segunda-feira, 18 de abril de 2011

Textos complementares - 3a. série / Ensino Médio - 2o. bimestre


Textos complementares – 2° bimestre
Profa. Celina – Geografia – 3ª. série – EM

As Principais Religiões Mundiais (6. Geografia das religiões)

• O Cristianismo ainda é a religião com mais adeptos no mundo, pois predomina em cinco dos seis continentes. A América Latina reúne a maior porcentagem de fiéis, 92 % da população, mas é na Europa que se concentra a maioria dos cristãos, quase 600 milhões. O cristianismo, na verdade, deriva do judaísmo. As duas religiões, grandes pilares da civilização ocidental, dividiram-se a partir da crença de alguns judeus na profecia que preconizava a vinda do Messias, o filho de Deus, à Terra dos homens. O Messias - para os cristãos, Jesus Cristo - nasceria de uma família comum, morreria pelas mãos dos homens, ressuscitaria e enviaria ao mundo o espírito santificador (Espírito Santo), que aqui permaneceria até o fim dos tempos. Os judeus não reconhecem Jesus Cristo como o Messias. A doutrina cristã seria difundida pelos apóstolos, discípulos e primeiro seguidores de Cristo por meio do Novo Testamento da Bíblia. Logo, a Bíblia dos judeus só possui o Antigo Testamento.
• O islamismo é a principal religião da Ásia e tem expressiva adesão na África. Os dois continentes concentraram mais de 60% de seus seguidores. O número de muçulmanos aumentou 157% nos anos 90; assim, o islamismo se tornou, ao lado do cristianismo, uma religião com mais de 1 bilhão de fiéis – foi fundado pelo profeta Maomé, mercador que viveu na Península Arábica entre os anos 570 e 632. A palavra árabe islã designa aqueles que são seguidores e submissos a Alá (do árabe Allah, Deus Supremo, divindade). Os adeptos do islamismo se auto intitulam muçulmanos. Os preceitos islâmicos estão contidos no livro sagrado, o Corão ou Alcorão (do árabe Alkurãn: a leitura; a leitura por excelência). Vale ressaltar que o islamismo é a religião que mais conquista adeptos em todo o mundo na atualidade.
• O judaísmo é a primeira religião monoteísta da história da humanidade. Fundamenta-se na a revelação dos Dez Mandamentos de Deus a Moisés, no Monte Sinai. Moisés descendia do hebreu Abrãao, patriarca da Mesopotâmia e primeira pessoa a receber uma revelação divina, há cerca de 4.000 anos. Com o passar da história, em 63 a. C., a Judéia é conquistada pelos romanos e torna-se uma província de Roma. Em 70 d. C., mais uma vez o templo judeu é destruído pelos romanos; em 135 d. C., a cidade de Jerusalém é arrasada. A partir de então, inicia-se a dispersão dos judeus por várias partes do mundo, conhecida como a Diáspora. Os judeus dispersos mantêm suas tradições e sua unidade, mas são discriminados (o anti-semitismo) e perseguidos durante toda a Idade Média em vários países da Europa. Essas perseguições constantes ocorrerão até o princípio do século XX e favorecerão a migração em massa de judeus também para regiões da América do Norte, Austrália, Argentina etc. Fortalece-se, a partir do final do século XIX, o movimento sionista, que propunha a criação de um estado hebreu na Palestina. Em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra, é criado o Estado de Israel e termina, então, o período da Diáspora. O Estado judaico acolhe milhões de judeus do mundo todo, parte considerável vinda dos horrores dos campos de concentração, implementados pelos nazistas. Um novo período de conflitos inicia-se, agora entre os judeus e os árabes que habitavam as regiões da Palestina onde se criou Israel. Na atualidade, existem cerca de 13 milhões de judeus no planeta sendo que, aproximadamente, 4,5 milhões vivem no Estado de Israel. A comunidade judaica é bastante significativa em vários países do mundo, em especial no EUA, Canadá, Argentina, Uruguai, África do Sul, França, Reino Unido, Alemanha e em algumas áreas da CEI. No Brasil, os judeus concentram-se, principalmente, na cidade de São Paulo.
• O Protestantismo surge a partir da Reforma, iniciada no século XVI, tendo como principais lideres o alemão Martinho Lutero e o francês João Calvino. As propostas dos reformadores iam desde a abolição da rígida hierarquia da igreja católica à simplificação da liturgia. Freqüentemente alguns autores utilizam a ética da expansão reformista como um dos motivos que levaram ao desenvolvimento do capitalismo, impulsionado neste mesmo período histórico. A opressão, que representava a igreja católica na Idade Média, fez com que a doutrina dos reformistas expandisse para vários países europeus,  principalmente Alemanha, França, Holanda, Suíça, Escócia e os países Escandinavos. Inclusive, em algumas dessas nações, houve sangrentas guerras religiosas entre reformistas e grupos cristãos majoritários. Dentre as várias ramificações reformistas surgiram as igrejas Anglicana, na Inglaterra; Presbiteriana, na Escócia; e, no final do século XVI, as igrejas Batista, Metodista e Adventista.
• O Hinduísmo consiste na fusão cultural e religiosa entre os Hindus – povos que habitavam os vales dos rios Indo e Ganges e formavam uma brilhante civilização, que floresceu por volta de 3 mil anos antes da era Cristã - e tribos de arianos, que se instalaram nesta península a partir de 2500 antes de Cristo. Os arianos possuíam um sistema tradicional e rígido de castas, que eram determinadas a partir do nascimento. O hinduísmo é um conjunto de princípios, doutrinas e práticas religiosas conhecido dos seguidores pelo nome de sânscrito Sanatana Dharma, que significa a ordem permanente. Está fundamentado nos Vedas (conhecimento, em sanscrito), textos sagrados compostos de hinos de louvor e ritos.
• O Budismo é outra religião que possui bastante influência sobre a cultura oriental. Os mais de 300 milhões de budistas do mundo espalham-se, principalmente, pela Índia, Sri Lanka, Myanma, Laos, Tailândia, Camboja, Tibete, China, Mongólia, Coréia e Japão, além de existirem comunidades budistas na maioria dos países ocidentais. A religião foi criada na região da Índia, por volta do século VI antes de Cristo, a partir dos ensinamentos do príncipe Sidarta Gautama, o Buda, nascido numa família nobre do reino dos Sakyas. Segundo os budistas, Buda não representa, necessariamente, uma pessoa, mas um estágio espiritual de profunda sabedoria alcançado pelo Sidarta por meio de inúmeras reencarnações.
No Brasil, cerca de 76% da população brasileira é católica, ou seja, quase 120 milhões de adeptos, o que faz do país a maior nação católica do mundo. A igreja católica, que sempre exerceu uma influência muito grande sobre o povo brasileiro, hoje encontra-se dividida em duas principais correntes; uma que valoriza o caráter puramente religiosos da igreja, os conservadores, e a outra, chamada ala progressista, vinculada à teologia da libertação, que propõe uma participação da igreja nas lutas políticas e sociais. O Brasil possui, ainda, grande número de adeptos do protestantismo, do espiritismo e dos cultos afro-brasileiros, especialmente o candomblé. As igrejas protestantes pentecostais são divididas em mais de 35 denominações em nosso território nacional.

