segunda-feira, 21 de março de 2011

Textos para 1a. série / Ensino Médio - 1o. bimestre

  1. Os elementos que constituem os mapas: os recursos, as escolhas e os interesses
Profa. Celina – Geografia – 1ª. Série – EM

Os mapas congestionam nossas retinas. Os meios para fazê-los atualmente estão acessíveis a muitas pessoas, e não somente aos profissionais cartógrafos. Todas as redações de jornal, revista e televisão têm meios para produzir mapas automáticos e inéditos, com rapidez. A incrível disponibilidade de dados estatísticos é outro fator que favorece a produção constante de mapas. Assim, não há jornal, revista ou televisão que não apresente, aos olhos de seus leitores e telespectadores, diariamente, mapas, mapas e mapas. Tudo isso sem contar a internet! Exemplo: previsão do tempo, localização de um lugar onde aconteceu algum acidente, localização em shopping, etc.
Essa inundação de mapas tem como protagonistas um número muito grande de pessoas que entendem do programa de computador que faz o mapa, mas não conhecem a linguagem gráfica e a Cartografia.
Por exemplo: se quisermos mostrar a distribuição geográfica de um fenômeno, digamos, o índice de alfabetização por município no Estado de São Paulo, por meio de tonalidades do preto para o branco (passando por vários tons de cinza) escolheríamos, para mostrar os maiores índices de alfabetização, o tom mais escuro e os menores índices, o mais claro.
Quando vemos um mapa que usa tonalidades da mesma cor, sem pensar, nossa percepção indica que a tonalidade mais escura (mais pigmentação) representa a maior intensidade do fenômeno, e a tonalidade mais clara, a quase ausência. Caso isso seja invertido, ou então, escolhidos tons arbitrários, haverá uma confusão na nossa percepção, pois o que teremos diante dos nossos olhos será uma falsa imagem: um erro cartográfico. A freqüência de erros cartográficos na mídia, nos atlas e nos materiais didáticos, de modo geral, é grande. São vários os erros e um dos mais comuns se refere à ordenação da diversidade de um único fenômeno. É freqüente a representação da ordenação, com distinção de cores, o que é um sério erro cartográfico.

Procurando sentir a comunicação imediata de um mapa das grandes aglomerações urbanas do mundo
Todo bom mapa deve responder a duas questões:
1.       Em tal lugar, quanto há?
Por exemplo: um mapa que mostra a relação de proporcionalidade (qual o maior, qual o menor), a pergunta a ser respondida visualmente deve ser: quanto?; deve mostrar também a ordenação (do mais denso ao menos denso) e responder: em que posição da ordem, em que ordem?
2.       Em que ordem está?
Por exemplo: deve referir-se à relação entre os dados representados no mapa; quer dizer, eles apresentam uma distribuição geográfica? mostram onde estão as maiores intensidades do fenômeno representado? onde são mais densas?
            Se tomarmos um mapa que mostra a distribuição da população, poderíamos usar duas formas gráficas bem simples: o tamanho dos círculos representando o tamanho absoluto da população das cidades (círculos maiores = populações maiores, círculos menores = populações menores), respondendo a pergunta 1; as cores no interior dos círculos representando as densidades(cor mais escura = maior densidade, cor mais clara = menor densidade).
            Esses dois critérios, além da simplicidade, têm uma propriedade de síntese, que faz com que digam muito sobre as aglomerações urbanas que descrevem.

