quinta-feira, 14 de abril de 2011

Textos para 2a. série / Ensino Médio - 2o. bimestre

 5. Os circuitos da produção - Parte 1: O espaço industrial (uso do som)
Profa. Celina — Geografia — 2ª. Série — EM
           
Nesse tema, enfatizaremos o processo de industrialização brasileiro, que permite compreender a consolidação de um pólo industrial no Sudeste e de periferias industriais nas demais regiões do país. O objetivo é elucidar conceitos e conteúdos fundamentais para o entendimento do espaço industrial brasileiro, aliado ao trabalho conceitual, à perspectiva histórica e à abordagem sobre a atual distribuição espacial da atividade industrial no território nacional e, em particular, no Estado de São Paulo.
Vamos analisar dois registros culturais, onde é abordado o espaço industrial brasileiro.
O primeiro é a canção Três apitos, de Noel Rosa, na página 3 do caderno do aluno.
Noel de Medeiros Rosa foi um compositor carioca, nascido no bairro de Vila Isabel em 1910, no Rio de Janeiro, e que se tornou conhecido, anos mais tarde, como o “Poeta da Vila”. Ao longo de sua curta e densa carreira, Noel produziu aproximadamente trezentas músicas, sozinho e com parceiros, sendo a maioria das letras de sua autoria, e compôs alguns “clássicos”, edificando uma obra que contribuiu para a formação da história da música popular brasileira. A obra do compositor é centrada em um microcosmo social caracterizado pelo samba, Vila Isabel e a sociedade carioca da década de 1930. Este universo está bem presente na canção Três apitos de 1933, cujo título indica o espaço social em que se desenvolve a história narrada pelo autor: a emergente sociedade industrial brasileira, que originava duas classes sociais nascentes, a burguesia industrial e o proletariado tipicamente urbano, que começou a surgir com o enfraquecimento das oligarquias agrícolas.
O segundo registro cultural é a tela Operários, na página 4 do caderno do aluno, da pintora Tarsila do Amaral (1886-1973), realizada no mesmo ano em que Noel Rosa compôs Três apitos. Tarsila foi a “primeira dama do modernismo brasileiro”, uma das responsáveis pela arte genuinamente nacional. Essa obra pode ser vista como emblemática da fase social da pintora e retrata o início da industrialização brasileira, conferindo destaque para as pessoas que vieram de diversas partes do país e do mundo (imigrantes de diversas nacionalidades) para trabalhar nas fábricas da região sudeste. O contraste entre as linhas sinuosas dos rostos, arredondadas e ovais na representação das figuras humanas e as formas retas e cilíndricas da fábrica (o prédio e as chaminés), chapadas e de cores frias (o azul do céu e o cinza das chaminés) projetam os operários para o primeiro plano, como se a figura se deslocasse do fundo (mostrando a dureza do trabalho).
Para melhor entender o desenvolvimento industrial no Brasil e suas fases, adotamos a noção de industrialização retardatária ou tardia.
A expressão industrialização retardatária ou tardia designa o fato de que a industrialização brasileira somente foi iniciada no fim do século XIX, no momento em que o capitalismo passava da fase competitiva para a monopolista. As máquinas e a tecnologia utilizadas não foram produzidas no Brasil, mas importadas dos países que já as desenvolviam havia mais de um século, provindas principalmente da Inglaterra (onde ocorreu a Revolução Industrial). Isso gerou conseqüências ao longo das demais fases de industrialização do Brasil, como por exemplo, a difícil inserção do Brasil na Terceira Revolução Industrial ou Tecnológica, desde as últimas décadas e ainda atualmente.