A Geografia e as Áreas de Conflito (7. A questão étnico-cultural)

O Oriente Médio é, hoje, o principal foco de tensões geopolíticas em nível internacional.
A complexidade das disputas regionais decorre de uma multiplicidade de realidades que se superpõem: nacionais, religiosas, estratégicas. Situada na passagem entre três continentes (Europa, África e Ásia) e dotada das maiores reservas de petróleo conhecidas, a região apresenta alto interesse político e econômico para as superpotências. Desse modo, cada um de seus conflitos adquire, automaticamente, dimensões mundiais. A questão árabe-israelense é um dos eixos de tensões regionais, tendo quatro guerras e um acordo diplomático que está longe de representar um fator de estabilidade em médio prazo. A questão palestina é outro eixo de tensões. A implantação do Estado de Israel, em 1948, está na origem do problema palestino. Trata-se de um conflito nacional que opõe uma nação (povo palestino), dispersa por vários países (Israel, Líbano e Jordânia, principalmente), um Estado sem território, um Estado no exílio, à Organização de Libertação da Palestina (OLP).
O terceiro eixo de tensões é a questão libanesa, com uma guerra civil iniciada em 1975 e sem perspectivas de solução. O Líbano apresenta-se dividido por um conflito religioso que opõe a comunidade cristã às comunidades muçulmanas, estas também divididas internamente. Diante desse pequeno histórico, pode-se afirmar que esta questão não é fácil de ser solucionada, pois, só para se ter uma idéia da complexidade do problema, é só imaginar, no caso da criação de um estado Palestino, como ficaria a cidade de Jerusalém, que está dentro do território palestino proposto pela ONU: para esse território seria dada condição de status internacional, porque Jerusalém tem um sentido sagrado para os judeus, muçulmanos e cristãos. Apesar da complexidade e das dimensões, inclusive em termos de violência, da questão árabe-israelense no Machek, esse fato tem origens relativamente recentes. No início, esses povos já viveram harmonicamente na região ao longo de sua história e, na verdade, o conflito apareceu sobretudo a partir do movimento sionista. Entretanto, após várias décadas de conflitos, foram feitas várias tentativas de paz na região por meio de acordos. Os mais importantes foram os denominados Acordos de Oslo, quando, em 1993, a OLP e o primeiro-ministro trabalhista de Israel, Itzhak Rabin, firmam um acordo de paz em Washington, o qual foi batizado de Oslo por ser o resultado de negociações ocorridas na capital da Noruega. Os dois lados se reconhecem e assinam um documento que inclui uma série de princípios, os quais prevêem a devolução aos palestinos da maior parte da faixa de Gaza e de parte da Cisjordânia. A partir de 1994, os palestinos conquistam autonomia plena na maioria da faixa de gaza e em Jericó, assumindo a administração civil e a segurança interna. A defesa e as relações exteriores continuam em poder de Israel. Por outro lado, a evolução nas negociações, entretanto, é dificultada pela ação de grupos terroristas que se opõem aos acordos.
Vários pontos do acordo não são cumpridos e, em 1999, o trabalhista Ehud Barak forma uma coalizão ampla de governo, vence as eleições e retoma as negociações de paz. Por outro lado, é importante ressaltar que o futuro dessas negociações depende de uma série de fatores, dentre os quais a intransigência dos setores radicais de ambos os lados, que são contrários ao avanço no caminho da paz, a questão dos assentamentos de colonos judeus em terras palestinas, além da delicada questão do controle das fontes de água existentes na Cisjordânia. Além desses fatores, existe a complexa situação política entre Síria e Israel pelo controle das Colinas de Golã, que correspondem a uma porção do território sírio, anexado por Israel, sendo um ponto estratégico na geopolítica do Oriente Médio.

A Questão Palestina (7. A questão étnico-cultural)

No início do século XX, cerca de um milhão de árabes habitavam a região da Palestina, que foi colocada sob mandato britânico ao fim da Primeira Guerra. Essas populações já viviam na região desde a Antigüidade e tinham passado um longo tempo sob jugo otomano. O sentimento nacional palestino começou a surgir após a Primeira Guerra, em decorrência da luta simultânea contra os britânicos e contra a imigração judaica.
Em l948-l949, a Guerra de Independência de Israel resultou na partilha dos territórios palestinos entre Israel, Egito e Jordânia, e teve como conseqüência a expulsão da maioria da população palestina. Em Israel, os que ficaram foram transformados em cidadãos de segunda classe, sujeitos a limitações nos direitos civis e submetidos, até 1966, a um regime de governo militar.
Os refugiados palestinos também não foram aceitos como cidadãos nos países árabes vizinhos (Jordânia, Egito, Síria e Líbano), pois os governos desses países recusavam-se a legitimar as fronteiras de Israel e temiam as tensões sociais que poderiam resultar da integração dessas populações. Os palestinos passaram a viver em campos precários nos países árabes, sujeitos a péssimas condições de emprego, de moradia e a todo o tipo de discriminação.
Em 1959, surgia a primeira organização militar palestina, a Al Fatah, liderada por Yasser Arafat, voltada para a criação de um Estado palestino. Em 1964, na Conferência de Cúpula Árabe de Alexandria, os líderes do Egito, da Argélia e da Tunísia patrocinavam o surgimento da Organização de Libertação da Palestina (OLP), que passa a ter a Al Fatah como braço armado. Na Carta de Fundação da OLP, ficava definida a sua posição histórica contra a existência de Israel e pela formação de um Estado palestino laico em toda a região.
A atividade guerrilheira dos federais da OLP esteve entre as causas da Guerra dos Seis Dias em 1967. Em 1970, em conseqüência da derrota na guerra, o rei Hussein ordenou a expulsão dos fedains acampados na Jordânia, o que originou o massacre conhecido como “Setembro Negro”. Grandes contingentes de palestinos refugiaram-se no sul do Líbano, onde seriam  constantemente fustigados por incursões israelenses.
Em 1973, a Conferência de Cúpula Árabe de Argel reconhecia a OLP como única representante legítima do povo palestino. Dois anos depois, a ONU adotava a mesma posição, tornando a OLP membro observador da Assembléia Geral. Ao mesmo tempo, a ONU votava a resolução pela criação de um Estado palestino na Cisjordânia e Gaza, de acordo com as fronteiras fixadas na partilha de 1947. Na mesma resolução, condenava-se a política de instalação de colônias israelenses nos territórios ocupados. Apesar da adesão internacional a essas decisões, Israel as ignora até hoje.
Em 1982, os constantes atritos fronteiriços entre os fedains acampados no Líbano e tropas israelenses provocaram a invasão do sul do Líbano por Israel, operação denominada “Paz para a Galiléia” por Telavive. Rapidamente, as tropas de Israel conseguiram alcançar Beirute, submetendo-a a intenso bombardeio. Acossada, a OLP era obrigada a retirar os seus combatentes da capital libanesa e enviá-los para os países árabes vizinhos. Era a maior derrota militar da Organização.
Logo após a retirada da OLP, Israel invadia Beirute Ocidental e assistia impassível à entrada de milicianos cristãos libaneses nos campo de refugiados palestinos de Sabra e Chatila. Ao longo de quarenta e oito horas, entre os dias 19 e 20 de setembro de 1982, os milicianos cristãos promoveram um sangrento massacre contra crianças, velhos e mulheres indefesos. Até hoje, o número total de mortos não foi determinado.
A derrota no Líbano provocou a maior divisão na história da OLP. Arafat passou a uma linha de negociações, procurando apoio internacional para a formação de um Estado palestino que não excluísse a existência de Israel. Nessa linha, chega a negociar com o governo Reagan a formação de um estado palestino, confederado à Jordânia, na Cisjordânia. Pelo acordo assinado em Wye Plantatin (EUA), em 1998, Israel se compromete a novas retiradas da Cisjordania, concluídas em março de 2000. Foi nessa situação de profunda divisão da OLP que foi deflagrada, nos primeiros meses de 2000, uma revolta generalizada dos palestinos da Cisjordânia e Gaza. Desde então, o processo de paz está paralisado.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Textos para 1a. série / Ensino Médio - 2o. bimestre