Desconstruindo o mapa das grandes aglomerações urbanas do mundo: a escala, a projeção e a métrica
Os mapas podem ser feitos de diversas maneiras. São espaços muitíssimos menores que o espaço das realidades representadas, reduzidos várias vezes. Esse fator de redução é a escala cartográfica. Exemplo: há mapas comuns que representam a extensão do planeta que foram reduzidos 23 milhões de vezes em relação à extensão verdadeira do planeta, tal como na fotografia de uma pessoa de 1,80 m que, no papel, tem apenas alguns centímetros. O mapa-múndi é produto de uma redução grande (afinal a Terra é 23 milhões de vezes maior que o mapa). Para representar uma cidade internamente poderia reduzir bem menos, digamos, apenas 10 mil vezes. Se for preciso representar um grande espaço, será necessário reduzi-lo muitas vezes para que ele caiba num mapa. Nesse caso, será difícil representar detalhes. O inverso é verdadeiro também: pequenos espaços exigem uma menor redução para constituir um mapa, permitindo a representação de detalhes. Logo, um elemento essencial de qualquer mapa é a escala cartográfica (o fator de redução de um mapa). Uma diversidade delas é necessária para as muitas dimensões dos fenômenos geográficos. Definir a escala de um mapa é sempre uma escolha.
O planeta Terra é esférico, sua superfície é curva e não é possível desenhá-lo no papel plano do mapa sem algum tipo de deformação, que é na verdade a adaptação necessária para a transferência do que é curvo, para a folha de papel, que é plana. Mas é possível transcrevê-lo com vários acertos. Escolher alguns acertos é também escolher alguns erros.
A projeção cartográfica é a técnica que permite a transcrição de uma superfície curva para uma plana. Ela não pode respeitar ao mesmo tempo as distâncias entre os objetos, os ângulos (a forma dos objetos) e as superfícies (a extensão territorial dos objetos) ao mesmo tempo. As diferentes projeções (e são mais de 200) deformam e favorecem de maneira seletiva um ou outro de seus elementos. Em vista da diferença existente entre os mapas-múndi, podemos projetar imagens equivocadas. No “Quadro descritivo das projeções”, na página 14 no caderno do aluno, são apresentadas as mais importantes e conhecidas.
A Projeção de Mercator é a representação mais antiga e utilizada de todas. É muito útil na navegação, pois respeita as distâncias e os ângulos, embora não faça o mesmo com o tamanho das superfícies. As projeções têm características modificadas ao longo do mapa. A proje­ção de Mercator consegue manter as su­perfícies somente nas regiões próximas ao Equador. Ela também é freqüentemente apontada como uma projeção que expressa um poderio do Norte sobre o Sul, visto que superdimensiona as terras emersas do Nor­te.
Por sua vez, a projeção de Buckminster Fuller (assim como a de Bertin) é indicada para representar os fluxos comerciais no mundo contemporâneo. A projeção Dymaxion de Buckminster Fuller foi concebida para permitir uma melhor compreensão das questões humanas e colocar em evidência as relações entre os diferentes po­vos. É uma tentativa que busca encontrar a for­ma cartográfica mais adequada para a época das telecomunicações em escala mundial, dos transportes intercontinentais, das interdepen­dências econômicas. Essa projeção reduz as distorções habituais, fornece uma visão mais precisa das dimensões relativas dos territórios, dos oceanos e dos mares, e uma imagem menos "hierarquizada" do planeta.
Na verdade, as projeções são escolhas que devem ser ajustadas ao que se quer represen­tar. Não há verdades, nem certo e errado, apenas escolhas interessantes quanto ao seu potencial de comunicação. Portanto, a projeção é um dos elementos chaves do mapa.
Identificamos dois elementos essenciais para cons­tituição do mapa: 1) a es­cala e 2) as projeções. Os dois elementos são obtidos e construídos tendo por referência as medidas do terreno (distâncias, extensão, ângulos, reduções proporcionais) a ser representado. Se verificarmos, a Projeção de Mercator representa desproporcionalmente a Gro­enlândia em relação à América do Sul, considerando as medidas da extensão desses dois territórios: a América do Sul tem uma extensão territorial de 17.819.000 km2 e a Groenlândia, 2.175.597 km2.
Para representar, pode-se usar outra maneira de medir e não só a extensão territorial e assim, identificamos outro elemento essencial do mapa: a métrica, que é uma maneira de medir no mapa. Os mapas que introduzem outras maneiras de medir (outras métricas) que não somente as dimensões do terreno chamam-se Anamorfose, que quer dizer: aquilo que está fora da forma ou que não tem for­ma. Trata-se de um procedimento que produz alterações propositais nos contornos comuns dos mapas, produzindo, por exemplo, modi­ficações nos tamanhos dos territórios sem al­teração dos seus contornos (exemplo: desenhar o Japão bem maior do que é por conta da sua população absoluta). Observe o mapa “População absoluta, 2000” na página 16 no caderno do aluno e compare com o “Mapa territorial de referência” na mesma página. A percepção visual é imediata: tamanhos maiores são os países com maior população e tamanhos menores, com menor população; assim, concluímos que há uma distribuição desigual da população dos países. A maior população está concentrada na China, Índia, Estados Unidos e Europa e a menor, Canadá e Austrália – tomando por base o tamanho do país, do território.

Desconstruindo o mapa das grandes aglomerações urbanas do mundo: a linguagem
O conjunto de símbo­los gráficos ou variáveis visuais, na página 18 do caderno do aluno, é a lin­guagem, outro elemento do mapa. Os símbolos fazem parte da "gramática" da linguagem cartográfi­ca, que exemplificam e mostram as possibilidades de cartografar os fenômenos geo­gráficos (aqueles que têm espacialidade) e que permitem distinguir, quan­tificar, qualificar e mostrar ligações (fluxos). As variáveis que mostram quantidades (representações quantitativas) são círculos, quadrados proporcionais, que correspondem a variável tamanho. Mapas que querem representar fenômenos distintos usam, na maioria esmagadora dos casos, cores diferentes ou granulações, tal como aparece na “gramática” da linguagem cartográfica. Ordenar fenômenos é encontrar formas de mostrar as diferenças internas de um único fenômeno. Por exemplo, diversas altitudes do relevo, ou diversas médias de temperatura. Quando se trata de um único fenômeno, sua representação deve se dar no interior de uma única cor, utilizando suas tonalidades, e com isso pode-se mostrar a diversidade interna de um fenômeno. O mapa é uma representação estática, sem movimento, um retrato de um momento. No entanto, podemos representar por meio de símbolos adequados (e o mais utilizado é a seta) direções de fluxos, por exemplo, do comércio mundial, dando a idéia de movimento. Não é difícil perceber quando estamos diante de uma cartografia dinâmica, que procura representar movimentos.
O grande desafio da Cartografia não está mais em localizar, com precisão, os fenômenos geográficos. O verdadeiro desafio da Cartografia é conseguir representar as re­lações complexas travadas entre as sociedades e os objetos no espaço geográfico. Um dos maiores estudiosos e elaboradores nesse cam­po, Jacques Bertin, afirmava: o grande desafio a ser enfrentado pela Cartografia é o desen­volvimento da linguagem.