A Primeira Revolução Industrial no Brasil somente foi completada em 1930, tendo ocorrido com mais de cem anos de atraso em relação aos centros mundiais do capitalismo. Entre outros fatores que contribuíram para que o Brasil se mantivesse em um quadro de fraco desempenho industrial, até o início do século XIX, foram as relações escravistas de trabalho, o pequeno mercado interno, o Estado alheio à industrialização, as forças produtivas pouco desenvolvidas, o passado colonial do Brasil, conforme o tema estudado anteriormente “Gênese geoeconômica do território brasileiro”. Entre 1880 e 1930, foram implantados os principais setores da indústria de bens de consumo não-duráveis ou indústria leve. Em função de se manter numa situação de dependência em relação aos países mais industrializados, o Brasil não dispunha de indústrias de bens de capital ou de produção, algo essencial para o desenvolvimento econômico de uma nação ou país.
Antes de prosseguir, vamos esclarecer os tipos de indústrias:
- Indústria de bens de consumo ou leve:
a) Indústria de bens de consumo não-duráveis: roupas, cosméticos, alimentos;
b) Indústria de bens de consumo duráveis: automóveis, eletrodomésticos e móveis.
- Indústria de bens intermediários ou de bens de capital: desenvolvimento de máquinas e equipamentos para outras indústrias (autopeças, mecânica naval).
- Indústria de bens de produção, de base ou pesada: transforma matéria-prima bruta em produtos a serem utilizados por outras indústrias (extração de minérios, refinaria de combustíveis fósseis, siderúrgica que processa minérios, química).
A inserção do Brasil na Segunda Revolução Industrial também se deu com cerca de cem anos de atraso em relação aos centros mundiais do capitalismo, podendo ser dividida em dois períodos:
- de 1930 a 1955, que corresponde à política nacional desenvolvimentista do governo Getúlio Vargas, responsável pelo início da implantação da indústria de base no Brasil e;
- de 1956 a 1980, que, inicialmente alicerçado no plano de metas que propunha “crescer 50 anos em 5”, marco da política desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek de Oliveira, corresponde ao período de incremento e consolidação da indústria de base, com fortes investimentos estatais nos setores de energia e transportes, com vistas a fortalecer as condições estruturais para o ingresso do capital internacional no Brasil.
No primeiro período (1930-1955), destacamos a política nacionalista da Era Vargas (1930-1945) e de seu segundo governo (1952-1955), que se caracterizou pelo desenvolvimento autônomo com base industrial. Um exemplo foi a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda (RJ), cujo decreto-lei, que determinou sua criação, foi assinado em 30 de janeiro de 1941. A CSN foi um marco importante para a industrialização do Brasil, um impulso, em virtude da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), pois o aço é matéria-prima fundamental para diversos setores industriais. Resultado de um projeto autônomo de desenvolvimento industrial na década de 1940, a CSN foi privatizada em 1993, deixando de ser uma empresa estatal (do Estado).
O segundo período (1956-1980) pode ser subdividido em três:
a) de 1956 a 1961, que corresponde ao mandato de Juscelino Kubitschek, no qual ocorreu o incremento da indústria de bens de consumo duráveis (principalmente automóveis e eletrodomésticos) e de setores básicos (energia elétrica e siderurgia). As diretrizes gerais quanto à industrialização dos governos Vargas e Kubitschek basearam-se no processo de substituição de importações. Contudo, no segundo caso (Era Kubitschek), foi adotado um modelo de desenvolvimento associado ao capital estrangeiro. A política industrial do período JK ratificou (confirmou) a concentração industrial brasileira no Sudeste. O modelo industrial característico deste período atrelava-se diretamente à necessidade de manter a produção de bens duráveis nas proximidades dos pólos geradores de matéria-prima, ou seja, da produção siderúrgica e da disponibilidade de recursos energéticos. Além disso, nesta região também se concentrava a maior parte do mercado consumidor. Esta industrialização foi parte do Plano de Metas, com o lema: “crescer 50 anos em 5”. Vamos ler sobre na página 8 do caderno do aluno.