5.  A mudança das distâncias geográficas e os processos migratórios
Profa. Celina – Geografia – 1ª. Série – EM

Em Geografia, pode-se afirmar que a globalização diz respeito à construção de novos espaços e novas relações sociais desenvolvidas no mundo. Trata-se de uma nova configuração geográfica que se superpõe aos territórios nacionais, por vezes conflituosamente, outras em harmonia. Isso pode significar mudanças importantes nos próprios Estados nacionais com a presença, em seus territórios, de pontos de rede de corporações transnacionais e de redes técnicas, propiciando um aumento extraordinário da circulação de capital, de bens industrializados, de serviços e informações produzidos na escala mundial.
Essa agilidade da circulação se dá porque os espaços globais são suportes ativos dos processos socioeconômicos que ocorrem na escala mundial. Esses negócios são alimenta­dos pelo que há de mais avançado em tecnologias de produção e de circulação. Assim, es­ses espaços da globalização se realizam como expressões geográficas da nova ordem mun­dial. Vamos desvendar a lógica desses espaços que, fundamentalmente, se estruturam em forma de redes; conhecer os ritmos de suas relações, cada vez mais aceleradas e; identificar os principais agentes que os alimentam, como as corporações transnacionais.
Vamos começar com a formação populacional brasileira, mais especificamente, a contribuição dos processos migratórios estrangeiros. Que grupos vieram e para onde foram no território brasileiro? Quando? Qual a distância que esses imigrantes percorreram e as condições em que viajaram? Quanto tempo as viagens duraram? Vamos trabalhar com um caso expressivo, em razão da grande distância geográfica envolvida: a migração japonesa para o Brasil.
O Brasil é o país que tem a maior comunidade japonesa no exterior (exterior porque estão fora do Japão). São 1.500.000 pessoas entre japoneses e seus descendentes. Isso é resultado de uma onda imigratória proporcionada pelo Trata­do de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão, assinado em 05/11/1895. De 1908 a 1941, migraram para o Brasil 188.986 japone­ses. Esse fluxo foi interrompido pela Segunda Guerra Mundial e retomado nos anos 1950, quando vieram mais 53.555 imigrantes.
Eram 55 dias de desgastante viagem de navio, para percorrer 18.550 km. Se um imigrante não gostasse do que encontrou, dificilmente poderia "bater em retirada" e retornar à sua terra natal. Retornar apenas para visitar o Japão, durante muito tempo, não foi algo possível para muitos. Era muito caro percorrer uma distância geográfica tão grande.
Hoje, corresponde a 24 horas de vôo de avião. Em termos gerais, para as populações atuais desses dois países, essa mesma distância é ou­tra, tem outro significado em suas vidas.
O que aconteceu para mudar radicalmente o sentido desses 18.550 km? Uma aceleração no percorrer da distância geográfica. Uma aceleração dada pelo desenvolvimento e pelo acesso a novos meios tecnológicos que fizeram o espaço geográfico ser outra coisa; uma ace­leração que altera as relações entre essas duas sociedades (Brasil ↔ Japão).
A situação se inverteu: agora são 225.000 brasileiros que estão trabalhando no Japão. Estão impossibilitados de voltar se não gos­tarem? Podem visitar os parentes que ficaram no Brasil com regularidade? Esses parentes podem ir até eles? Eles são imigrantes, como os japoneses do início do século XX, que esta­vam trocando definitivamente de vida?
A visão anterior sobre a migração estrangeira era marcada pela visão de atitude definitiva. A quebra da rigidez da migração, hoje, transformou em algo mais temporário, transitório, e isso se deu em função da no­vas condições de mobilidade do ser humano, um produto da aceleração dos fluxos.
Observe o mapa “As migrações, final do século XX” na página 5 do caderno do aluno. Vamos aproveitar o mapa para exercitar a linguagem cartográfica, chamando a atenção para algumas características dele:
a) a projeção cartográfica: os mapas são planos e a superfície terrestre é curva. Não há meios de se colocar no pla­no as dimensões - formas, extensão e distância – da superfície terrestre (por exemplo, dos blocos continentais). Por isso, todos os mapas possuem deformações. É importante saber quais são essas deformações. A transposição do espaço curvo para o plano se faz com as chama­das projeções cartográficas. Por exemplo: nesse mapa, a projeção cartográfica é a de Bertin. Com ela, o autor conseguiu manter a extensão e as formas das terras emersas (fora da água). É uma projeção boa para mostrar que, as relações humanas e seus bens (os fluxos)  estão muito intensas;
b) o mapa para ver: onde estão os maiores fluxos de imigrantes, mas isso num bater de olhos? Essa identificação é simples e óbvia. Não haverá necessidade de con­sultar a legenda. A comunicação desse mapa é feita por sua imagem em conjunto: é um mapa para ver. As setas indicam direções e esse símbolo é universal. A largura das se­tas comunica visualmente a maior ou me­nor quantidade do fluxo. Mas, além das setas, o mapa traz outra informação visual. Os países estão coloridos de cinza ou de tons de rosa (mais fracos e mais fortes). Essas tonalidades de cor significam menor ou maior presença de imigrantes na formação da população dos países. Elas criam uma ordem entre os países nesse aspecto. Por exemplo, na atual formação da população brasileira, há menos imigrantes, proporcionalmente, do que na formação populacional dos EUA;
c) a representação dinâmica e ordenada: por  intermédio de linhas (setas), esse tipo de representação mostra o movimento dos fluxos no espaço terrestre de imigrantes no final do século XX. Por mostrar esse movimento, ela é chamada de representação dinâmica, adequada para representar fluxos. E por intermédio do tom de cinza e dos tons de rosa cria-se uma ordem entre países que têm mais e que têm menos imigrantes na composição das suas respectivas populações, por isso, essa dimensão do mapa é chamada de representação ordenada;
d) a variável visual tamanho e variável visual valor: o mapa repre­senta dois fenômenos:
1) o fluxo migra­tório e sua dinâmica espacial. Porém, es­ses fluxos são de diferentes quantidades. Como expressar isso visualmente? Por meio da largura (tamanho) das setas. Essa é a variável visual tamanho, essencial na cartografia para representar a proporcio­nalidade entre as coisas. Por isso, quando se vê um mapa bem feito, essa proporcio­nalidade se imprime imediatamente em nossos olhos;
2) a participação na composição da população dos imigrantes segundo classes, fenômeno representado por meio da variável visual valor, onde tonalidades da cor do mais escuro para o mais claro expressam valor da cor. Essa relação é direta para nosso olhar.
            Interpretando o mapa, as localidades no planeta que estão recebendo os maiores fluxos migratórios no momento são EUA (bem a frente de todos), Europa Ocidental e Golfo Pérsico. Os principais fluxos, como os do México e da América Central para os EUA, possuem direção sul para norte. Há fluxos também do Sudeste Asiático para os EUA, da África para a Europa e assim por diante. Essa evidência indica fluxos do sul para o norte, que na verdade expressam fluxos dos países pobres para os países ricos. A maior mobilidade dada pelas novas condições espaciais gera outros fluxos inusitados, alguns temporários, como da Índia para Dubai (grande cidade na entrada do Golfo Pérsico). Algumas das áreas que atualmente recebem os maiores de imigrantes, como a América do Norte e a Europa, já têm uma participação expressiva de imigrantes no conjunto de sua população. Algumas outras, como a Austrália, que também estão nessa condição, já não recebem mais fluxos vigorosos de imigrantes. Embora tenhamos ouvido a história de que o Brasil é um país formado por imigrantes, considerando a segunda metade do século XX, deixamos de estar envolvidos de modo importante no conjunto das correntes migratórias internacionais. Isso se revela pela baixa participação dos imigrantes no conjunto da população e pelo volume atual dos fluxos que envolvem nosso território.
              Veja os grandes sistemas (movimentos) migratórios contemporâneos, que devem-se à pobreza, a fenô­menos de proximidade geográfica e a liga­ções históricas:
- Os sistemas sul para o norte, que drenam a maioria dos imigrantes (normalmente em busca de melhores condições econômicas);
- Refugiados do Norte da África para a França, em função das ações do Magreb (grupo ligado à rede terrorista islâmica liderada pelo saudita Osama bin Laden, na região de Cabília - cidade 70 km a leste de Argel, a capital da Argélia, na África);
- Antigo império das Índias para a Inglaterra;
- Turquia para Alemanha.
- Europa do Leste envia imigrantes, mas também os recebe;
- Índia - Paquistão para países petroleiros do Oriente Médio;
- América do Sul e Central para os EUA.
O mapa de fluxos migratórios nos dá uma visão atual do volume e das direções das correntes migratórias internacionais, assim como a participação dos imigrantes na composição geral das populações dos países. Mas não é possível, por meio dele, concluir sobre a aceleração dos fluxos em relação aos movimentos migra­tórios ao longo do século XX.
Observe o gráfico “Evolução dos efeitos de migrantes, 1910-2000” na página 8 do caderno do aluno.  Ele nos mostra apenas uma evolução, no tempo, dos países recebendo imigrantes, mas não nos dá os fluxos, a dinâmica espacial direta e integralmente. O gráfico mostra que houve expressivo aumento do fluxo migratório dos anos 1960 para nossos dias em certas regiões do mundo: EUA, Europa Ocidental, etc. Essas representações visuais de qualidade formam imagens sobre os fluxos migratórios em escala planetária entre os Estados modernos: as direções geográficas desses fluxos; a mudança dessas direções; o volume quantitativo desses movimentos; e alteração contemporânea desses volumes, implicando numa aceleração dos fluxos e em formas mais acessíveis de administração das distâncias geográficas.