2. O sensoriamento remoto: a democratização das informações

Nunca a superfície do nosso planeta esteve tanto à disposição do olho humano como atualmente. Nunca tantos puderam conhecer essa área em detalhes, como agora. Na internet, um programa específico (Google Earth) dá acesso ao cidadão comum a praticamente toda superfície terrestre, com um nível de detalhe que permite até identificar nossas ruas e casas. Isso é extraordinário e novo. Se tal informação está disponível ao cidadão comum, obviamente outras, mais sofisticadas, estão sob o controle de agentes sociais poderosos, como os Estados (órgãos especia­lizados), institutos de pesquisas e grandes em­presas.
Que meios permitem essa ampliação do olho humano sobre seu planeta? O sensoriamento remoto, que é qualquer tecnologia que consegue apreender o espaço a distância. A tecnologia que mais revolucionou recente­mente essa apreensão do espaço a distância foi a imagem de satélite. São elas que abastecem o Google Earth e também permitem, por exemplo, acompanhar os fenômenos atmosféricos, monitorar desmatamentos e queimadas, identificar inimigos em situação de guerra e alvejá-los com mísseis.
As imagens de satélite podem nos dar a localização de fenô­menos geográficos e ser base importante para produzir mapas. Elas são instrumentos de controle territo­rial, logo, se associam às formas de poder e a diversos interesses. Alguns países e algumas empresas detêm o essencial das tecnologias, e isso é um problema. Um exemplo já bastan­te conhecido é o constante monitoramento remoto sofrido pelo Brasil em relação à di­versidade biológica da floresta amazônica, assim como as informações privilegiadas que os EUA conseguem em relação ao território iraquiano, o que favorece o controle daquele país sobre as áreas de petróleo. Mas, como foi ressaltado anteriormente, esse conhecimento está deixando de ser mo­nopólio apenas dos poderosos. Discutir como funciona o sensoriamento remoto no univer­so escolar é um passo na democratização de suas informações, um elemento de desenvol­vimento de competências e um ingrediente de constituição de cidadania. As imagens de satélite, como o próprio nome diz, são obtidas por meio de satélites dotados de sensores óticos enviados à órbita terrestre pelo ser humano. Países e empresas podem ser seus donos. Por isso, as imagens de satélites são conhecidas como pro­dutos do sensoriamento remoto orbital.

O sensoriamento remoto: como se produz uma imagem de satélite
            O texto “Sensoriamento Remoto”, nas páginas 25 e 26 no caderno do aluno, aprofunda o assunto.
Será que, como os mapas, as imagens de sa­télite têm qualidades e finalidades diferentes? Um exemplo é a diferença entre os satélites geoestacionários e os satélites em movimento com rela­ção à Terra, apresentados na página 26 no caderno do aluno.
Avançar na compreensão do sensoriamento remoto, como recurso didático-pedagógico, permite desmistificar a idéia de que esta tecno­logia de ponta encontra-se distante da escola e da cidadania, principalmente no momento em que seu uso está voltado para o estudo de questões importantes da atualidade, envolvendo problemas socioeconômicos e ambientais de grande relevância em suas diferentes esca­las. Parte importante dos conhecimen­tos da Geografia é obtida por meio das diver­sas formas de sensoriamento remoto.

Descobrindo imagens de satélite no cotidiano
Como o sensoriamento resulta na produção e no uso de imagens remotas, seria interessante explorar fontes de consultas disponíveis na rede mundial de computadores, na internet. Na página do Instituto Nacional de Pesquisas Es­paciais – INPE (http://www.inpe.br/) há um tutorial, um pequeno programa que ensina e mostra os fundamen­tos do Sensoriamento Remoto Orbital, das imagens de satélite. Outras hipóteses interessantíssimas podem ser exploradas: o site da Embrapa (http:// www.cnpm.embrapa.br/) e do Google Earth (earth.google.com/intl/pt/) também possuem tutorais para dar acesso ao conhecimento e à manipulação de imagens de satélite. Quer dizer, não só a informação está ficando mais dispo­nível, mas também as técnicas para aprender­mos a manipulá-las e criarmos nossos próprios produtos com imagens de satélite.