- de 1962 a 1964, corresponde a um período de instabilidade e tensão política (Ditadura). Por este motivo, foi acompanhado pela estagnação e declínio da economia e da indústria no Brasil;
- de 1964 até meados de 1980, implantou-se a modernização conservadora (projetos de crescimento econômico, principalmente durante os governos militares, sem a inclusão de avanços na área social), aconteceu o “milagre econômico brasileiro” (para designar o fato de que, no contexto dos governos militares e do projeto “Brasil-Potência”, entre 1967 e 1974, o País cresceu mais de 10% ao ano em média à custa de um endividamento crescente no exterior), e a “década perdida” (1980), na qual o país esteve submetido a fortes constrangimentos econômicos, financeiros e, sobretudo, sociais.
Referente à distribuição espacial da atividade industrial no Brasil, a concentração industrial aconteceu na região Sudeste, particularmente no Estado de São Paulo, desde meados do século XIX até a década de 1970, como aparece no mapa “Brasil: distribuição espacial da indústria, 2002”, na página 10 do caderno do aluno. O desenvolvimento urbano intenso, concentrado principalmente na região que forma hoje a Grande São Paulo, foi resultado do processo de industrialização que ocorreu na região, resultado de uma economia de escala capitalista, típica do período fordista: a concentração diminuía os custos de produção, pois a proximidade física reduzia os gastos com o transporte de matéria e mão-de-obra, além de maximizar o uso da infraestrutura instalada. O fordismo organizava a linha de montagem de cada fábrica para produzir mais, controlando melhor as fontes de matérias-primas e de energia, os transportes, a formação da mão-de-obra.
Há diferença entre descentralização e desconcentração industrial: a primeira pode ser entendida como a mudança física (parcial ou total) de uma unidade industrial ou da produção industrial de uma área territorial para outra, como, por exemplo, do Estado de São Paulo para outros Estados brasileiros ou da Região Metropolitana de São Paulo para o interior paulista; já a expressão desconcentração industrial costuma ser empregada para designar alterações na distribuição espacial absoluta ou relativa de variáveis como número de estabelecimentos, pessoal ocupado, valor da produção e valor da transformação industrial. Assim, desde a década de 1910 verificou-se uma alteração no processo de desenvolvimento do Estado de São Paulo, com a diminuição da concentração industrial e populacional, que vinha ocorrendo desde o começo do século na Região Metropolitana de São Paulo. Para fundamentar essa explicação, tal processo resultou de três fatores:
a) o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND, 1975-1979), que instituiu uma política econômica bastante clara de descentralização industrial de São Paulo para o resto do País, enfatizando vantagens comparativas e especializações regionais. Como exemplos, podemos citar a exploração de minérios em Carajás (PA), Trombetas (PA), Caraíba (BA), Patos (MG), as siderúrgicas de ltaqui (MA), Tubarão (ES) e Açominas (MG), as petroquímicas de Camaçari (BA) e Paulínea (SP), a fábrica de automóveis da Fiat em Betim (MG), os incentivos à CSN e Vale do Rio Doce (RJ);
b) a deseconomia de escala, isto é, a perda das vantagens comparativas da produção em função dos altos custos produtivos, resultado de uma organização sindical forte, salários elevados, valores de terrenos e impostos elevados. Assim, a guerra fiscal, ou mesmo a isenção de impostos, estimula a deseconomia, ou seja, várias cidades oferecem vantagens para a indústria — menor imposto, grandes terrenos, infraestrutura, mão-de-obra barata, por exemplo — e a que oferecer melhores benefícios, acaba atraindo a indústria. E a cidade acaba ganhando chances de alavancar seu desenvolvimento;
c) a expansão da infraestrutura no Estado facilitou a dispersão das atividades produtivas para regiões próximas à metrópole do Estado de São Paulo.