Problematizacão dos fluxos migratórios internacionais: aceleração e fechamento de fronteiras
É muito comum atualmente falar de ace­leração da história. Os eventos humanos se precipitam mais velozmente e as transforma­ções históricas são mais rápidas. Desde que o ser humano se sedentarizou no neolítico, ele nunca se moveu tanto como agora. E esse aumento de mobilidade geográfica está asso­ciado à aceleração da história. O aumento da mobilidade geográfica de bens, de mercado­rias e pessoas é a globalização das relações humanas, cujo potencial transformador já demonstrou seu poder, embora muito ainda esteja por acontecer.
Nesse novo cenário, um famoso historia­dor costuma afirmar: o documento mais im­portante nesse mundo globalizado não é a carteira de identidade e sim o passaporte. E isso nos dirige para a reflexão sobre os fluxos migratórios internacionais contemporâneos. Veja as características das migrações internacionais contemporâneas na página 10 do caderno do aluno.
Duas condições para que as imigrações se acelerem:
1. é mais fácil viajar, pois os meios são mais efi­cientes e os custos mais baratos e;
2. pode-se fazer experiências temporárias.
Porém, há restrições político-sociais ao processo mi­gratório. Por isso, o que menos circula no "mundo globalizado" são as pessoas. Mes­mo assim, as migrações cresceram bastante em comparação com o passado:
a) No início do século XXI, o fechamento das fronteiras fez aumentar o número de clandestinos, o que é difícil de estimar. Por exemplo: seriam uns sete milhões nos EUA;
b) Para os países de origem, as consequên­cias são por vezes negativas, como por exemplo, no caso da fuga de cérebros (pessoas com grande potencial – por exemplo, sua inteligência – e que acabam usando isso em outro lugar, não no seu país de origem);
c) As consequências são positivas para gru­pos que permanecem, em razão da remes­sa de recursos: em 2005 foram 225 bilhões de dólares, o que representa mais que a ajuda oficial direta para o desenvolvimen­to de alguns países. Por vezes, um imigrante sustenta, em média, dez pessoas.

6.  A globalização e as redes geográficas

Quando se fala em globalização, é possí­vel entender várias coisas, mas há uma que todos entendem: existe uma presença muito maior do mundo em cada localidade. Isso se expressa pela enorme presença de produtos de diversas partes do mundo e também pelo número elevado de informações sobre o mundo. Parte expressiva do que ocorre, do que se faz, do que se pensa em outras localidades pertence agora a nossa realidade.
Há uma nova organização do espaço geográfico que permite que o mundo esteja aqui e que estejamos no mundo e que a ele pertençamos. Essa nova organização permite que os fluxos se acelerem. E essa nova ordem geográfica é uma ordem de redes geográficas. Palavras-chave na Geografia, como espaço e território, hoje, devem ser acompanhadas por mais uma da mesma importância, a rede geográfica, que é a forma principal dos espa­ços da globalização.
Os territórios nacionais possuem frontei­ras, distâncias geográficas, culturais, políticas e econômicas diversas, mas o contato entre suas populações é cada vez mais intenso e isso se dá por meio de um "concorrente" do território: a rede geográfica. A rede geográfica tem o poder de ultrapassar as fronteiras nacionais. Existiria exemplo mais acabado dessa nova realidade do que a rede técnica mundial da in­ternet?
Veja os mapas “Internautas, 1991-2006” e “Mundo: posse de computadores pessoais no mundo, 2002”, nas páginas 13 e 14, respectivamente. São mapas quantitativos que fazem uso da variável visual tamanho, mapas para ver, pois devido à força expressiva da imagem, qualquer pessoa que os veja, vai perceber que o fenômeno representado é mais relevante nos EUA mesmo sem sa­ber de que fenômeno se trata. “Internautas” é um mapa ordenado que faz uso da variável visual valor (tonalidades de uma única cor, no caso o marrom). As tonalidades mais escuras expressam um número maior de internautas (usuário individual) em grupos de 100 habitantes (o valor mais elevado é de 87,7 por 100) e as mais claras, o contrário. O mapa é acompanhado por um gráfico evolutivo e quantitativo que, por sua vez, faz uso da variável visual tamanho e mostra o crescimento do número de internautas no período de 1991-2006, indicando também o número de vezes que o volume de internautas foi multiplicado. O mapa “Mundo” tem uma força comunicativa poderosa e ao mesmo tempo revela de forma aguda certos fenômenos geográficos.
Ao examinar essa representação, é interessante ter ao lado um mapa mundi convencional. Para definir o tamanho dos continentes, utilizou-se uma métrica numérica, uma medida que não é a convencional com base em km2. Não foi uma métrica territorial. Essa anamorfose sobre a posse de computadores pes­soais poderia não comunicar grande coisa se não tivéssemos todos, uma familiaridade muito grande com as formas convencionais do mapa mundi. Mas como a temos, logo percebemos a força comunicativa das defor­mações.
A linguagem das representações cartográficas foi uma preparação para a exploração cognitiva delas em conjunto. Afinal, elas, cada qual à sua maneira vão dar uma idéia dessa inovação revolucionária na vida humana e na estruturação dos espaços geográficos graças à rede técnica mundial da internet.

Redes geográficas: o espaço de ação das corporações transnacionais
Vamos esclarecer um dos enigmas da globalização e do mundo contemporâneo: a diferença entre termos que parecem ter o mesmo significado. Entre empresa e corporação a diferença é: uma corporação é um grupo que reúne várias empresas de diversos ramos e que concentra muito capital e interesses sob um único controle. Há cor­porações que têm empresas que atuam no ramo do petróleo, no industrial, no agronegócio, no sistema financeiro e na produção de filmes para cinema e televisão, por exemplo. Isso só explica que, quan­do os lucros crescem, os grupos econômicos vão diversificando seus negócios e suas localizações, a fim de garantir maiores lucros. A empresa é individual, só atua em um ramo.
Mas o que significa essa diferença entre uma multinacional e uma transnacional? Observe o esquema simples da página 18 no caderno do aluno. Observem especialmente a presença e o papel das corporações trans­nacionais no esquema. Que espaços, de fato, são aqueles em que as corporações baseiam suas atividades? Serão os espaços nacionais (territórios nacionais) convencionais? As corporações econômicas mais poderosas transcendem os espaços nacionais e criam um espaço global com base numa malha de redes técnicas e geográficas.
Um autor importante pode ser citado nes­se momento. Trata-se do geógrafo brasileiro Milton Santos:

 "O interesse das grandes empresas é economizar tempo, aumentando a velocidade da circulação [...] Corporatização do território é a destinação prioritária de recursos para atender as necessida­des geográficas das grandes empresas."

SANTOS. Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo - razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2008. p. 270.