3. Geopolítica: o papel dos Estados Unidos e a nova "desordem" mundial

Num mundo que se globaliza cada vez mais, o termo Geopolítica também é utilizado muito mais. Mas o que há por trás desse vocábulo, que funde o prefixo geo com a palavra política? Será uma mistura de geografia e política? A Geopolítica não é a política normal, pois essa somente é praticável nos limites territo­riais de um país e de uma sociedade. A Geopolítica se refere, principalmente, à ação que coloca em contato Estados nacionais territoriais (países) entre si. Por seu intermédio, tanto se constroem acordos econômicos e de cooperação, como se realizam ações estratégicas em busca de vanta­gens econômicas e territoriais, como celebra-se a paz em tratados interna­cionais ou se faz guerra também.
Tantos são os países (Estados nacionais territoriais) no mundo, quanto são os inte­resses que não se harmonizam. A lógica de construção de interesses de um país A não se harmoniza necessariamente com os interesses do seu vizinho B. O funcionamento interno de um país, de uma sociedade nacional, não tem como objetivo criar interesses comuns com outros países. Em geral, mal se conseguem criar interesses comuns internamente a um país.
Apesar de serem mundos próprios, com pers­pectivas únicas, desde há muito tempo os países vêm se abrindo para as relações. Aliás, muitos devem sua própria fundação e existência às rela­ções com outros países. Não será esse o caso do próprio Brasil? Assim, criou-se historicamente uma teia, uma malha de relações internacionais, dotada de alguma ordem, que, por vezes, pode ser vista como um sistema. Eis algumas caracte­rísticas elementares dessas relações:
> sempre se caracterizaram pela desi­gualdade, com alguns países levando maiores vantagens econômicas, esta­belecendo os parâmetros das relações, subordinando os mais frágeis;
> sempre resultaram de negociações difíceis, pois poucas vezes as relações internacionais encontram apoio das sociedades. Exemplo: se importar bens industriais de outros países, sem maio­res restrições, prejudica os produtores do país, por isso é necessário impor restri­ções, impostos ou proibições parciais;
> os conflitos de interesses econômicos entre países, nessa "arena internacio­nal", estiveram entre os motivos prin­cipais de várias guerras, inclusive as chamadas guerras mundiais;
> com o desenvolvimento dos meios de transportes e meios de comunicação, as distâncias geográficas vêm sendo mais bem controladas, aumentando o potencial de relações econômicas, sociais e culturais entre os países. Quer dizer: mais interesses nacionais diferen­tes entram em contato.
Quer dizer então que estamos aumentando para a humanidade (representada em várias sociedades nacionais diferentes) o risco da ampliação de conflitos? Duas respostas po­dem ser dadas a essa questão:
1.Não é bem assim, porque entre os diversos e diferentes interesses nacionais, há sempre a vantagem econômica e cultural de esta­belecer um relacionamento. Há o interes­se em se relacionar. São raros os Estados nacionais e as sociedades que optam pelo isolamento;
2. E há também países poderosos que têm for­ça para influenciar a criação de uma certa ordem nessas relações. Essa força é traduzida numa expressão muita utilizada quan­do se fala na Geopolítica internacional: potência ou mesmo superpotência. Por isso, pode-se falar em ordem mundial ou, então, velha ordem mundial, nova ordem mundial, "desordem" mundial etc. Alguns chegam a falar em sistema mundial.
A natureza das ações que constroem, que sustentam, que desagregam essa(s) ordem(ns) mundial(ais), ou o sistema mundial, é dada pela Geopolítica.
Existe uma ordem mundial contemporâ­nea possível de ser descrita? Existe, e nela os EUA são um país que tem um papel-chave. E sem o entendimento do que é geopolítica, Estado nacional, potência e superpotên­cia e sem conhecer um pouco da história da construção desse poder dos EUA, essa ordem mundial não será compreensível.
Vamos começar a partir de um conflito contemporâneo ao qual todos estão fartamente expostos. Nada é tão presente nos meios de comunicação: trata-se da invasão do Iraque pelos EUA e o apoio da Inglaterra para derrubar o presidente Saddam Hussein. Isso aconteceu em 2003 e todas suas conseqüências ainda estão em andamento, com a permanência de tropas americanas naquele país. Não houve, nos últimos tempos, nada que te­nha tido mais espaço nos meios de comunicação que os eventos associados ao atentado terroris­ta que os EUA sofreram em 11 de setembro de 2001, e a invasão do Iraque é um deles.
Algo interessa muito para a discussão so­bre o que é Geopolítica nesse caso: Como se deu a decisão de invadir o Iraque pelos EUA?
Existe uma entidade internacio­nal chamada Organização das Nações Unidas (ONU) instituição de caráter multinacional fundada logo após o término da II Guerra Mundial. Uma das funções desse organismo é tentar resolver conflitos internacionais. Embora sua ação contemporânea tenha se diversificado, é uma instituição que atua na solução de conflitos, para evitar horrores como os que a II Guerra Mundial impôs ao mundo.
A questão da invasão do Iraque pelos EUA foi discutida na ONU e o mundo teve a oportunidade de acompanhar ao vivo várias das sessões em que os diversos representantes das nações apresentavam suas posições. Houve votação e não se aprovou a invasão do Iraque. Mas essa invasão se deu no ano de 2003. Um ano antes, os EUA haviam invadido o Afeganistão, país localizado na Ásia e bastante distante dos Estados Unidos. São mundos afastados, mas que não impede a ação militar dos Estados Unidos, o que demonstra a força militar norte-americana.
Por que, num prazo tão curto, os EUA invadiram militarmente o Afeganistão e o Iraque? Isso teria alguma relação com o atentado terrorista em Nova York, em 11 de setembro de 2001, quando dois aviões foram arremessa­dos contra dois prédios imensos dessa cidade (World Trade Center)? Esses acontecimentos foram fartamente noticiados e se deram no governo Bush; o atentado terrorista foi a principal razão alegada para os ataques ao Afeganistão e ao Iraque porque os EUA atribuíram aos dirigentes desses países cumplicidade com o grupo terrorista que atacou Nova Iorque, que era o grupo do árabe Osama Bin Laden.
Antes da invasão do Iraque, o que os EUA defendiam? Por que argumenta­vam a favor da invasão do Iraque? A questão do Iraque ganhou mais um elemento, além da cumplicidade com os grupos terroristas, os EUA alegavam também que o Iraque estaria produzindo armas de destruição em massa, visando a ataques contra alvos do mundo ocidental (por isso buscavam apoio na ONU)
A ONU aprovou a invasão? Todos estavam de acordo com os EUA? Não somente a ONU não aprovou a invasão, como também não se comprovou que o Iraque possuía armas de destruição em massa e, por essa razão, a maior parte dos países com direito a voto nas sessões da ONU não aprovou a posição dos EUA, o que não foi suficiente para impedir que os EUA realizassem as ações de invasão.
No Conselho de Se­gurança da ONU, os EUA se empenha­ram em demonstrar que o Iraque havia apoiado o atentado terrorista e que, em seu território, Saddam Hussein estava produzindo armas de destruição em massa. Os EUA não obtiveram suces­so em convencer boa parte dos países. Suas propostas saíram derrotadas. A invasão do Iraque não foi aprovada pela ONU e, mesmo assim, os EUA invadiram o Iraque. Por que os EUA desrespeitaram àquela decisão? Aqui é o momento de, com ênfase, destacar que, nessa resposta, se es­conde a essência da Geopolítica.