6. Os circuitos da produção – Parte 2: O espaço agropecuário
(agro = agricultura / pecuário = criação de gado)

Vamos trabalhar conteúdos fundamentais sobre o espaço agropecuário brasileiro, partindo de conceitos essenciais acerca da modernização da agricultura brasileira e questões noticiadas pela mídia. Os objetivos são adquirir noções básicas, a organização e as contradições da produção e as relações de trabalho ao lado de circuitos de produção modernos, o campo brasileiro que convive com a expropriação de trabalhadores de suas terras e a injusta estrutura fundiária brasileira.
Nos exercícios, serão trabalhados diversos temas, como: a fome e a insegurança alimentar no Brasil, os impactos socioambientais decorrentes da agropecuária voltada para a exportação, raízes históricas da concentração de terras no Brasil, a luta camponesa pela terra, a expansão da produção da soja na Amazônia, o boom da cultura da cana-de-açúcar diante do interesse mundial pelo etanol, os transgênicos, entre outros.
Observe a manchete de jornal na página 16, a fotografia e a tabela “Estrutura fundiária do Brasil” na página 17 do caderno do aluno. Como se explica o enorme montante de exportações do agronegócio ao lado da existência de pessoas sem terra para trabalhar? Essa é uma das contradições da realidade agrária do Brasil, expondo a injusta estrutura fundiária brasileira: um moderno e conservador circuito de produção ao lado da expropriação de trabalhadores de suas terras no campo brasileiro.
Alguns conceitos básicos permitem desenvolver o tema da organização da produção na agricul­tura brasileira e as relações de trabalho:
- latifúndio: grandes pro­priedades dedicadas a uma produção vol­tada para o mercado interno ou externo, nas quais a produção é realizada por uma força de trabalho que pode ser classificada em cinco tipos (o morador ou agregado, o parceiro, o trabalhador assalariado, o dia­rista ou bóia-fria e o arrendatário);
- unidade familiar produtora de mercadorias: utilização da terra rea­lizada por pequenos proprietários e arren­datários (como, por exemplo, a produção hortifrutigranjeira nos arredores de grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, para negócios e não para próprio sustento);
- unidade familiar de subsistência: exploração da terra realizada por pequenos proprietários (minifundiá­rios ou não), arrendatários, parceiros ou, ainda, posseiros. O trabalho empregado é familiar e a produção visa, principalmente, a atender às necessidades de subsistência do grupo, embora nessas unidades, quando maiores em extensão, encontra-se a associação de culturas de mercado com as de subsistência;
- empresa agropecuária capitalista: marca­da pelas relações assalariadas de trabalho ou de produção;
- complexo agroindustrial: integração técnica intersetorial entre a agropecuária e as indústrias que produzem para a agricultura (máqui­nas e insumos);
- agroindústrias: processam matérias-primas agropecuárias e as transformam em produtos industria­lizados (queijo, manteiga, óleos vegetais, extratos de tomate, suco de laranja, álcool etílico, açúcar etc.).
- agribusiness: negócio agropecuário que corresponde à soma total de operações de produção e distri­buição de suprimentos (insumos), opera­ções de produção nas unidades rurais e armazenamento, processamento e distri­buição dos produtos e itens produzidos por ele.
            Insumos são elementos que entram no processo de produção de mercadorias ou serviços (máquinas e equipamentos, trabalho humano), são recursos usados na produção de algo.
O quadro abaixo explica a modernização da agricultura brasileira e a intensificação do desenvolvimento do capitalismo no cam­po, ocorrida a partir das décadas de 1950 e 1960, que aprofundou esse tipo básico de orga­nização da produção e, caracterizando, ao mesmo tempo, sua modernização.

Anos 1950
Aumento do uso de insumos modernos, basicamente por meio de importações.
Anos 1955-65
Implantação de indústrias no Brasil, inclusive de indústrias de base.
A industrialização da agricultura
Permitiu a implantação de indústrias para a agricultura e o surgimento da agropecuária moderna e de agroindústrias oligopólicas (grandes empresas, em pequeno número, que controlam a oferta – preço – dos produtos).
Anos 1965-75
Internalização (introdução) de indústrias para a agropecuária (máquinas, equipamentos etc.).
Anos 1975-2000
Integração de capitais (fusão de capitais industriais, bancários, comerciais e agropecuários, na formação de empresas rurais).
Imprimiu novo padrão agrícola representado por mudanças nas bases técnicas de produção agropecuária, comandado, agora, pelos complexos agroindustriais.


O “Pólo Juazeiro-Petrolina: localização no semiárido nordestino e principais mercados”, na página 19 do caderno do aluno, é um complexo agroindustrial situa­do no semi-árido nordestino, no submédio rio São Francisco e tem apresentado acelerado crescimento da produção agrí­cola irrigada. Alguns motivos para esse acelerado crescimento são:
a)  A possibilidade de colocação de frutas no hemisfério norte, durante o período de inverno;
b)  A proximidade aos mercados europeu e norte-americano, com uma vantagem de até seis dias de transporte marítimo, em comparação com cargas saídas de portos da região Sudeste.
A modernização da agricultura brasileira, nas últimas décadas, modificou a organização da produção e as relações de trabalho no cam­po. A fruticultura e a soja, por exemplo, são cultivos que sofreram transformações nesse processo, apesar de conservarem diferenças importantes em seus respectivos sistemas pro­dutivos. A cultura da soja exige, na maioria dos casos, grandes propriedades, imensa mecanização e pouca mão-de-obra.  A fruticultura se desenvolve, geralmente, em propriedades médias e pe­quenas, com o emprego de máquinas mais leves e maior número de trabalhadores ou mão-de-obra.  Os estabelecimentos rurais, onde ocorre a produção da soja, requerem investimentos mais elevados de capital quando comparados às unidades produtivas da fruticultura; em função da relação entre investimento e mão-de-obra ocupada, os empregos diretos gerados pela cultura da soja têm custo mais alto do que na fruticultura e, por último; para ser lucrativa, ao contrário da fruticultura, a soja requer grande escala de produção, o que em parte explica sua expansão por vastos espaços do país.