Os fluxos de mercadorias, de serviços, de informações circulando rapidamente pe­las redes técnicas (transportes e teleco­municações) no mundo todo permitem o acesso a vastos mercados (e muito mais). As corporações que têm acesso, controle e investimento nessas redes técnicas obtém desse fato uma grande dose de poder econômico.
            O prefixo multi significa muitos. Assim, multinacional é uma empresa que opera em vários países, constituída por grandes aglomerados industriais e financeiros. E transnacional? Transcender significa ultrapassar, ser superior. Assim, transnacional é uma empresa que ultrapassa os limites do país em que tem sua sede: está sediada num país e opera a produção ou parte dela em outros. Os dois conceitos se completam: grandes empresas que estão sediadas nos países desenvolvidos e operam ou controlam a produção nos países subdesenvolvidos. O termo global (globalização) refere-se a um processo em andamento, pois na verda­de há muitas áreas ainda fora desse processo (as regiões em branco, os clarões), que sofrem uma “marginalização” em relação à globalização. Essas áreas "fora do eixo" da globalização foram designados como os deserdados da ordem mundial, áreas onde justamente registram-se eventos trágicos, guerras civis e conflitos regionais, tema estudado anteriormente.
            Um exemplo de funcionamento de uma rede geográfica em outro cenário, muito útil para compreender o funcionamento das redes na escala mundial, é a cidade de São Paulo. Essa me­trópole sofre desde os anos 1980 uma profunda reestruturação no seu espaço geográfico: seu território está "invadido" por redes geográficas que se estruturam do seguinte modo:
• Pontos: habitações em condomínio fechado ↔ centros administrativos isolados também em formato de condomínio fechado ↔ centros comerciais (shopping centers, hipermercados) fechados e protegidos ↔ outras instalações do tipo (hotéis, resorts urbanos).
• Linhas: vias expressas, avenidas, cuja circu­lação é predominantemente automobilística.
Os usuários dessas redes geográficas pro­curam concentrar o fundamental de suas vi­das em seu interior: residência, abastecimento, trabalho, estudos, lazer etc. E se possível, rara­mente saem da rede, evitando assim o território pleno da cidade. Pesquisas mostram o número impressionante­mente alto de habitantes da cidade que jamais foram ao seu centro histórico, jamais usaram transporte coletivo e jamais andaram a pé.
Há um custo financeiro para viver nessa rede protegida e ele não é baixo, o que resulta numa "seleção social” e diminui as trocas e as relações entre a população da cidade, em vista dessa separação (segregação?) sofisticada, na sua geografia. As trocas, as relações sociais desses usuários e construto­res de redes se dão quase que somente entre eles. E o que isso tem a ver com as redes geográficas de escala mundial, construídas e alimentadas pelas corporações transnacionais?
Mais de 50% da circulação de capitais, de bens de produção, de serviços, de tecnologia que as corporações transnacionais põem em movimento ocorrem internamente às suas pró­prias redes. Outro ângulo dessa lógica: 30% das exportações mundiais são trocas no interior das redes das corporações. É uma movimentação econômica que não se irradia para os territó­rios dos países onde elas não instaladas.
Essa radiografia geográfica da estruturação transnacional das corporações revela:
1. a im­portância das redes geográficas na globalização que se constrói;
2. um pouco das estratégias e do poder dessas grandes empresas.
Muitos da­dos econômicos podem ser alinhavados para dimensionar mais amplamente a ação das corporações, mas eles poderão ganhar mais signi­ficado se sua lógica espacial for considerada.

7.  Os grandes fluxos do comércio mundial e a construção de uma malha global

O comércio é por definição uma forma de relação humana que implica colocar em contato grupos sociais diferentes. Na origem da história humana para um grupo A interessava obter de outros grupos aquilo que não se con­seguia produzir, aquilo que somente outros grupos possuíam. Esse gênero de relação exigia estender relações sobre espaços mais amplos, obrigava a abrir caminhos, rotas e construir portos, estimulava a criação de novos meios de transporte e impunha a criação de estruturas para os comerciantes. Como se vê, o comércio é uma atividade humana produtora de novos es­paços humanos e uma atividade que ensinou o ser humano a lidar com a distância geográfica.
No mundo contemporâneo tudo isso in­tensificou extraordinariamente. Com os no­vos meios disponíveis, as atividades comer­ciais aumentaram o poder de uma das forças propulsoras da "fabricação" de novos espa­ços e do aperfeiçoamento dos meios de supe­ração da distância entre as realidades geográ­ficas.
Vamos pensar nas marcas de produtos comerciais que frequentam nosso dia-a-dia. Qual a origem nacional da marca? Numa série de produtos (roupas, calçados e eletrônicos, por exemplo) onde é a localidade da fabrica­ção? São duas coisas diferentes: um produto pode ter uma marca de origem americana e ser produzido na China. Uma marca pode ser francesa e seu produto pode ser, ao menos em parte, produzido no Brasil.
Isso revela a complexidade das relações atuais, num mundo globaliza­do, embora uma relação comercial, ao pé da letra, resuma-se à saída do local de pro­dução (ou ponto de venda) até o ponto do consumo.
Os fluxos de produtos que chegam até nós vêm do mundo, de um sistema produtivo e comercial que se organiza na escala mundial, não somente dos nossos vizinhos, do mundo ocidental ou do extremo oriente.

