somente no Brasil como também em muitas cidades ao redor do mundo. Esses locais reproduzem uma cultura segregacionista e excludente das elites econômicas em relação a outros grupos sociais menos abastados (principalmente motivada pelos altos índi­ces de violência urbana). As consequências desse processo para a cidade e para o território urbano é a fragmentação, reproduzin­do no plano espacial a desigualdade social existente. Ainda de acordo com Teresa Pires do Rio Caldeira, no início do século XX, na cidade de São Paulo, os diferentes grupos sociais vi­viam bem próximos uns dos outros, embora em arranjos residenciais radicalmente distin­tos: os ricos, em casas espaçosas, os pobres, amontoados nos cortiços.
No pe­ríodo que se estende da década de 1940 à de 1980, a cidade passou a ser organizada pela divisão entre centro e periferia: os ricos habitavam os bairros centrais (dotados com infraestrutura necessária), e os pobres ha­bitavam as áreas periféricas (extremamente carentes de infraestrutura e equipamentos urbanos coletivos). Nos últimos anos, o padrão de organização espacial foi novamente modificado. Em um processo que ganhou corpo na década de 1980 e se intensificou na de 1990, as distâncias físicas entre ricos e pobres diminuíram, apesar de terem se tornado mais visíveis e comple­xos os mecanismos de separação entre eles. Hoje, existem dificuldades para continuar­mos adotando o modelo centro/periferia, pois não é incomum verificarmos casos em que as classes mais abastadas passaram a morar nas periferias das cidades, em condo­mínios horizontais dotados de áreas verdes e fortes esquemas de segurança interna, como meio de se afastar do centro da cidade e de todos os "inconvenientes" que a vida em so­ciedade traz para o cotidiano. Esses aspectos contraditórios acarretam na questão do direito à cidade.

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