Potências, superpotências e ordem mundial
Vamos ler o seguinte texto:


Espaço é poder
Regina Célia Bega dos Santos
A palavra Geopolítica começou a ser utili­zada no final do século XIX. Era uma referên­cia à ação do Estado territorial. Defendia-se, à época, que, assim como as espécies animais e vegetais, os seres humanos dependem de ter­ritório para sua existência. E que há, natural­mente, uma competição por esse espaço vital para nossas vidas. Uma luta, na verdade, que vence aquele grupo que tiver mais poder.
Esse pensamento disseminou-se na Alemanha e também nos EUA, ainda no final do Século XIX. Quem tem mais poder, quem for uma potência maior, incorpora mais território ao seu controle. E ter muito espaço é poder.
A derrota na Primeira Grande Guerra fortaleceu o entendimento de que a Alema­nha só teria poder se arregimentasse mais territórios (pan-germanismo). Esse raciocí­nio alimentou as ações de Hitler na Segunda Guerra Mundial.
Depois de muita destruição de vidas hu­manas e recursos materiais, a Alemanha foi derrotada, e os Estados Unidos se firmaram como grande potência, uma superpotência, capaz de criar e influenciar uma nova ordem mundial. Mas não será nesse momento a úni­ca superpotência. Da mesma guerra, surgiu um vitorioso concorrente. A União das Repúbiicas Socialistas Soviéticas (URSS), um poderoso Estado territorial, que já não existe mais atualmente.
A visão de que espaço é poder, uma das faces da Geopolítica, esteve sempre presente nesses imensos conflitos que definiram a for­ma do sistema mundial depois da Segunda Guerra. De alguma maneira, esse ponto de vista permanece presente.


O conceito de potência (e de superpotên­cia) mostra-se decisivo no entendimento do sistema mundial. É uma referência à Nova Ordem Mundial, já que as potências e as superpotências são as grandes criadoras dessa ordem e, no caso do final da II Guerra Mundial, os agentes fundamentais são os EUA e a URSS. Não há referência possí­vel à ordem mundial sem que se mencionem quais as principais forças, os principais agen­tes. Vale lembrar: as ordens mundiais sempre foram desiguais, nem todos os países envolvi­dos tinham a mesma força. E a palavra força associa-se a potência.
O que caracteriza um país como potência? De onde vem a força de um país, para lhe permitir ser uma potência que influencie a ordem mundial? Força econômica? Força militar? Força cultural? Rede de relações (força para expandir suas relações geograficamente)?
Sem dúvida essas quatro características se complementam, mas podem ser pensadas se­paradamente. Por exemplo, a URSS tinha for­ça militar e alguma força econômica, rede de relações restrita e influência cultural restrita à questão política (propaganda do socialismo). O militar predominava. Já no caso dos EUA, as quatro características são bem marcadas e, por isso, esse país é uma superpotência.
A rede de relações – força para expandir suas relações geograficamente – interessa muito em ra­zão de seu caráter geográfico, porque expres­sa o controle do espaço na escala mundial por parte da potência ou superpotência. Quanto mais investir em meios de superar a distân­cia geográfica, mais um país fará seus produ­tos, sua cultura e sua força chegarem a vários pontos do planeta. Sem essa capacidade, um país não pode ser chamado de potência, pois não será um ator importante na formação da ordem mundial. Por isso, a força geográfica ou força espacial é mais importante e colocada em primeiro plano. Isso vai aju­dar a entender a ordem mundial e perceber o papel da Geopolítica.
Observe o mapa “A bipolaridade e a ordem westfaliana – 1950-1980” nas páginas 32 e 33 do caderno do aluno. A área de influência da URSS era bem restrita e era designada como Cortina de Ferro. A característica de relacionamento de uma super­potência é ser aberta, sem restrições e um muro, como o muro de Berlim, também ser­viu para fechar as negociações desse mundo sob controle da URSS.
Alguns Estados nacionais e territoriais têm o mundo como sua extensão, graças a seu peso financeiro/econômico e militar e às suas redes de relações, que significa que eles influenciam os demais. O quadro “Atuais potências mundiais e suas características”, na página 34 do caderno do aluno, localiza esses agentes mais poderosos da ordem mundial: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Inglaterra, entre outros.
O Brasil foi colocado no quadro para que se tenha idéia do peso de nos­so país. Talvez não se possa considerá-lo uma potência, mas não deixa de ser um ator na formação da ordem mundial, um ator intermediário, coadjuvante. Esse quadro pode receber outros participantes, o que importa é a idéia de agentes mais poderosos e outros mais frágeis na organização do sistema mun­dial. E nesse caso, o peso dos EUA é signifi­cativo como uma e única superpotência.
Considerando a ordem mundial, estrutura­da, antes de tudo, pelas potências que têm a capacidade de fazer existir um mundo, e não um conjunto de sociedades territoriais isola­das, ainda pode-se acrescentar alguns comen­tários para reflexão:
> As potências disputam terreno e espa­ço, como era claro na ordem mundial cujas colunas básicas eram EUA e URSS (após a Segunda Guerra até o final dos anos 1980);
> Seus acordos e enfrentamentos manti­veram certo equilíbrio no planeta, no sistema mundial, mas não impedi­ram múltiplas guerras locais e conflitos regionais, que vêm sangrando várias sociedades do planeta;
> Na presente ordem mundial, acres­centa-se à força dos Estados nacionais territoriais aquela das grandes corpo­rações econômicas (sistema produtivo, financeiro, serviços) que faz, também, uma espécie de "geopolítica". Soma-se também a força das instituições religio­sas, de larga difusão, e ideológicas (essa última enfraquecida com a decadência do mundo socialista).
A ação da única superpotência, das outras potências e dos países com margem de mano­bra mais restrita, nesta ordem mundial, não é orientada pela política convencional e sim pela Geopolítica.