O comércio como acelerador dos fluxos; aceleração dos fluxos intensificando o comércio
O mundo contemporâneo é complexo. Isso não quer dizer complicado, como é comum se pensar. Complexo significa que cada realidade isolada é sempre produto do conjunto da realidade total, ou das diversas realidades em relação. Durante os últimos 50 anos as exportações mundiais aumentaram em volume, nove vezes mais rápido que a produção mundial. Produz-se mais, mas se comercializa entre países muito mais ainda. Quer dizer que boa parte da produção antigamente circulava mais no interior dos pró­prios países onde eram produzidas; hoje a produção circula muito mais numa escala geográfica mais ampla: circula o mundo.
O comércio não cresceu por si só, porque tem mais gente com­prando bens. O comércio cresceu porque uma série de eventos e transformações cruzadas nes­se nosso mundo propiciaram essa condição (e que já estudamos): a aceleração dos fluxos, as redes técnicas, a força das transnacionais e suas redes geográficas, a geopolítica, a ordem mundial e a ação das potências, que permitiram nesses últimos 50 anos que os mercados nacionais nada mais fossem que "seções" de um único e imenso mercado mundial. Outros exemplos de eventos que propiciaram o crescimento do comércio: desenvolvimentos tecnológicos, a multiplicação dos meios de compra e informação sobre os produtos, o afrouxamento das fronteiras dos Estados nacionais territoriais etc.
A imagem dos fluxos comerciais no mundo contemporâneo é forte. Nunca o planeta pareceu tão pequeno, tal a dimensão dos fluxos e as distâncias que eles percorrem. Longos trajetos, outrora feitos apenas por aventureiros, atualmente são as principais rotas comerciais do mundo. Rotas oceânicas percorridas por navios que ancoram em portos, abarrotados e congestionados de mercadorias, e rotas aéreas que chegam em pontos antes inalcançáveis resultam da busca desenfreada por novos mercados, por novos consumidores.
O comércio, obviamente, não ocorre somente na escala mundial, isto é, na relação entre continentes e países diferentes. Os fluxos ocorrem internamente dentro de uma região, numa escala inferior: produção no país/continente e consumo no país/continente.
O grande desafio da cartografia contemporânea não é localizar com precisão fenômenos geográficos, pois isso já está pronto e atualizado pelas imagens de satélite; o grande desafio está em conseguir expressar visualmente as relações espaciais que se desenvolvem num mundo cada vez mais complexo, ou seja, a utilização da linguagem. Para se produzir um mapa, antes de tudo, é preciso ter acesso às informações, à base de dados que será objeto da representação. Na cartografia temática contemporânea, há uma tendência em se preferir as projeções do tipo da de Buckminster Fuller ou a de Bertin para a representação de fluxos comerciais (lembre-se do mapa do tema 5, dos fluxos migratórios). Elas aproximam os blocos continentais, eliminam as imensas distâncias oceânicas e dão uma idéia mais expressiva e real do que são os fluxos no mundo contemporâneo. Projeções como a de Peters ou a de Mercator têm uma proeminência muito grande dos oceanos e expressam visualmente distâncias longuíssimas entre o extremo da Ásia e as Américas, por exemplo. A seta é compreendida, universalmente, como símbolo gráfico adequado para representara direção dos fluxos, pois permite expressar quantidade com a manipulação de seu tamanho (largura). Setas largas estarão representando fluxos de maior quantidade; mais estreitas, o contrário. Definir símbolos de comunicação não dá margem a diferentes interpretações. O que se vê tem sempre que ter sempre um único significado. Os blocos continentais no fundo do mapa devem ter uma única cor para todos. Uma cor leve e neutra para não ofuscar as setas. Define-se uma única cor para as setas e elas não podem se sobrepor umas às outras. Se fossemos montar um mapa com o tema “Comércio mundial de mercadorias”, constariam dados do comércio que poderiam ser representados cartograficamente em quadrados ou círculos (quanto maior, significa maior o volume negociado) ou por setas, e os números poderiamos colocar em uma legenda (resultando em uma representação quantitativa, pois apresenta números).
Hoje, os fluxos mais importantes no comércio mundial de mercadorias estão entre a Ásia e a América do Norte, entre a Ásia e a Europa Ocidental e entre a América do Norte e a Europa Ocidental. O fluxo da Ásia para a América do Norte é maior, mesmo com a imensa distância oceânica (que foi superada por conta da globalização, que encurtou as distâncias, realidade no mundo contemporâneo). O fluxo gira em torno da América do Norte, Europa e Ásia, mas os maiores fluxos ocorrem entre os países desenvolvidos para os subdesenvolvidos (tanto saída como entrada de mercadorias). Já os menores fluxos estão entre os próprios países subdesenvolvidos (tanto saída como entrada de mercadorias).
A Ásia aumentou significamente suas exportações, principalmente para os EUA  e Europa e se consolidou como um grande pólo exportador. Muitas transnacionais, que normalmente tem sede nos EUA e Europa, começaram a produzir nos países deste continente (China, por exemplo), para baratear a produção. E a mão-de-obra é farta e barata, aumentando a produção em grande escala e negociação de seus produtos por preços mais baixos. Os EUA são o maior comprador nesse tipo de relação e isso é uma participação fundamental, pois esse país é um grande mercado. Seu papel, como exportador, é um pouco menor, o que contraria uma visão de país forte (aquele que mais vende e que menos compra). Mas essa visão não corresponde ao modo como a economia global se organiza atualmente. Nesse modelo, importação e exportação não têm o mesmo peso de épocas anteriores. Por isso, os EUA não perderam sua importância no comércio internacional. O peso do comércio em escala regional (no mesmo continente, país ou região) ainda é grande, mas o comércio entre os continentes, ou seja, escala global (inter-região) está crescendo cada vez mais.

8.  Regulamentar os fluxos econômicos na escala mundial: é possível encontrar um bem comum?

A mobilidade humana ampliou-se, não há dúvidas. Na escala mundial as relações da globalização articulam uma malha de redes geográficas, alimentadas por redes técnicas, que se constituem numa nova configuração geográfica, acelerando impressionantemente os fluxos de bens econômicos e de pessoas. É certo que os bens econômicos (mercadorias, capitais, serviços, informações) circulam com muito mais desenvoltura nessa dimensão glo­bal do que os seres humanos. Mas também há constrangimentos na circulação dos fluxos econômicos. Aliás, mais que constrangimentos: há conflitos.
Vale relembrar uma razão: a ordem mun­dial existente se estrutura no interior da relação entre os países. No entanto, essas relações são desiguais:
1. alguns países são potências que atuam agressivamente;
2. agora há tam­bém corporações privadas bem mais pode­rosas que muitos países;
3. de modo geral, os fortes e os fracos nessa ordem só têm uma referência ao relacionar-se, que são seus pró­prios interesses. E sem dúvida isso vai signi­ficar problemas para a livre circulação dos bens econômicos; aliás, essa livre circulação dos bens econômicos vai significar proble­mas para cada país.
A regulamentação dos fluxos econômicos mundiais é objeto de muitos debates, pois há muitas críticas sobre a globalização que libe­raria forças que, em tese, causariam prejuízos às economias nacionais. Os Estados nacionais territoriais - inclusive os países mais ricos, quando percebem seus interesses nacionais contrariados, clamam por regras. É no inte­rior desse quadro que se vêm estruturando organizações internacionais que procuram regulamentar os fluxos econômicos.

Do GATT à OMC: um percurso espinhoso que se dirige ao desconhecido
Em 1948, período de esgotamento da Segun­da Guerra Mundial, o cenário mundial (não era bem a escala mundial, mas sim Europa ocidental e EUA) favorece a busca da eliminação de qual­quer tipo de conflito. Afinal, a tragédia estava vertendo sangue naquele momento e os custos para remover as ruínas e erguer um novo siste­ma econômico se anunciavam astronômicos.
Para se dinamizarem, as economias depen­diam de relações econômicas para além da escala nacional. Dependiam da remoção dos protecionismos, uma chave importante para a interpretação dos conflitos e das proposições para resolver a questão dos fluxos econômicos internacionais.
Leia atentamente o texto informativo sobre os organismos econômicos internacionais na página 34 do caderno do aluno. Nele encontra-se um panorama sinté­tico dos caminhos percorridos nos últimos 50 anos para se estabelecer meios e regras na or­dem dos fluxos econômicos mundiais.
Num mun­do de menores desigualdades econômicas - mundo que não existe – os países buscam um bem comum através de acordos, tratados, san­ções, punições e protecionismos. Os países se movem pela lógica geopolítica. As referências e os objetivos a serem alcançados por cada país são os interesses de cada um. Agindo assim, não é mais fácil chegar à guerra do que à har­monia?
Algo espe­cífico, que une as relações econômicas e a Geopolítica, se encontra no texto e deve ser notado para desenvolver-se uma linha de raciocínio: o acordo comercial (GATT) foi concebido para promover a paz e combater o protecionismo, que é o "promotor da guerra". Para o horror dos economistas, a vida real, nesse caso, invade a lógica econômica. O que é o protecionismo comercial? E por que isso causaria guerra? Se proteger pode causar a guerra, nesse caso, a proteção ganha o sentido de agressão. Não é interessante? Vale raciocinar so­bre isso, refletindo sobre o caso atual que o texto destaca no seu final: os EUA e a União Européia praticam o protecionismo em relação à sua agricultura, pois temem a cir­culação mais livre dos produtos agrícolas dos países emergentes e pobres, o contrário da filosofia que estaria na base da fundação da OMC.

Textos para 6a. série / 7o. ano - 2o. bimestre

5. Agrupamento regional das unidades federadas (irá utilizar o mapa mundi)
Profa. Celina – Geografia – 6ª. série

Nesse capítulo, vamos estudar a divisão regional do país, fundamentada na análise estatística e em estudos cartográficos. Para isso, serão consideradas tabelas baseadas nos dados da Pesquisa por Amostra de Domicílios do IBGE, de 2006.
O Índice do Desenvolvimento Humano (IDH) foi idealizado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq (1934-1998) e pelo economista indiano Amartya Kumar Senn (1933-), que desenvolveram esse novo índice a fim de comparar os países (ou também apurar o desenvolvimento de cidades, estados ou regiões) não apenas considerando a dimensão econômica, com base no Produto Interno Bruto (PIB) – como era muito comum até 1998. Eles partiram da idéia de que a análise do avanço de uma comunidade também deveria considerar outros aspectos sociais e culturais. Para isso, além de computarem o PIB per capita de cada país, correlacionaram a expectativa de vida e o nível educacional. O objetivo era medir o grau de desenvolvimento econômico e a qualidade de vida oferecida à população.
Essa metodologia difundiu-se por todo o mundo e é utilizada em estudos das disparidades regionais internas em mais de cem países. O IDH apresenta uma escala de 0 a 1, e quanto mais próximo de 1, melhor é a situação do país em relação ao seu desenvolvimento.
            No cálculo do IDH são computados os seguintes fatores: educação (taxa de alfabetização e escolarização), longevidade (expectativa de vida da população) e renda (PIB per capita – produção de riqueza por pessoa). Embora apresente deficiências no sistema educacional, o IDH do Brasil é considerado médio para alto, pois o país vem apresentando bons resultados econômicos. A expectativa de vida em nosso país também tem aumentado, colaborando para o índice. Mas, se analisarmos a situação do território brasileiro em diferentes escalas, há enormes contrastes.