A estrutura fundiária brasileira e os conflitos e movimentos sociais no campo
Existe uma persistência do padrão concentracionista da propriedade da terra no Brasil e uma má distribuição de terras gerando, como consequência, as lutas no campo e outros movimentos rurais (por exemplo, o MST). Matérias jornalísticas podem apresentar maior ou menor imparcialidade, criticando ou apoiando esses movimentos. Diante de uma situação (normalmente de caráter social), quando assumimos o papel do outro diante de conflitos, podemos optar por um caminho, uma opção diante dos argumentos dos vários atores envolvidos na questão da luta pela terra, o que exige envolvimento, utilização de conhecimentos prévios e criatividade ou posição contrária.

7. Redes e hierarquias urbanas

Ao abordar conceitos fundamentais para o entendimento da urbanização brasileira durante o século XX e as causas históricas que ajudam a explicar a maior concentração populacional e de atividades econômicas no Sudeste (em particular, nas regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro), vamos ampliar e fornecer uma visão de conjunto sobre conteúdos estudados no texto 5 (espaço industrial) e estabelecer conexões com o que já foi desenvolvido no 1º. bimestre sobre a formação do território brasileiro, quando é ressaltada a importância da atividade mineradora para o surgimento de cidades no Brasil, dentro da perspectiva das origens da rede urbana brasileira atual. Enfatizaremos a configuração das atuais rede e hierarquia urbanas brasileiras, esclarecendo conceitos importantes, tais como urbanização, rede e hierarquia urbanas, região metropolitana, espaço polarizado ou polarização, divisão territorial do trabalho, função urbana, metrópoles nacionais e regionais, centros regionais e sub-regionais, entre outros.
O processo de urbanização compõe a chamada rede urbana, um conjunto integrado ou articulado de cidades em que se observa a influência e a liderança das maiores metrópoles sobre as demais categorias de cidades. Essa expressão é mais usada para evocar os fluxos (de bens, de pessoas e, cada vez mais, de informações) que existem entre os pontos do território. A rede urbana nacional compreende o conjunto das cidades do território nacional, que exercem diferentes polarizações sobre os fluxos de bens, pessoas e serviços estabelecidos entre elas e com as respectivas áreas rurais. A rede urbana é formada por centros urbanos de dimensões variadas, cujas relações são dinâmicas entre si e com campos de forças de diferentes magnitudes que interagem no decorrer do tempo. O conhecimento dessas interações permite estabelecer metas de políticas públicas de desenvolvimento, tanto em relação à localização das atividades econômicas de produção quanto para ampliar o reconhecimento das relações sociais e espaciais que delas emergem.
As aglomerações urbanas mantêm e reforçam laços interdependentes tanto entre si como também com as regiões que elas polarizam (concentram, quando atrai a atenção para um determinado ponto) dentro de um dado território: é a polarização.
Uma das características marcantes da estrutura dos sistemas de cidades é a organização hierarquizada dos centros urbanos (a hierarquia urbana), que varia conforme o tamanho, a qualidade funcional e a extensão da zona de influência espacial dessas aglomerações. A hierarquia urbana é estabelecida a partir da capacidade de alguns centros urbanos de liderar e influenciar outros por meio da oferta de bens e serviços à população. Por exemplo, na sala de aula existem alunos cujas famílias ou parentes são procedentes de outras localidades e cidades. Quais os motivos pelos quais moram onde atualmente estão e quais foram os motivos da mudança de residência? As oportunidades de emprego, melhor instrução, melhores condições de vida, etc. Essa é a atração exercida pelas metrópoles globais (São Paulo e Rio de Janeiro), metrópoles nacionais (que influenciam todo o território nacional) e metrópoles regionais (que influenciam certa porção ou região do País) sobre outras categorias de cidades. São Paulo possui o maior conjunto urbano do país, reconhecida pelo IBGE como a Grande Metrópole Nacional, devido sua facilidade de atração.