Definindo a geopolítica: a vocação geopolítica do EUA
Vamos lembrar um fato discutido an­teriormente: a questão da invasão do Iraque pelos EUA.
Antes de invadir o Iraque, os EUA ten­taram uma aprovação, um apoio, da ONU. Não conseguiram. Mesmo assim, ocuparam aquele país do Oriente Médio, e ainda estão lá. Como pode ser julgada essa atitude dos americanos que, mesmo perdendo uma vota­ção, não a respeitaram? Por que agir contra a vontade de uma maioria? O que faz com que o governo americano, o congresso americano, sua população, enfim, decida pela guerra, se outros países aliados, inclusive, são contra?
A resposta seria: a lógica geopolítica. O Es­tado nacional e territorial dos EUA (a socie­dade americana) tem seus motivos, e somente seus motivos são levados em consideração. Seus interesses são a única referência, e não os interesses da humanidade, os interesses de um bem comum, diferentemente da política inter­na de sua própria sociedade (preocupada com sua população).
Política é fácil de definir. Em nosso país, reclamamos muito da qualidade da vida política, dos partidos polí­ticos e de nossos representantes. Do que, em resumo, nos queixamos? Que os políticos de­fendem apenas seus interesses, e não um bem comum. Quer dizer: parece-se com a geopolíti­ca, porque entendemos que há um bem comum a zelar no Brasil.
Pois bem, na arena internacional, um país atua apenas em prol de seus interesses, e é isso que suas populações acham. E na defesa de seus interesses soberanos, se for preciso faz-se a guerra: isso é a Geopolítica. Uma política de defesa de interesses únicos, que não tem como referência um bem comum, que afinal, não existe num mundo dividido.
Por essa razão, a superpotência mais pode­rosa, os EUA, opera sem considerar outros in­teresses, outras opiniões, embora seja bom ter apoios. Invadir o Iraque foi considerado uma ação de segurança nacional de um país sobe­rano, e seria obrigação do governo fazer isso e não se submeter a uma decisão da ONU. Esse é discurso da Geopolítica, e é esse modo de pensar que comanda as relações internacio­nais de todos os países.
A condição dos EUA, de grande superpo­tência contemporânea, pode ser argumentada tendo em vista seu desenvolvimento econômico e sua participação vitoriosa nos grandes con­flitos do século XX. Mas não seria equívoco enxergar na história desse país, desde sua inde­pendência da Grã-Bretanha até sua consolida­ção como Estado nacional territorial, uma vo­cação geopolítica para grandes e ousadas ações internacionais. O texto “A vocação geopolítica dos EUA”, nas páginas 36 e 37 do caderno do aluno, exemplifica isso.
Há uma naturalidade com a qual o desembaraço geopolítico dos EUA se realiza. Uma sugestão de reflexão se refere à presença, nas várias línguas, de uma designação incrível: os americanos dos EUA têm o monopólio da palavra "americano", e somente eles são ameri­canos, embora seu país não se chame América (eles gostam de dizer que é esse o nome) e sim Estados Unidos da América. Nós brasileiros, por exemplo, somos eventualmente chamados de sul-americanos, mas apenas para ressaltar nossa origem continental, mas nossa identi­dade nacional é brasileira, e dos americanos? Americanos. Essa pró­pria forma de designar a nacionalidade deles, é um indicativo de sua ação de potência, que estende seus interesses para além de seus limites territoriais.