Análise do mapeamento do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento)
Antes de analisarmos os mapas “Índice de Desenvolvimento Humano dos estados brasileiros, 2000”, na página 3, “Índice de Desenvolvimento Humano dos municípios brasileiros, 2000”, na página 5, “Índice de Desenvolvimento Humano dos municípios do Estado de Pernambuco, 2000”, na página 6 e “Índice de Desenvolvimento Humano do município do Recife, 2000”, na página 6, vamos entender o uso das cores nas representações cartográficas.
Na cartografia topográfica ou de base, o verde, por exemplo, é uma convenção geralmente utilizada para representar a vegetação e o azul, as superfícies aquáticas. Já na cartografia temática ou geográfica, como preferem alguns autores, é diferente. A variável visual cor é um elemento fundamental na comunicação cartográfica, uma vez que seu uso pode gerar diferentes tipos de percepção (ordem, seleção, associação).
Para facilitar a escolha das cores adequadas, os cartógrafos utilizam um círculo cromático, onde é possível identificar as cores vizinhas e opostas no espectro das radiações visíveis da luz. Para efeito da comunicação na cartografia temática, as cores representam diferentes intensidades e podem ser relacionadas com o círculo das cores, no qual algumas são consideradas quentes e outras, frias.



No entanto, apesar de existir uma seqüência lógica a partir da ordem do espectro magnético, muitas pesquisas verificaram que nem todas as pessoas conseguem estabelecer essa ordem na leitura dos mapas. Os estudos de Bertin demonstraram que a seqüência de cores por valor é mais eficiente do que a seqüência das cores espectrais para o leitor estabelecer uma ordem dos fatos representados nos mapas. Com base nesta espécie de “gramática das cores”, a Geografia pode fazer uso da linguagem da cartografia temática conforme o tipo de análise necessária. Assim:
- o tom ou matiz é eficiente para identificação de diferentes objetos ou feições (seletividade). Por exemplo, quando chamamos um objeto de amarelo, laranja ou verde, estamos identificando o seu tom;
- a luminosidade ou valor é a característica mais interessante da cor para o estabelecimento de uma seqüência dos dados (ordenação). Ela indica a quantidade de branco inserida em cada tom;
- a saturação é pouco eficiente sozinha, mas quando combinada com o valor da cor, auxilia na ordenação visual dos dados. Quanto maior a saturação, menor é a quantidade de cinza inserida numa cor.
            Agora, por que essa discussão é importante para o ensino de Geografia?
            Como já dissemos anteriormente, o conhecimento cartográfico mais difundido na escola brasileira é o do campo da cartografia topográfica ou de base. No entanto, os recursos de representação e comunicação da cartografia temática não podem ser esquecidos na análise do espaço geográfico. Ao desenvolvermos esses conteúdos, favorecemos a melhor compreensão dos conteúdos da disciplina e, ao mesmo tempo, possibilitamos um maior domínio da reflexão geográfica da realidade.
            Essa preocupação com a cartografia temática será enfatizada em outras séries. Na 6ª. série, esses são os primeiros passos na leitura de mapas temáticos no estudo de representações cartográficas elaboradas em escala monocromática, cuja principal variável é o valor das cores de mesmo tom, como é o caso dos mapas de IDH citados. Desta forma, trabalharemos uma das principais variáveis utilizadas na cartografia temática: o valor ou luminosidade. No caso dos mapas em análise, as cores utilizadas são de tom azul, variando a quantidade de branco inserida em cada uma delas (escala monocromática). Em vista do assunto dos mapas em análise, a intenção do cartógrafo foi a de comunicar uma seqüência do menor índice (tons mais claros) para os maiores índices (tons mais escuros).
            No primeiro mapa, a distribuição dos índices de desenvolvimento humano entre os estados brasileiros apresenta os melhores índices concentrados no sul do país, com exceção do Distrito Federal, e os piores índices no nordeste do país, com destaque para Maranhão, Piauí, Paraíba, Sergipe e Alagoas. Se agruparmos os estados brasileiros em regiões com IDH parecido, formamos três grandes grupos:
- os estados do sul: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, acrescidos de São Paulo e Rio de Janeiro;
- os estados do Brasil central: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, acrescidos de Minas Gerais e Espírito Santo e;
- os estados do norte: Amazonas, Roraima, Rondônia, Pará e Tocantins.
            Nesse agrupamento, ficariam isolados o Acre, o Amapá e o Distrito Federal. Os estados com menores índices estão localizados no Nordeste: Maranhão, Piauí, Paraíba, Sergipe e Alagoas.
            O segundo mapa apresenta a delimitação das unidades federadas do país (estados) como o primeiro, mas um maior detalhamento porque representa os índices por municípios (cidades). Um caso interessante de ser observado é o de Minas Gerais: comparem o contraste, a situação dos municípios do sul e do Triângulo Mineiro com os municípios do norte do Estado. Enquanto os municípios do sul estão mais próximos da realidade paulista, os municípios do norte estão mais próximos da realidade nordestina, inclusive porque a região apresenta a continuidade de partes do sertão, havendo certa compatibilidade entre as condições físicas e sociais nas áreas analisadas.
            Se analisarmos essa situação com a do estado de Pernambuco (terceiro mapa), verificamos que os municípios pernambucanos aparentam maior homogeneidade (cores mais parecidas), principalmente na região da capital do estado, Recife, onde a situação é uma das melhores do Estado. Mas quando detalhamos o município, no quarto mapa, e a escala permite representar o espaço intraurbano de Recife, observa-se que a desigualdade de condição de vida também é grande.

6. Regionalização no tempo e no espaço

Vamos comparar a primeira divisão regional oficial do Brasil, de 1941, com a atual divisão regional. Os recortes regionais se transformaram em função das mudanças socioeconômicas e ambientais do território brasileiro e dos recursos das ações do governo.
Quais foram os critérios utilizados pelos autores para a elaboração dos mapas apresentados na página 18 do caderno do aluno? As propostas de divisão regional do Brasil de autores de diferentes épocas.
Como parâmetro de comparação, o atual mapa de divisão regional do Brasil, na página 20 do caderno do aluno, é bem diferente dos anteriores em relação ao número de regiões e na delimitação das fronteiras entre os estados brasileiros.
O quadro abaixo é um comparativo entre as diversas divisões regionais que o Brasil já teve e a atual:

Divisão regional
Semelhanças com a atual
Diferenças em relação a atual
Élisée Reclus (1893)
Estabelece como limite das regiões as fronteiras dos estados
Apresenta um número maior de regiões
Critério de divisão com base na geografia física
Said Ali (1905)
Estabelece como limite das regiões as fronteiras dos estados
Mesmo número de regiões
Critério de divisão com ênfase na geografia física
Estabelece uma região oriental agrupando a Bahia e Sergipe com os atuais estados da região Sudeste
Delgado de Carvalho (1913)
Estabelece como limite das regiões as fronteiras dos estados
Mesmo número de regiões
Critério de divisão com base na geografia física insere São Paulo na região Sul e cria a região Leste com Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia e Sergipe
Conselho Técnico de Economia e Finanças (1939)
Estabelece como limite das regiões as fronteiras dos estados
Mesmo número de regiões
Critério de divisão com base na geografia humana
Estabelece uma região sudeste e uma região Sul semelhantes aos limites atuais
Insere Maranhão e Piauí na região Norte
Conselho Nacional de Geografia (1941)
Estabelece como limite das regiões as fronteiras dos estados
Mesmo número de regiões
São Paulo faz parte da região Sul
Estabelece uma região Leste com Sergipe, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo


Em alguns mapas, dependendo dos critérios adotados para inserir São Paulo, ora ele está na região Sul, ora na região Leste. O mesmo acontece em relação ao Maranhão e ao Piauí, que, dependendo do critério, são inseridos na região Norte ou na região Nordeste. São considerados, em alguns casos, as características naturais e, em outros, os aspectos econômicos e sociais.