A região metropolitana é estabelecida por legislação estadual, e corresponde a um conjunto de municípios contíguos e integrados socioeconomicamente a uma cidade central, com serviços públicos e de infraestrutura comuns, ou necessidade de seu estabelecimento, em fun­ção de um sistema de conexão existente entre as unidades que a compõem.
A atual classificação  da hierarquia urbana brasileira, realizada em 2007 pelo IBGE, está representada no mapa “Brasil: rede urbana, 2007” na página 28 e 29 do caderno do aluno. Os conceitos foram apresentados no documento entitulado Regiões de influência das cidades. As cidades foram classificadas em cinco grandes níveis:
1. Metrópoles - são os 12 principais centros ur­banos do País, que se caracterizam por seu grande porte e por fortes relacionamentos entre si, além de, em geral, possuírem extensa área de influência direta. O conjunto foi di­vidido em três subníveis, segundo a extensão territorial e a intensidade destas relações:
a) Grande metrópole nacional - São Paulo, o maior conjunto urbano do País, com 19,5 milhões de habitantes em 2007, e alocado no primeiro nível da gestão territorial;
b) Metrópole nacional - Rio de Janeiro e Brasília, com população de 11,8 milhões e 3,2 milhões em 2007, respectivamente, também estão no primeiro nível da gestão territorial. Juntamente com São Paulo, constituem foco para centros localizados em todo o País; e
c) Metrópole - Manaus, Belém, Fortaleza. Recife, Salvador, Belo Horizonte, Curi­tiba, Goiânia e Porto Alegre, com po­pulação variando de 1,6 (Manaus) a 5,1 milhões (Belo Horizonte), constituem o segundo nível da gestão territorial. Note-se que Manaus e Goiânia, embora estejam no terceiro nível da gestão territorial, têm porte e projeção nacional que lhes garan­tem a inclusão neste conjunto.
2.  Capital regional - integram este nível 70 cen­tros que, como as metrópoles, também se relacionam com o estrato superior da rede urbana. Com capacidade de gestão no nível imediatamente inferior ao das metrópoles, têm área de influência de âmbito regional, sendo referidas como destino, para um conjunto de atividades, por grande número de municípios. Como o anterior, este nível tam­bém tem três subdivisões. O primeiro grupo inclui as capitais estaduais não classificadas no nível metropolitano e Campinas. O segun­do e o terceiro, além da diferenciação de por­te, têm padrão de localização regionalizado, com o segundo mais presente no Centro-Sul, e o terceiro nas demais regiões do País. Os gru­pos das Capitais regionais são os seguintes:
a) Capital regional A - constituído por 11 ci­dades, com medianas de 955 mil habitantes e 487 relacionamentos;
b) Capital regional B - constituído por 20 cida­des, com medianas de 435 mil habitantes e 406 relacionamentos; e
c) Capital regional C - constituído por 39 ci­dades, com medianas de 250 mil habitantes e 162 relacionamentos.
3. Centro sub-regional - integram este nível 164 centros com atividades de gestão menos complexas, dominantemente entre os níveis 4 e 5 da gestão territorial; têm área de atuação mais reduzida, e seus relacionamentos com centros externos à sua própria rede dão-se, em geral, apenas com as três metrópoles nacionais. Com presença mais adensada nas áreas de maior ocupação do Nordeste e do Centro-Sul, e mais esparsa nos espaços menos densamente povoados das regiões Norte e Centro-Oeste, estão também subdivididos em grupos, a saber:
a)  Centro sub-regional A - constituído por 85 cidades, com medianas de 95 mil habitantes e 112 relacionamentos; e
b)  Centro sub-regional B - constituído por 79 cidades, com medianas de 71 mil habitantes e 71 relacionamentos.
4. Centro de zona - nível formado por 556 cida­des de menor porte e com atuação restrita à sua área imediata; exercem funções de gestão elementares. Subdivide-se em:
a) Centro de zona A - 191 cidades, com media­nas de 45 mil habitantes e 49 relacionamen­tos. Predominam os níveis 5 e 6 da gestão territorial (94 e 72 cidades, respectivamente), com nove cidades no quarto nível e 16 não classificadas como centros de gestão; e
b) Centro de zona B - 364 cidades, com medianas de 23 mil habitantes e 16 relacionamentos. A maior parte, 235, não havia sido classificada como centro de gestão territorial, e outras 107 estavam no último nível daquela classificação.
5. Centro local - as demais 4 473 cidades cuja cen-tralidaae e atuação não extrapolam os limites do seu município, servindo apenas aos seus ha­bitantes, têm população dominante inferior a 10 mil habitantes (mediana de 8 133 habitantes).