A geopolítica dos EUA chega à escala mundial
A ordem mundial resultante da Segunda Guerra foi marcada pela liderança de duas superpotências: EUA e URSS. A rivalidade entre elas se expressava como um confronto entre o capitalismo e o socialismo. O mundo era marcado pela grande desigualdade entre as potências e os outros países, algo que ain­da permanece. Nesse período, os avanços da URSS na Europa do Leste, fi­zeram com que o governo dos EUA traçasse novas linhas de sua geopolítica externa, o que ficou conhecido como a Doutrina Truman.
Segundo essa linha geopolítica, os EUA deviam assumir a liderança na defesa intransigente do Ocidente, da democracia e do capi­talismo contra o comunismo. Agora, a escala mundial era a extensão territorial para a ação americana em defesa de seu poder e de seus interesses. A força militar de ambas as super­potências equilibrava-se com base em arma­mentos nucleares capazes de uma destruição total do planeta. E era sobre essa estrutura, esse equilíbrio da destruição, que a ordem mundial se mantinha naquele período.
Esse equilíbrio perdurou até a queda do muro de Berlim e da desintegração da URSS, marcos do fim de uma era, em que a burocracia e o incrível autoritarismo do Estado puseram fim ao socialismo. A partir da década de 1990, uma ordem mundial capitalista reina isolada­mente, ancorada na superpotência americana e nas outras, também muito importantes.
Em 11 de setembro de 2001, porém, um atentado terrorista em Nova York atingiu a superpotência e veio perturbar a ordem mun­dial. Foi nesse contexto que os EUA invadi­ram e derrubaram os governos do Afeganis­tão e o do Iraque, numa clara demonstração do poderio de sua força militar e de sua força geográfica, que se expressa pela capacidade de atuar em qualquer parte do mundo.
O texto “A doutrina Bush e a síndrome do 11 de setembro”, nas páginas 39 e 40 do caderno do aluno, busca interpretar o atual estágio da ação geopolítica dos EUA, referente às novas políticas a ser implementadas no Oriente Médio, a chamada Doutrina Bush, que caracteriza as políticas de relações exteriores como geopolítica, que pensa em ações e conquistas estratégicas, e tem como argumento mais forte, justamente, a força militar.

4. Os deserdados na Nova Ordem Mundial: as perspectivas de ordem mundial solidária

O sistema mundial, moldado pela força das potências e por seus interesses, permite equilíbrio e funcionamento nas relações interna­cionais, mas gera uma profusão (grande quantidade) de terríveis efeitos colaterais.
Muitos Estados nacionais territoriais re­centes, surgidos da descolonização (liberta­dos de uma ordem colonial que os oprimia) se inserem apenas marginalmente nessa nova ordem e, condenados ao isolamento, tendem a se desagregar, a se decompor. Freqüentemente são vitimados por terríveis conflitos regionais e internos, cujo índice de mortandade encon­tra-se entre os mais terríveis da humanidade, como nos exemplos recentes de Ruanda e Ser­ra Leoa, no continente africano. Desde a Se­gunda Guerra Mundial, 20 milhões de pessoas morreram nesses conflitos regionais.
            Outros países ainda procuram se erguer e se reorganizar após terem sido vítimas de guerras terríveis, que regionalizavam o confronto entre as superpotências na ordem mundial anterior. Esse é o caso do Vietnã, país vitimado por uma guerra horrível com os EUA. Guerra, aliás, que serviu para diminuir, na época, o desembaraço da ação geopolítica americana em vista da der­rota dos Estados Unidos. Esse é o caso também do Afeganistão, invadido pela URSS nos anos 1980. Outro caso a ser notado é a terrível guerra entre Irã e Iraque, estimulada pelas potências do mundo ocidental (EUA à frente), que ar­maram e tornaram poderoso Saddam Hussein, o mesmo que recentemente ameaçava a paz mundial, segundo a alegação dos EUA. Outros exemplos podem ser lembrados, e muitos ainda estão sangrando a despeito do equilíbrio "civi­lizado" que mantém a ordem mundial. Uma or­dem mundial que tem vários deserdados.
No mundo atual, há paz? Afinal, as guerras mundiais terminaram? No interior da ordem mundial, temos pontos graves de crise, que se expressam por conflitos regionais, por decomposição violen­ta de alguns países. Não é difícil chegar a esse quadro dos conflitos, em vista da profusão de in­formações que nos é disponível, embora alguns conflitos, conforme sua localização, são conde­nados à indiferença do mundo, como o caso da recente Guerra Civil em Serra Leoa, na África. Alguns conflitos regionais são tratados como assuntos de menor importância, numa ordem mundial dominada por interesses que não são de todos. Serra Leoa está localizada no oeste do continente africano. A lógica da desagregação territorial de um país recém saí­do do jugo (situação de submissão por meio de violência) colonial e abandonado pelo sistema mundial está revelado num livro extraordinário e chocante de Ishmael Beah, Muito longe de casa: memórias de um menino-soldado. Vamos ler um pequeno texto explicativo sobre o livro, na página 45 no caderno do aluno.
Na história de Ishmael Beah são encontra­das várias das características das guerras regionais que infelicitam alguns povos do mundo:
- Fundamentalmente ocorrem em (ou en­tre) países frágeis em termos econômicos;
- Países com dificuldades de se adaptar às novas condições da ordem mundial;
- Países que se tornam espaços frágeis, sem controle do Estado, sem que essa exerça suas funções;
- Países em que a miséria se desenvolve, e que ficam muito mais vulneráveis a catás­trofes naturais, como secas e inundações;
- São conflitos marcados pela decom­posição, pela intensificação dos ódios étnicos, que acabam gerando massacres pavorosos, ações de extermínio, como ocorreu em Ruanda;
- São guerras acompanhadas por fuga maciça de populações, em geral cam­ponesas, aldeãs (habitante de aldeias), como no caso de Beah;
- Fogem para países vizinhos e são insta­lados em campos de refugiados;
- Passam a ser assistidos por instituições de caráter global (ONU, Cruz Vermelha, ONGs diversas) e por esse caminho in­gressam como párias (fora do sistema, que não faz seu papel social, não faz parte) na ordem mundial.