As regiões naturais do IBGE
Fábio de Macedo Soares Guimarães, geógrafo e professor carioca, foi responsável pelo estabelecimento da primeira divisão regional oficial do Brasil, em 1941, na página 19 do caderno do aluno. Atuando no Serviço de Estatísticas Territoriais do Ministério da Agricultura, transferiu-se para o Instituto Nacional de Estatística com o grupo pioneiro formado por especialistas convidados para unificar o serviço estatístico federal, centralizando-o em um único órgão, o Instituto Nacional de Estatística – INE –, criado em 1934 e instalado em 1936. Especializado em Planejamento Regional, foi um dos fundadores do Conselho Nacional de Geografia (1937), órgão pertencente ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Exercendo funções de chefia, coordenou as equipes que fizeram o levantamento de dados e a análise de propostas de unificação da organização regional do país. Para Fábio Guimarães e os geógrafos de sua época, a formação de regiões com base nas características naturais do território brasileiro seria o procedimento mais adequado, uma vez que a divisão teria um caráter mais duradouro se comparada com os elementos sociais e econômicos. Alguns aspectos ambientais semelhantes entre São Paulo e as unidades federadas do sul, como uma faixa do território com clima subtropical, predomínio do planalto ocidental e da bacia hidrográfica do rio Paraná levou a inserir SP na região Sul. A formação da região Leste com Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Sergipe foi com base no conceito de região natural, relacionado com as bacias de drenagem secundárias do litoral brasileiro e a bacia do São Francisco.
Hoje, a divisão está definida de acordo com o mapa da página 20:
- Maranhão é um estado nordestino, que possui parte de seu território na Amazônia Legal. Estas terras, apesar de localizadas na região Norte, já fizeram parte da região Centro-Oeste antes da formação do estado de Tocantins;
- Minas Gerais faz parte da região Sudeste, mas a situação socioeconômica dos municípios do norte do estado aproxima esta unidade federada da realidade nordestina;
- Das unidades federadas do Centro-Oeste brasileiro, o Distrito Federal apresenta os melhores indicadores sociais;
- Paraná, apesar de estar numa região diferente, é o que mais se assemelha a São Paulo, tanto por aspectos físicos quanto econômicos
- Mato Grosso do Sul é um estado localizado numa área de expansão da fronteira agropecuária, fortemente articulado com a economia do sudeste
- Espírito Santo já foi considerado da antiga região Leste, por apresentar características ambientais parecidas com o sudeste baiano
- Goiás perdeu 20% de suas terras no final da década de 1980, com a formação do estado de Tocantins, mas cresceu e se aproximou ainda mais economicamente da região Sudeste nos últimos anos
- Piauí é um dos estados brasileiros mais pobres, localizado numa zona de transição entre a caatinga e o cerrado.
“Velho Chico” é a denominação carinhosa da população ribeirinha ao rio São Francisco, também conhecido como o “rio da integração nacional”. Nasce em Minas Gerais, passa por Bahia, Pernambuco, Sergipe e desemboca no mar, em Alagoas. Minas Gerais pertence à região Sudeste e os demais, na região Nordeste (por isso é o rio da integração nacional, já que atravessa vários estados e duas regiões). O trecho navegável está localizado entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA). Este trecho encontra-se articulado com a malha ferroviária existente no país. Em Pirapora encontra-se um terminal da linha férrea que interliga Minas Gerais a Rio de Janeiro e uma linha férrea que interliga Juazeiro a Salvador. O vale do São Francisco pode ser considerado um importante eixo de integração regional, porque através do transporte intermodal, ainda que não utilizado em toda sua potencialidade, circulam mercadorias e pessoas que vivem no Sudeste e no Nordeste.

7. Outras formas de regionalização

O estudo do Brasil por complexos regionais (Amazônia, Nordeste, Centro-Sul) permite uma visão mais integrada do território brasileiro. De fato, muito mais do que uma divisão do país, as regiões brasileiras são resultantes de interações econômicas muito intensas entre diferentes lugares. Por exemplo, a população residente no estado de São Paulo é formada por pessoas que se deslocaram de várias partes do país e do mundo.

Região concentrada de Milton Santos
Uma nova proposta de regionalização do Brasil foi elaborada pela equipe de pesquisadores coordenada pelo professor Milton Santos. Para eles, o Brasil poderia ser dividido em quatro regiões: a Amazônia, o Centro-Oeste, o Nordeste e a que foi denominada de região Concentrada (abrangendo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul).
A porção do território nacional que forma a região Concentrada, proposta por Milton Santos, apresenta a maior concentração de atividades modernas, como indústrias e agricultura mecanizada. Outras características da chamada região Concentrada seriam a maior densidade demográfica e a presença de mais institutos de pesquisa, que geram novas tecnologias. Assim, o parâmetro definidor de tal divisão seria o grau de acumulação da ciência, da tecnologia e da informação pelo território nacional.
Evidências que justificam essa proposta:
- Os dois portos marítimos mais importantes para exportações de mercadorias são os portos de Santos (SP) e de Tubarão (ES);
- Os dois maiores aeroportos internacionais do país são os aeroportos de Guarulhos (SP) e Galeão (RJ);
- Os três estados brasileiros com a maior concentração industrial são os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais;
- As cidades brasileiras que possuem como área de atração todo território nacional são as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

8. Visão regional (uso de vídeo e som)

Para aplicar seus conhecimentos sobre a divisão política do território brasileiro, os contrastes socioeconômicos e a diversidade ambiental do país, vamos analisar o filme “Sobral – a mulher, a árvore, o chapéu”, da série Paisagens Brasileiras. O vídeo mostra a vida cotidiana da família de uma menina que vive no município de Sobral, no Ceará. O objetivo da aula é a aplicação dos conhecimentos para a interpretação da realidade documentada no filme. Registrem, durante a reprodução do vídeo, os seguintes aspectos:
- A que região brasileira pertence o lugar em que vive a menina?
- Observem os aspectos ambientais, culturais e econômicos.
- Qual a origem de Sobral?
- Como ocorreu o seu desenvolvimento econômico?
- Descreva as condições de vida da família e a divisão de trabalho entre seus membros.
- Aponte semelhanças e diferenças das condições de vida e trabalho dos membros de sua família.
            Vamos escutar a música “Notícias do Brasil”, de Milton Nascimento, prestar atenção na letra e responder as perguntas na página 27 do caderno do aluno:

Uma notícia está chegando lá do Maranhão
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Veio no vento que soprava lá no litoral
De Fortaleza, de Recife e de Natal
A boa nova foi ouvida em Belém, Manaus,
João Pessoa, Teresina e Aracaju
E lá do norte foi descendo pro Brasil central
Chegou em Minas, já bateu bem lá no sul

Aqui vive um povo que merece mais respeito
Sabe, belo é o povo como é belo todo amor
Aqui vive um povo que é mar e que é rio
E seu destino é um dia se juntar
O canto mais belo será sempre mais sincero
Sabe, tudo quanto é belo será sempre de espantar
Aqui vive um povo que cultiva a qualidade
Ser mais sábio que quem o quer governar

A novidade é que o Brasil não é só litoral
É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul
Tem gente boa espalhada por esse Brasil
Que vai fazer desse lugar um bom país
Uma notícia está chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil
Não vai fazer desse lugar um bom país

(Repete Última Estrofe)