As cidades brasileiras desempenharam importantes funções no processo de ocupação do território e serviram como sítios de suporte ao povoamento, centros de controle político e de armazenamento da produção agro-extrativa, núcleos de conexão com os circuitos mercantis, pólos de crescimento industrial e nós das redes financeira e informacional.
Desde o século XVI até os dias atuais, podem ser identificadas diversas formações territoriais que expressam as distintas relações entre cidade e campo e mesmo entre as cidades no processo de desenvolvimento brasileiro. Com base no estudo do geógrafo Cláudio A. G. Egler, podemos sintetizar essas formações territoriais, observando os mapas “Brasil: expansão urbana, 1534-1930” e “Brasil: expansão urbana, 1930-1993”, respectivamente nas páginas 33 e 34 do caderno do aluno:
a) formação territorial escravista atlântica: durante a economia colonial, deu-se segundo a lógica do comércio triangular atlântico em uma economia submetida ao monopólio mercantil e controle metropolitano, e, durante o período de formação dos Estados nacionais, funcionou de acordo com estruturas de poder oligárquicas (predomínio de pequeno grupo na direção dos negócios públicos) e latifundiárias. No caso do Brasil, essas duas fases são muito explícitas, correspondendo ao Período Colonial (de 1500-1534 até 1808-1822) e ao Império Nacional (1808-1822 até 1870-1889). No Período Colonial e durante o Império Escravista, as cidades distribuíam-se pela franja costeira com adensamentos nas áreas do Saliente Nordestino (Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe) e os Recôncavos das Baías de Todos os Santos (Bahia) e da Guanabara (Rio de Janeiro)  e em estuários e baixadas costeiras (Baixada Santista). A mineração de metais e pedras preciosas foi responsável pela interiorização do fato urbano nas Minas Gerais e Goiás. A extração das drogas do sertão (especiarias extraídas do sertão do Brasil como cravo, canela, pimenta, urucum, castanha e baunilha) promoveu esporádico assentamento urbano na Bacia Amazônica e no Golfão Maranhense. O Vale do Paraíba Fluminense foi responsável pela principal atividade econômica dessa fase - a plantation escravista de  café. A geopolítica imperial foi a responsável pelos avanços na fronteira meridional e na Bacia do Prata, levando o assentamento urbano para o interior da antiga província de Mato Grosso, ao longo da bacia do rio Paraguai. O avanço do complexo cafeeiro paulista, considerado o principal motor do processo de interiorização do crescimento urbano, avançou pelo Planalto Paulista ao longo do traçado das ferrovias que abriam terras e escoavam o café para o porto de Santos;
b) formação territorial agromercantil nacional (1870-1889 e 1930-1945): ler na página 32, item 2;
c) formação territorial urbano-industrial nacional (sua consolidação ocorreu a partir da década de 1930): ler na página 32, item 3
            Observem as “Relações entre as cidades em uma rede urbana”, na página 35 do caderno do aluno. Compararem as concepções clássica e moderna de rede urbana acerca das transformações nas relações entre as cidades contemporâneas diante do avanço tecnológico e da globalização da economia. O esquema clássico estabelece uma hierarquia de relações entre as diferentes cidades, onde as cidades estabelecem suas interações com as cidades imediatamente inferiores ou superiores. Desse modo, a cidade local exerce influências e é influenciada pela vila e pelo centro regional. A vila, porém, não tem interações diretas com o centro regional, devendo "passar" primeiramente pela cidade local. O nível mais elevado nessa hierarquia de rede urbana é a metrópole nacional. No esquema atual, as relações concretas entre as cidades contemporâneas não seguem a hierarquia do modelo clássico de rede urbana. Em função do desenvolvimento tecnológico, da evolução no sistema de transportes e de comunicação, as interações entre as cidades têm sido alteradas, permitindo a quebra na hierarquia urbana e mudanças expressivas nas formas das cidades se relacionarem entre si. Esse processo viabiliza uma maior flexibilidade nas relações entre cidades por intermédio da disseminação (descentralização maior) dos fluxos e das relações entre as cidades de diferentes dimensões.