Os deserdados da ordem mundial: o drama dos refugiados
Observe o mapa “Principais fluxos de refugiados e deslocados, situação final de 2005”, na página 43 do caderno do aluno. É um mapa de fluxos, cujo recurso gráfico são setas que indicam dire­ções (ponto de partida e ponto de che­gada). Elas têm espessuras diferen­tes e cores diferentes. Evidentemente, aos nos­sos olhos, as setas mais largas e mais escuras indicam os maiores fluxos e sua localização.
O mapa responde às duas questões básicas:
1. Em que lugar se situa um fluxo de refu­giados e qual sua quantidade?
2. Quais os maiores fluxos de refugiados e suas princi­pais direções?
O centro do continente africano, o Oriente Médio e a Europa do Leste são os principais pontos de fluxos de refugiados; há também um ponto importante na região do sudeste da Ásia (antiga Indochina, onde se encontra o atual Vietnã, Camboja, Laos etc.).
A tendência dos refugiados é se dirigir às regiões imediatamente vizinhas, mas há também a existência minoritária de fluxos de refugiados percorrendo grandes distâncias, até os EUA, por exemplo (normalmente refugiados europeus e do Oriente Médio).
Os refugiados africanos vão para os países vizinhos e apenas uma minoria conse­gue fugir para a Europa. Esses refugiados são: vítimas da decomposição social, territorial e nacional dos países do cen­tro da África e do oeste (Ruanda, por exemplo) e das guerras que surgem em conseqüência dessa decomposição; vítimas da instabilidade do Oriente Médio, e da atual guerra no Iraque; vítimas da guerra civil na antiga Iugoslávia (Bósnia-Herzegovina, Kosovo, por exemplo), produto da desa­gregação do socialismo e; vítimas ainda da Guerra do Vietnã e da instabilidade que ainda reina na­quela região.

O enfraquecimento da geopolítica - as chances de uma nova ordem mundial solidária
Os EUA já contaram com mais apoios às suas ações geopolíticas. A própria recusa da ONU, em apoiar a invasão do Iraque, mostra que já não é tão fácil as potências se organizarem apenas em torno de seus interesses. Há quem veja, nesse caso, um dos sinais do enfraquecimento do poder dos EUA como força principal na ordem mundial.
Nas duas décadas que seguiram à Segunda Guerra Mundial, o domínio dos EUA era bem grande, embora esse poder fosse relativamen­te dividido com a URSS: o dólar reinava no mundo, sua superioridade tecnológica era incontestável e sua influência cultural era bem aceita.
A intervenção e a derrota para o Vietnã abalaram essa condição. Concorrentes na corrida tecnológica e econômica, Japão e Europa Ocidental, começam a alcançar esse poderio. Até mesmo o mercado interno americano foi alcançado por uma avalanche de carros e capitais japoneses e europeus, que chegaram a investir no setor imobiliário das grandes cidades norte-americanas. O próprio dólar se enfraqueceu no cenário internacional e em termos econômicos, sua força já não é de uma superpotência incontestável.
No plano político e cultural, a força da potência também está abalada no mundo ocidental, pela degradação das condições am­bientais do planeta. Em outras áreas do mun­do, cresce a rejeição aos EUA e às outras po­tências de modo bastante grave, o que pode ser exemplificado pelos atentados terroristas nos EUA, na Espanha e na Inglaterra.
Paralelo a isso, está surgindo uma nova ordem solidária, menos influenciada pelos interesses particulares, em nome de um bem co­mum. Será? Observe o mapa “Ajuda pública ao desenvolvimento (países beneficiários)”, na página 46 no caderno do aluno, que apresenta o volume de ajuda ao desenvolvimento recebida por diversos países. Mas:
- A superpotência americana ajuda menos que o Japão. Será o Japão mais solidá­rio, ou a intenção dessas ajudas é geopolítica antes de tudo? A ajuda do Japão é no Oriente, na sua vizinhança. O que isso indica? Tentativa de influência para continuar dominando o bloco asiático?
- O fluxo de ajuda americana à Rússia é grande. Solidariedade entre as antigas superpotências (inimigas) ou novo círculo de interesses está se impondo? Qual a lógica das ordens mundiais até aqui existentes e as condições para sua perma­nência?
- Os países mais pobres do mundo, na África, não estão entre aqueles que recebem mais ajuda. Por que? Será porque não representam uma boa área de influência e negócios?
- Na América do Sul, o Brasil está entre os que recebem mais ajuda. É uma ótima região para negociações? Será esse o motivo?
            No mundo contemporâneo, existem refugiados porque são vitimados por conflitos regionais ou internos em vários países do mundo. Recebem tratamento humanitário, conforme decisões de organismos internacionais. Não são considerados refugiados os que não abandonam as próprias fronteiras do país em conflito (já que não saíram do país).
Depois do atentado terrorista a Nova Iorque, os EUA invadiram o território do Afeganistão, suposto esconderijo do líder terrorista Osama Bin Laden. Com a invasão do Afeganistão, mais de 1 milhão de pessoas fugiram para o Paquistão, seu vizinho. As principais vítimas de situações como essas são populações mais pobres, em geral camponesas. Como não têm recursos para empreender fugas mais distantes, terminam permanecendo nas proximidades, em campos de refugiados.
Sobre o grande volume de refugiados de guerra, no centro da África, podemos afirmar que nessa área há vários Estados nacionais desagregando-se em razão de conflitos não resolvidos que vêm da descolonização. A constituição nacional (a configuração de Estados nacionais) no continente africano guarda desde sua origem um potencial imenso de conflitos. O processo colonial e a posterior descolonização moldaram Estados em dissociação com as dinâmicas sociais locais, algo que mantêm em boa medida até hoje.

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