8. A revolução da informação e as cidades

Vamos continuar falando sobre as mudanças nas cidades em decorrência dos avanços tecnológicos e globalização da economia, mas voltando a atenção para o espaço intraurbano.
A hierarquia urbana brasileira vem sendo reor­ganizada num contexto econômico internacional que transforma a natureza das relações entre as cidades e suas áreas de influência. Com a revolução da informação, as cidades e a área de influência das metrópoles va­riam, tradicionalmente, em função da qua­lidade dos seus instrumentos de dominação políticos, econômicos, financeiros e culturais. Há mais ou menos 20 anos, as cidades brasi­leiras também se inseriram na rede mundial de telecomunicações, o que possibilitou integração à rede de especulação (negócio em que uma das partes abusa da honradez da outra, para obter vantagens e/ou lucros monetária e financeira), outro fator importante para a questão da centralidade.
Veja o mapa “Cidades globais”, na página 41 do caderno do aluno: o Rio de Janeiro não consta na relação de cidades globais, como consta no mapa “Brasil: rede urbana, 2007”, nas páginas 28 e 29, porque não responde critérios utilizados pelos geógrafos in­gleses, enquanto o IBGE e outros especialistas brasileiros a incluem na lista de cidades de alcance mundial. A inclusão de cidades brasileiras como cidades globais, assim como a teoria de cidade-global, retomada em 1991 pela socióloga holandesa Saskia Sassen, em seu livro A cidade global, e corroborada (confirmada) por acadêmicos europeus e norte-americanos, é profundamente controversa e tem sido criticada por inúmeros especialistas brasileiros em urbanismo, notadamente a socióloga Ermínia Maricato e o urbanista João Sette Whitaker Ferreira. Para eles, o conceito de cidade global, apresenta distorções e tem como propósito reforçar o caráter de dominação que parte do centro para a periferia, como apontado no texto de Mônica Carvalho, na página 42 do caderno do aluno.
Neste sentido, os críticos afirmam que a classificação de globais para cidades como São Paulo, Cidade do México, Buenos Aires, Bangcoc e Taipe serve apenas para ratificar (confirmar) o controle exercido pela globalização econômica que se fundamenta na desregulamentação dos mercados financeiros, fazendo surgir uma nova matriz urbana que inclui também cidades de países pobres denominadas na atualidade como “em desenvolvimento”.
A revolução da informação vem acarretando mudanças na vida e organização das cidades, expostas à interação simultânea via rede de informá­tica (internet, por exemplo). A intensificação desse processo tem provo­cado um "esvaziamento do espaço urbano" e um "investimento no tempo" das pessoas que alteram as relações sociais, suas postu­ras frente aos espaços de confraternização públicos e uma "desterritorialização da sociabilidade", além, é claro, da desmaterialização de processos capitalistas de produção, circulação e consumo.

Desigualdades socioespaciais e problemas urbanos – a segregação socioespacial
As contradições sociais são mais visí­veis no espaço urbano.
A cidade formal, na maior parte das vezes, é bem planejada e dotada de equipamentos e ser­viços; a cidade informal é composta pela "periferia" pobre (bairros industriais, subúrbios, favelas), desprovida de ruas lar­gas e planejamento, marcada muitas vezes pela ocupação desordenada.
O crescimento dos condomínios fechados nas cidades grandes e médias brasileiras vai ao sentido contrário ao crescimento concomitante (ao mesmo tempo) da cidade informal. Há uma internalização da vida urbana: damos prioridade, em nossa sociedade, aos espaços de consumo (por exemplo, shopping centers) em detri­mento (prejuízo) dos espaços públicos de confraterni­zação (como, por exemplo, praças).
Quando as classes sociais de maior renda têm a possibilidade de escolher os melhores lugares (bairros e condomínios fechados) para se estabelece­rem ou morarem, chamamos de auto-segregação; agora, quando deriva do próprio sistema capitalista, que impõe valores de uso diferentes para as diversas parcelas do espaço urbano, o que, para o cidadão de baixa renda, não deixa opção para que te­nha acesso aos lotes urbanos mais valoriza­dos e dotados de infraestruturas, chamamos de segregação imposta.

Um comentário:

  1. eu quero tchu
    eu quro tcha
    eu quero resumo dos textos
    e quero já

    ASS: LUCAS
    WWW.SUPERTONICODOWNLOAD.BLOGSPOT.COM

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